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Eu e o meu amigo «Jim Beam».

por Fernando Lopes, 9 Jun 16

Divorciei-me há cerca de dois anos. Fiz o que era esperado, uma divisão justa de bens, custódia partilhada da filha. Aluguei um pequeno T2 nos subúrbios, comprei um sofá, uma estante, um gigantesco televisor de última geração, uma cama de casal. De casal para quê? Trouxe a minha roupa, livros e CD. Às vezes, quando estou muito bêbado, ponho a música demasiado alto. Os vizinhos já se queixaram. Tive alguns pequenos affaires, nada de sério. Existem as mulheres que me querem e não desejo, as outras que quero nem me vêem. Habituei-me a estar sozinho, já consigo cozinhar uma sopa, arroz, uns pratos simples. Como pouco, sobretudo bebo. Ontem conheci uma mulher interessante, mas tinha três filhos e um divórcio traumático. Para traumas bastam os meus. Ao princípio os amigos valeram-me, hoje já raramente me ligam, ninguém quer aturar um bêbado deprimido. A minha vizinha Susana veio cá a casa duas ou três vezes. É um cliché, solteirona com gatos. Tentei fazer amor com ela, mas estava tão bêbado que não consegui. Desde aí evito-a sempre, a vergonha do fracasso sobre a minha cabeça. O meu melhor amigo é o «Jim Beam». Não recrimina, não quer casar comigo, filhos ou uma carrinha. Aceita-me como sou e traz-me o que procuro – esquecimento. Ontem a Joana telefonou a dizer que tinha entrado na faculdade no curso que queria, literatura. Tem talento, vai ser bem-sucedida. Estico a mão direita e bebo directamente da garrafa, olho os comprimidos na mesa de apoio. Porreiro, filha arrumada, posso morrer à vontade. Se tudo correr como planeei só vão dar pela minha falta quando estiver a tresandar de podre. Bem feita seus filhos da puta, sempre gostei de chatear.

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19 comentários

De Pseudo a 10.06.2016 às 10:55

Eh pah, parecia que estava a ler o Harry Hole sobre ele próprio, com a diferença de que ele nunca casou nem teve filha. De resto, é sem tirar nem pôr...

De Fernando Lopes a 10.06.2016 às 11:20

Eh pá, não sei se tens noção, mas isso é um elogio do caraças. 
Obrigado. :)

De Henedina a 10.06.2016 às 12:31

Texto muito bom...é seu? ;)

De Fernando Lopes a 10.06.2016 às 14:04

Goze, goze, a minha vez há-de chegar.
Beijo.

De alexandra g. a 10.06.2016 às 21:45

Fernando, Dame Pseudo não gozava contigo, segundo me pareceu. Nunca li (poor poor me, chuiff!) Jo Nesbo, o tal do 'o' especial :) mas juro que, quando li este pedaço de óptima prosa, pensei com os atacadores dos meus sapatinhos (uma pessoa nem sempre tem botões ou fechos de correr sobre si): 
- querem lá ver que o Fernando é um dos novos autores no relançamento da Colecção Vampiro?


a sério :)

De Fernando Lopes a 10.06.2016 às 22:03

Um livro policial é normalmente muito mais que a «estória». No caso do Nesbo, a personagem Harry Hole tem uma dimensão dramática enorme, um tipo torturado, sinuoso, cruel às vezes, indiferente quase sempre. Vale muito a pena. O resto é generosidade tua que agradeço enternecido, não fosse este teu escriba um «mariquinhas». 

De alexandra g. a 10.06.2016 às 22:12

And now for something very serious, once again:)

- não lamento não ter lido (ainda) seja o que for; como desconheço o futuro (e ainda bem), tenho tempo, supostamente :)

- também não lamento o passado

- a tua prosa está uma delícia e, na cont., a existir (vá láááá! :) o gajo não se suicida coisa nenhuma, encontra uma morena que lhe vira a cabeça ao contrário e ele percebe que tem um traseiro de arromba :D

- és tão «mariquinhas» quanto eu, que não me abstenho nunca de falar a verdade, seja a quem for; só não parti a cabeça do meu ex-marido com aquele castiçal de pau preto do bisavô porque o mataria e tinha duas filhas para criar: merecia ter morrido, mas elas não mereciam ter ficado sem pai, pelo que registei a queixa (duas, de facto) na APAV, que nas polícias ficaria com cadastro, o que na empresa lhe traria dissabores, quiçá o desemprego.

De Fernando Lopes a 10.06.2016 às 22:39

E fizeste bem, merecia o castiçal. Entre entes dois comentários escrevi um micro-conto sobre «anomalias da vida familiar». Espero que gostes, é-te dedicado, i.e. ainda não pus a dedicatória, mas vou já pôr.

De alexandra g. a 10.06.2016 às 22:45

please don't, i'm still movin' on :)

De Fernando Lopes a 10.06.2016 às 22:46

Done.

De alexandra g. a 11.06.2016 às 01:09

Due punishment:


terás que continuar a (chamemos.lhe) estória, bolha, o caralho :)

De Pseudo a 11.06.2016 às 11:59

Não era gozo, não Alexandra e Fernando. É verdade que o comentário não foi escrito com a intenção de elogiar, mas ainda bem que encaraste como tal. Foi mesmo o primeiro pensamento que me ocorreu após a leitura. E eu sou viciadíssima no Harry Hole, é impossível não gostar do detective anti-sociável e eremita. Venham mais livros da colecção, pois os filmes nunca lhe farão justiça!

De Fernando Lopes a 11.06.2016 às 12:21

Também gosto muito, li quatro. Obviamente que um dos meus «textículos» fazer recordar Nesbo é um enorme elogio. :)

De Pseudo a 11.06.2016 às 14:45

Queres que te empreste todos os outros? :)

De Fernando Lopes a 11.06.2016 às 15:43

Obrigado, mas eu vou comprando. Tenho espírito de coleccionador.

De Pseudo a 11.06.2016 às 19:36

Dica: ando a descobrir "Joona Linna", da outra dupla sueca (Lars Kepler) concorrente do J.N e do S.L...para quem gosta do género. Dá uma vista de olhos...

De Fernando Lopes a 11.06.2016 às 19:44

Luso-Sueca, s.f.f. Já li «O Hipnotista». Boa trama, mas às personagens falta a densidade psicológica do Hole. :)

De Pseudo a 11.06.2016 às 20:37


Por acaso, o nome "Alexandra" fez-me pensar nessa possibilidade de dupla nacionalidade, mas não aprofundei o assunto. E tens razão, a personagem masculina ainda não tem a mesma aura e a mesma densidade do Harry, mas para lá caminha, bem como a Saga (que aparece n'O Executor"; descobre-a :)).
Há 3 dias acabei de ler O Hipnotista e hoje tenciono acabar o outro supramencionado. E brevemente devo adquirir "A Vidente". Eu, qd gosto deles, vou até às últimas.




De Fernando Lopes a 11.06.2016 às 22:15

São assim as mulheres a sério.

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