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O destino como titereiro.

por Fernando Lopes, 29 Dez 14

Embora seja de trato fácil, frequentemente bem-disposto e expansivo, não sou do género de fazer amizades com facilidade. Provam-no o núcleo duro, exposto a 44 de anos de convívio, partilha, glória e derrota conjuntas. Vidas repartidas desde o banco da escola, onde a sinistra mestra utilizava métodos hoje considerados bárbaros, outrora glorificados pela eficácia: violência e medo. Aprendemos à chapada, reguada, palmatória, sempre temerosos. Uma hierarquização militar, em que um simples verter de águas era ordenado: a fila tinha à frente os da 4ª classe, 3ª e assim sucessivamente. Até para o xixi havia hierarquia. Mais que o medo, uniu-nos a capacidade de resistência à adversidade, tornando-nos uma espécie de companheiros de armas, em que, nos momentos verdadeiramente adversos se usa a táctica romana do quadrado para que nada penetre nesta relação indestrutível.

 

A vida conduziu naturalmente à diversificação de relações, a novos amigos, sempre preservando os que comigo sobreviveram ao longo round que foi a escola primária. Ocasionalmente estacionam no meu coração uma ou outra alma. Aquelas a que quero verdadeiramente e que não são originárias nesse momento de encantamento, descoberta e angústia que é a infância, contam-se pelos dedos de uma mão. Entre eles duas mulheres bastante mais jovens e o ex-marido de uma delas.

 

E no entanto, entre os telefonemas da quadra – prefiro falar com as pessoas a mandar emails ou SMS – o que mais me tocou foi de um tipo com quem conversei uma única vez. Admiro-lhe a inteligência, cultura, o modo pausado, a capacidade de ignorar convenções ou conforto. Uma sensação estranha de que sempre fez parte do meu mundo, senão do real, do imaginado. Aquele que obviamente seria meu amigo, com quem se partilham vitórias e amarguras. Como se a mão de um titereiro invisível manipulasse o destino e juntasse esta dupla improvável na partilha de um dos mais nobres sentimentos: a amizade.

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8 comentários

De Ricardo a 29.12.2014 às 10:02

Boas Fernando,


Enquanto suspeito de pertencer a esse núcleo duro, o que me faz muito feliz, subscrevo completamente. O inicio das amizades pode ser o mais aleatório possível, a manutenção dela é mais difícil conforme as pessoas o são também. Sem uma raiz tão funda como as dos nossos mais antigos amigos é raro e especial que alguém na nossa vida o consiga. Tenho felizmente também conseguido fazer entrar na minha vida algumas, muito poucas, pessoas cuja perda me seria muito ingrata. Amizade é uma espécie de Amor sem, ou vá lá,  com pouco sexo. Um Grande Abraço Meu Amigo, e que 2015 nos traga a certeza dessas amizades que não se negoceiam entre várias outras coisas boas :).

De Fernando Lopes a 29.12.2014 às 19:09

Meu caro, sabes que tens lugar de destaque no panteão dos meus afectos, nem poderia ser de outra forma. Há gente, como tu, que entram sub-repticiamente e instalam-se como um vírus bom.


Grande abraço.

De bloga-mos a 29.12.2014 às 17:10

Não recebi telefonema nenhum ó caramelo. Vê lá isso...

De Fernando Lopes a 29.12.2014 às 19:11

This is a video hug to bloga-mos.


http://youtu.be/rGeOss2fC8c

De bloga-mos a 30.12.2014 às 11:23

Também não era preciso exagerar, Fernando. Fizeste-me esgotar uma caixa de lenços assoadores...

De golimix a 31.12.2014 às 10:52

Normalmente divido as boas festas por categorias. Telefono aos mais importantes, e que não posso estar pessoalmente,  ou dou em pessoa um abraço e um beijinho 

De Fernando Lopes a 31.12.2014 às 18:50

É uma táctica. Eu telefono a todos os que verdadeiramente amo e procuro telefonar aos que não amo assim tanto.

De golimix a 03.01.2015 às 11:39

Ao resto do pessoal mando uma SMS. Não dá para telefonar a todos! E como esses estão em segundo plano...

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