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Portugal, o país do «Parece Mal».

por Fernando Lopes, 5 Set 16

Início de verão. Descem a Rua da Picaria mais de quinze raparigas espanholas vestidas de ovelha. Algumas usavam cartazes, por eles percebi que se tratava de uma despedida de solteira. Agosto. Também na baixa várias senhoras espanholas falam alto e divertem-se com a figura dos maridos. Estes seguem atrás de orgulhoso avental posto, galos de Barcelos e outros motivos tradicionais portugueses. Os espanhóis sabem gozar consigo mesmo, não têm vergonhas, fazem figuras disparatadas com o maior dos à-vontades.

 

Portugueses típicos não seriam capazes de brincadeiras deste tipo porque «parece mal». Muitos de nós estamos mais preocupados com o que os outros pensam de nós que com tudo o resto. Uma espécie de seriedade, circunspecção, muito nossa. Nha, os portugas não fazem palhaçada, apenas se riem com as macacadas dos outros. Vejo os casais de meia-idade na baixa e penso: quantos de nós seriam capazes de se ridicularizar, rir da sua triste figura? Muito poucos. Chateia-me esta gente ensimesmada e séria, com ar de quem tem algo a perder, apenas ar e vento na carteira, roupa de marca comprada no outlet.  

 

Um dos exemplos mais comoventes de companheirismo, desta salutar descontracção, estava retratado numa foto em que dois septuagenários, numa feira típica americana, usavam t-shirts iguais. A foto apanha-os de costas, mão dadas, cabelos brancos. A dele dizia: - IF I GET TOO DRUNK CALL TESS. A dela, simplesmente, I AM TESS. 

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15 comentários

De alexandra g. a 05.09.2016 às 21:19

Tu desculpa lá mas tens que partilhar os direitos de autor do texto comigo e, porventura, com mais um grupo bacano de gente :)


É que digo isto há que tempos (nem precisamos de apontar os casais de meia idade, basta ver os meus colegas do desemprego dos dias, rondando os 30 e tal anos, de uma seriedade com a aquisição de casa própria, discutindo carros para bebés, uma ausência total de ideias que lhe permita sustentar uma pequena conversa, só sabem mesmo divertir-se esfaqueando a direcção pelas costas: pela frente falo eu e ainda consigo rir de todo este ridículo).

De Fernando Lopes a 05.09.2016 às 21:32

Eu sei, sinto isso, é tudo gente muito séria, cheia de responsabilidades, com uma imagem a preservar. Lêem os livros que toda a gente lê, planeiam fins-de-semana pela TimeOut, uma coisa tão sem graça, sem imaginação, enfatuada, que me dá vontade de chorar. :)

De alexandra g. a 05.09.2016 às 21:35

Chorar?
ok, estou aqui a beliscar-me ferozmente a ver se acredito, mas... não dá :))

De Fernando Lopes a 05.09.2016 às 21:37

;) Aqui o escriba gosta de um pequena nota de melodrama.

De Genny a 05.09.2016 às 22:13

Devo ter alguma costela espanhola, porque sou a primeira a rir das minhas trapalhadas e figuras tristes. Mas o raio do parece mal condiciona tanto as atitudes de tanta gente.

De Lucília a 05.09.2016 às 22:48

Por aqui são "os cagões".
'Ar e vento na carteira"
Nunca perder a verticalidade como dizia um amigo quando estava com os copos.Os séria andam sempre com os copos e o pior é que não o sabem.


Bom texto

De Fernando Lopes a 05.09.2016 às 22:54

Há muito presunção absolutamente infundada. Oh pá, que lixe, palhaços somos todos, só que alguns não o sabem. 
Image

De Lucília a 06.09.2016 às 02:49

É a ridicula presunção do controle.
Nada controlamos -um segundo e escafedeu-se tudinho e, por vezes desgraçadamente, ainda ficamos vivos para assistir ao resto dos nossos dias aqui

De Fernando Lopes a 05.09.2016 às 22:51

Muitas vezes as nossas gaffes ou figuras tristes têm muito menos importância que a que de facto lhes atribuímos. Saber brincar, saber rir de nós mesmo, são das atitudes mais salutares que podemos ter.  

De Anónimo a 06.09.2016 às 09:50

Realmente os portugueses são um povo mais circunspecto que os nossos vizinhos, mas não me venhas com o exemplo dos espanhóis.  Não me interpretes mal, pois eu gosto imenso de Espanha, do seu estilo de vida e da sua alegria, mas são uns porquinhos, falam aos gritos em todo o lado, mesmo naqueles onde deveriam respeitar o silêncio.
No entanto concordo contigo quando dizes que nos preocupamos demasiado com o que pensam de nós, mas infelizmente faz parte da nossa maneira de ser e da nossa educação e não é fácil fugir disso. E quem sabe se a "Tess" não está já farta das bebedeiras do companheiro e dele se perder?
Bj
MM 

De Fernando Lopes a 06.09.2016 às 18:44

Uma das maiores formas de liberdade que podes ter é fazer o que te der na gana, marimbando-te para o que os outros pensam. Os espanhóis são excessivos, concordo, mas antes assim que sempre encolhido como o português. By the way, se a Tess estivesse chateada com ele, achas que alinhava na brincadeira?


Beijo.

De Ana A. a 06.09.2016 às 18:05

Ora, vamos lá a ver se pomos um pouco de ordem nestes fundamentalismos:
- a maior parte dos tugas, enquanto turistas, mesmo dentro do seu país, também fazem palhaçadas q.b., com copos e sem copos. Ninguém os conhece e não correm o risco de dar de caras com o chefe, ou com os "profes" dos filhos...
Quanto à circunspecção aliada a roupas de marca e estatuto social (pobrezitos), há-os em quase todas as latitudes, por isso, os tugas não são melhores nem piores. Há-os para todos os gostos, e o grosso são tão somente, o fruto de uma sociedade de status social e gostos massificados. E não estou a dar nenhuma novidade! 
Eu não me revejo nem nuns, nem noutros! Generalizações também não são o meu forte... (o Fernando sabe). :)

De Fernando Lopes a 06.09.2016 às 18:47

Pode não gostar, falar de «portugueses» é sempre um risco. Assumo-o. Ninguém se preocupa mais com que o vão pensar dele que o português, esse povo peculiar que tem como peixe mais apetecido, um gadídeo pescado a mais de 2.000 kms da nossa costa. :)

De Rita a 06.09.2016 às 19:35

Há portugueses sisudos, palhaços, frios, quente e outros mornos... Agora o que não escapa ao português é a mania que tem de dizer mal dos portugueses comparando-os com outros "eses" ou alguns "óis". E eu, como portuguesa que sou, acho que os portugueses deviam ser mais como os outros "eses" e não estarem sempre a dizer mal de si próprios!!! :-)

De Fernando Lopes a 06.09.2016 às 20:12

Eu sei, Rita. Também sabe que como bom português, sou mais crítico com o que amo. 

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