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Epifania da morte.

por Fernando Lopes, 4 Ago 15

Recordo-me bem. Teria nove ou dez anos. Subitamente, do nada, uma ideia fica clara na minha cabeça: vou morrer. Esta súbita tomada de consciência da mortalidade é um momento de profundo terror. Senti calafrios, um tremor na boca do estômago. Aninhei-me em posição fetal, senti todo o corpo gelar e encolher como se a morte ela mesmo me tivesse vindo anunciar a sua presença, a dizer: estou aqui, sou a única certeza da tua vida. Agora que me conheces habituar-te-ás à minha companhia, ignorar-me-ás, mas estarei sempre presente.

 

Aprendemos a dominar este medo, a viver com ele. Até hoje nunca tinha partilhado este episódio com ninguém, pois não sabia se era uma singularidade ou algo comum. Um destes dias a minha filha a meio da noite entra pelo quarto dentro a chorar. Também ela tinha visto a ceifuda, tomado consciência de que não era para sempre. Eu, pai híper-protector manifesto a minha incapacidade em lidar com esta epifania. Apenas lhe disse que esse momento era distante, um sono de que não se acorda, natural porque tudo o que vive morre.

 

A paternidade coloca desafios imprevisíveis, não estava de todo apto para falar sobre morte com uma criança de dez anos.

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9 comentários

De Anónimo a 04.08.2015 às 11:18

Comentário apagado.

De Fernando Lopes a 04.08.2015 às 11:49

Partilhar da forma como o fizeste é simultaneamente um acto de coragem, catarse, e amor. Tudo o que me resta acrescentar é um enorme obrigado.

De Maria Alfacinha a 04.08.2015 às 19:09

Não estás só, não. 
Devia ter mais ou menos a mesma idade quando me aconteceu o mesmo. A partir daí era um pensamento (imagem, sensação?) recorrente sempre naquele período de tempo que antecede o sono profundo. Faltava-me o ar, tinha que me sentar na cama, acender a luz, como se estivesse a despertar de um pesadelo.
Passou-me no minuto (instante?) exacto em que, num acidente de automóvel, senti o carro a capotar. Nesse breve segundo pensei que tudo tinha acabado, que tinha chegado a minha hora. Mas estava tão calma, tão serena, e não em pânico como achei que estaria quando a morte me viesse buscar, que nunca mais senti medo ou voltei a ter tais pensamentos. Estranhamente foi uma sensação tão boa, uma experiência quase surreal e muito melhor - mas muito melhor! - que as noites em que me faltava o ar.

De Fernando Lopes a 04.08.2015 às 19:44

Com a maturidade a ideia de morte passa a fazer parte do nosso consciente «adormecido». Uma vez, num acto singular de empreendedorismo, tomei umas pastilhas e quase que passava para para o lado de lá. Aí também não tive medo. Estranho, não é?

De Maria Alfacinha a 04.08.2015 às 21:44

Se calhar não é estranho e se calhar é assim mesmo.
Todas as pessoas que conheço que passaram por experiências parecidas, em que por pouco não tinham "atravessado a rua", me relataram o mesmo: a ausência de medo e até uma certa serenidade.
Talvez seja um processo químico qualquer, que nos faz sentir assim.
Uma coisa é certa: deixou-me muito mais descansada em relação à minha própria mortalidade :-)
(beijinho grande, Fernando)

De Fernando Lopes a 04.08.2015 às 22:36

Há uma explicação química e orgânica para as experiências de quase morte serem todas similares. Apesar disso, interessa-me menos a ciência e mais a metafísica, mesmo que não sejam exclusivas, e não são. Se a ciência nos engana muitas vezes, o coração também é traidor. Talvez seja esse o meu local, uma espécie de «entre mundos». :) 

De HORIZONTE XXI a 04.08.2015 às 19:27

Pois comigo é precisamente ao contrário, nunca tive grande medo da morte, ainda hoje não tenho, tenho medo sim da forma como poderei morrer.
Há sempre aquela fase de interrogação mas penso que não lhe posso chamar medo.
Não sei explicar mas sempre senti a morte como não existente, não sei.
Ainda hoje que já estou a ficar velhote tenho uma aceitação da morte um bocado estranha, fora do comum.

É preciso não esquecer que começamos a morrer no preciso momento em que somos concebidos, estranho não?

Abraço livre.

De Fernando Lopes a 04.08.2015 às 19:51

Compreendo-te, porque pior do que a morte é perder a razão.  Alzheimer e doenças neurológicas semelhantes são uma condenação de morte em vida, pior para nós e principalmente para os outros. 


Abraço libertário.

De redonda a 12.08.2015 às 00:25

Tenho uma pequena esperança que haja um depois...

De Fernando Lopes a 12.08.2015 às 11:57

Não tenho, e consigo viver com essa desesperança.

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