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E agora para algo politicamente incorrecto...

por Fernando Lopes, 17 Mai 18

Tenho procurado manter-me calado por não ter coisas muito agradáveis para dizer. Hoje apetece-me falar de arredamento no centro do Porto, algo que conheço bem. Desde 1975 que o Estado obrigou os senhorios a serem suporte financeiro da inexistência de política de habitação. Durante décadas as rendas estiveram congeladas, para alterar esse estado de coisas foram dados tímidos passos, titubeantes, que valem quase nada. Quem investiu num prédio ou apartamento para alugar tem hoje uma mão cheia de nada e outra de porra nenhuma.

Escrevo com conhecimento de causa, na Rua do Almada, familiares têm um prédio que tem rendas de 200 euros por um T2 e uma armazém de mais de 600 m2 por 500. O que se gasta anualmente em obras de manutenção é superior aos que os inquilinos pagam, isto é, essas pessoas têm um rendimento negativo. Todos os anos. Há décadas.

 

Com os centros das cidades alvo de grande procura, existem imensas remodelações. O meu melhor amigo é arquitecto e chama-lhe, bem, «fachadismo». Destrói-se o edifício e e a sua história, rebentam-se com clarabóias e vitrais, fazem-se muitos T0s para alojamento local, ignorando por completo o legado histórico e de época que muitos desses edifícios representam. O que está a ser feito nesta cidade não é arquitectura, é uma espécie de «prostituição» ao m2.

 

O Porto, o País, não tem que ter os privados a suportar uma política social de habitação que o Estado não assume. O centro de Londres, Nova Iorque, Paris, Lisboa, não é habitado por idosos pobres, com rendas sociais subsidiadas por particulares. Lamentavelmente, é necessário restaurar em vez de fachadar. Isso custa muito caro, depois da obra pronta apenas famílias de classes altas lhe podem chegar. É a vida.

 

O governo pode sempre comprar a preços de mercado, restaurar, fachadar, fazer o que entender, não pode é voltar a um PREC à moda da Roseta.

 

Compreendo bem o drama social que isso acarreta, o desenraizamento de idosos, as lágrimas que isso causa. Mas não é aos proprietários que cumpre esse papel. Disse. Agora chame-me fascista à vontade. Quero que dane.

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6 comentários

De redonda a 17.05.2018 às 23:24

eu não vou chamar, nada primeiro porque estou muito contente por haver um novo texto por aqui, segundo porque em parte concordo, por pensar que deveria ser o Estado, todos nós, a suportar a diferença nas rendas para manter os idosos com baixos rendimentos nas casas, e não os senhorios
um beijinho e boa noite (e quero mais novos textos)

De Fernando Lopes a 18.05.2018 às 07:19

Gábi, não sou insensível ao drama da deslocação dos idosos, o retirá-los da baixa, o ficarem sem os vizinhos - os que restam - como suporte. Mas se a reabitação urbana está a ser feita por privados, a especulação é inevitável. Como dizia o Zappa «We're only in it for the money». 
Beijo.

De Anónimo a 18.05.2018 às 10:20

Já estava na iminência de pedir à PJ a emissão de um comunicado do tipo: desapareceu do seu blog certo e determinado individuo que foi visto pela última vez atrás de um monte de couves num baldio em Campanhã. 


Filipe que estava com saudades das tuas cenas. Abraço forte... 

De Fernando Lopes a 18.05.2018 às 18:04

Filipe, estou em dívida contigo. A vida não tem estado fácil, daí o meu silêncio.


Abraço. 

De Anónimo a 21.05.2018 às 14:01

Boa tarde
Não faço comentários ao "post"  pois não vivo em casa arrendada ou sou senhoria, apesar de compreender o problema quer dos senhorios, quer dos arrendatários.
Comento sim a agradável surpresa de ver que voltaste. Nem que seja por um breve momento. Não abandones os teus leitores.
bjs
MM 

De Fernando Lopes a 21.05.2018 às 19:21

És proprietária, como muitos de nós, provavelmente porque era (e é) a única alternativa sensata. Pagamos milhares de euros de impostos todos os anos, seria razoável esperar do estado uma política para a habitação, não este faz de conta em que os inquilinos são sempre pobres e os senhorios sempre ricos. 

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