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Do poder analítico da literatura.

por Fernando Lopes, 25 Jul 16

Mas o tempo… o tempo primeiro fixa-nos e depois confunde-nos. Pensávamos que estávamos a ser adultos quando estávamos só a ser prudentes. Imaginávamos como estávamos a ser responsáveis, mas estávamos só a ser cobardes. Aquilo a que chamávamos realismo acabava por ser uma maneira de evitar as coisas e não de as enfrentar. Tempo… deem-nos tempo suficiente e as nossas decisões mais fundamentadas parecerão instáveis e as nossas certezas, bizarras.

 

[…]

 

Quantas vezes contamos a história da nossa vida? Quantas vezes adaptamos, embelezamos, fazemos cortes matreiros? E, quanto mais a vida avança, menos são os que à nossa volta desafiam o nosso relato, para nos lembrar que a nossa vida não é a nossa vida, é só a história que contamos sobre a nossa vida. Que contámos aos outros mas – principalmente – a nós próprios.

 

JULIAN BARNES IN «O SENTIDO DO FIM»

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7 comentários

De Gaffe a 25.07.2016 às 20:13

Com este calor abrasador e o menino  tinha de me deprimir!
Tão verdade e como todas as grandes verdades até dói.

De Fernando Lopes a 25.07.2016 às 21:05

Para si, ainda muito jovem, são só «verdades distantes». Na medida em que envelhecemos tornam-se tão mais reais e dolorosas que nem imagina. 

De alexandra g. a 26.07.2016 às 01:31

For the record: li um único livro dele (que adorei e tenciono ler mais).


Por outro lado, a idade (e tudo o que entendemos - ou fomos condicionados para... - por aquilo que comporta) não confere a ninguém (sequer ao Barnes :) não existe. É uma construção, como qualquer outra.


E o Barnes, tanto qunto sei, tornou-se particularmente amargo, a partir de determinado ano. De certo modo, aclimatou-se aos condicionamentos externos, talvez mais do que ao seu brilho próprio, que deixou esmorecer.

De alexandra g. a 26.07.2016 às 01:34

escrevo sempre estupidamente rápido, pelo que faltou ali dizer que a idade não confere a ninguém qualquer velhice, talvez seja bastante mais o oposto: a idade, o que "dá", é a exacta noção do que às pessoas foi sonegado... 

De Fernando Lopes a 26.07.2016 às 07:28

A idade coloca tudo numa perspectiva: a do tempo que foi, que é mais do que o que há-de vir, daí que inevitavelmente tendas a um ideia revisionista da tua própria «estória». Penso eu de que, como diria o meu presidente. :)

De Carla a 27.07.2016 às 15:23

Deve ser por isso que tem andado muito na moda a expressão «reescrita da narrativa», que mais não é «contar as coisas à maneira de cada um». :)

De Fernando Lopes a 27.07.2016 às 18:33

Não será do teu tempo, mas gosto mais da palavra «revisionismo». Tem um peso de MRPP e de PREC, em que acusavam o PCP de ser um partido à direita. Viva o camarada Arnaldo Matos e a sua bigodaça estalinista, grande educador da classe operária. :)

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    Tu és de pouco alimento, a despesa suporta-se bem....

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