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Eu e o meu amigo «Jim Beam» (II).

por Fernando Lopes, 17 Jun 16

Duas garrafas do meu amigo na noite passada. Beber assim dá cabo de um gajo. Acordei molhado e imerso num forte cheiro a azedo. Para o dizer sem tretas, mijei-me e vomitei na almofada. Quando cheguei ao espelho tinha um novo penteado, cena punk. O vomitado pôs-me um dos lados do cabelo espetado. Porra, efeito gel por vomitado é o mais degradante a que um gajo pode chegar. Tomei banho de água quase a ferver, esfreguei-me até a pele ficar vermelha como se estivesse a desinfectar corpo e alma. Embrulhei os lençóis, cobertura de cama, boxers, pijama. Algodão a 90º.  Foda-se, não bebo mais. This is the beginning of a new era, seu merdas. Passei dois dias a arrumar a casa, a pôr as coisas nos lugares, lavar roupa, arrumar livros, deitar fora o lixo. Uma metáfora prática para «arrumar a vida». Arrumar o que se vê enquanto se organiza a cabeça.

 

Há quinze dias que não bebo. Tenho pensado na Joana, uma ruiva com cara de um anjo, corpo de demónio e esperta comó caraças. Atraiu-me bastante, mas estava sempre demasiado preocupado com o que iria beber a seguir para lhe dar importância. Acho que me disse que estava só, vou ligar ao Luís a confirmar, pode ser que aceite vir jantar comigo. O mais provável é dizer-me que está ocupada e me estique o dedo do meio enquanto me dá a tampa. Que se lixe, mais tampa menos tampa consigo contribuir para uma cadeira de rodas de um paraplégico.

 

- Joana? Provavelmente não te lembras de mim. Como estás?

 

- Fernando, ‘tás bem?

 

- (Foda-se, lembra-se do meu nome) Olha Joana, vou ser curto e grosso. Deixei de beber, tenho pensado em ti. Querias convidar-te para jantar e prometo não te embaraçar.

 

Fez-se uma longa pausa.

 

- Não sei se deva.

 

- Porra, o que é que tens a perder? Na pior das hipóteses acrescentas o meu nome à lista de gajos a evitar a todo o custo.

 

Surpreendentemente, o pedaço de pecado ruivo aceitou. Estou tão excitado como se tivesse 15 anos.

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17 comentários

De alexandra g. a 17.06.2016 às 20:33

a tua plateia de leitores regozija-se com o facto de teres optado por não suicidar o bourbon whisky man: concedeste-lhe a benesse do vómito com redenção: deste-lhe banho, arrumaste-lhe o antro, transformando-o numa casa, deste-lhe o telefone (nada de telemóveis :) para a mão e deixaste que lhe assomasse o desejo, mesmo que a medo :)

De Fernando Lopes a 17.06.2016 às 20:36

Foi por sugestão tua, para veres a consideração em que te tenho.

De alexandra g. a 17.06.2016 às 20:42

merci bien, mas é com modéstia que me resumo à qualidade de detectora de bons/excelentes escribas e, principalmente, de gente de íntegro carácter :)


parabéns e...continua :D

De Fernando Lopes a 17.06.2016 às 23:05

Agradeço humildemente a confiança depositada no gerente da taberna. 

De Linda Blue a 17.06.2016 às 22:06

Boa sorte nisso :)
Água e suminho de laranja, vá. (Até combina com a pele e cor de cabelos dela.)

De Fernando Lopes a 17.06.2016 às 23:01

Só uma mulher se aperceberia desses detalhes, que seria de nós sem vossemecês. :)

De Anónimo a 18.06.2016 às 11:25

Estou imensamente ufano...
Filipe em taquicardia 

De Fernando Lopes a 19.06.2016 às 00:27

Normal. Todos ficamos ufanos com a «estória» ainda por escrever.


Abraço.

De Pseudo a 19.06.2016 às 18:58

Oh! Esquece lá a Joana e mete masé uma cena com crime hediondo na Rua da Boavista!
Ou não esqueças a Joana, pronto....mas a parte IV tem que incluir algo criminoso :)

De alexandra g. a 19.06.2016 às 19:10

Caro escriba,


livra-te de colocares uma naifa nas mãos da Joana ou do bourbon whisky man; não tenho nada contra crimes do foro literário, mas que ambos (J. + BWM) os solucionem, isso sim, ainda que vá cada um para seu lado, depois do mistério do desejo e do crime resolvidos :)

De Pseudo a 19.06.2016 às 19:18

Ai alexandra, claro que nem o bêbado nem a Joana cometeriam nenhum crime. Ele é que poderia resolver qualquer coisa assim tipo Hole. O Fernando tem jeito prá coisa... :)

De Fernando Lopes a 19.06.2016 às 21:02

Nope. São dois tontos, mas nenhum é criminoso. 

De Fernando Lopes a 19.06.2016 às 21:01

Um «clássico merdoso» como este tem de ter crime e paixão. Serão servido de acordo com a escassa imaginação e talento do escriba. ;)

De alexandra g. a 19.06.2016 às 22:19

Até ver, Pessoa (doravante, será o teu nome, desculpa, mas é mania que vem da infância com os manos e a mana :) nada de merdoso na prosa do escriba, bem pelo contrário, calma lá c'o charuto, que virtudes tenho poucas, mas as que tenho, são de mui apreço: leitora, observadora :D

De Anónimo a 20.06.2016 às 11:24

Alexandra, soube por pessoa que estimo que serás pessoa estimável. Porém, não percebo um caralho sobre o aqui escreves. Mas mesmo nada e fico triste...
Filipe das coisas

De alexandra g. a 20.06.2016 às 19:35

ó Filipe das coisas,


já somos dois a não perceber um caralho do que escrevo, mas às avessas: aqui e na maioria dos comentários que boto nos sítios dos outros, percebo tudo muito bem; depois, regresso à hospedaria e perco-me nos meus labirintos.


é normal, com qualquer um de nós (excepto tu, que só labirintas por aqui :p)

De alexandra g. a 20.06.2016 às 19:41

ah! e quem anda por aí a causar danos na minha construção pessoal de mulher ateia, de esquerda, uma sobrevivente de todollos costados, chamando-me coca-cola, marshmallow, coisas dessas, estimáveis em relvados com barbecue lá nos US of A, jamais aplicáveis a moi? Hum?

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