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Dava o mundo por um olhar assim.

por Fernando Lopes, 7 Set 17

Quando almoço mais rapidamente – afinal são só couves e carne ou peixe – dou um pequeno passeio a pé. Junto à churrasqueira da rotunda da Boavista está sempre um sem-abrigo e os seus cães. Talvez os cães sejam o seu diploma de humanidade, a sua companhia, um modo de comover os transeuntes. Não sei, nem interessa. Importa o carinho com que os trata – uma mantinha no chão, dois ou três brinquedos para a bicharada. Contrariamente ao habitual, desta vez foquei-me nos bichos. Olhavam para o homem, e os seus olhos transmitiam amor. Não era só amor, era um amor incondicional, inquestionável, quase asfixiante. Nunca senti sobre mim, de bicho ou humano, um olhar igual. É estúpido, bem sei, mas tive inveja daquele homem. Dava o mundo por um olhar assim, para que alguém me transmitisse tal enlevo nem que por um segundo fosse.

 

P.S. - Não, não desejo que alguém olhe para mim caninamente, apenas que exprimisse com os olhos amor de tal modo puro e sem filtro como o faziam os bichos.

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26 comentários

De Anónimo a 07.09.2017 às 02:26

Eu fi-lo dezenas de vezes nos nossos almoços semanais, seu ingrato. 
Filipe amuado


De Fernando Lopes a 07.09.2017 às 07:16

Só tu para me fazer rir às 7:10 da matina.
Fernando ensonado

De flor a 07.09.2017 às 08:09

não precisas de "dar o mundo", basta dares uma oportunidade a um cão abandonado (não tem obrigatoriamente que o ser, mas já que é para fazer a diferença, por que não salvar um animal?) e inclui-lo na tua vida, dando-lhe comida, carinho e atenção. terás um amigo para a vida, com esse mesmo olhar :)


um abraço.

De Fernando Lopes a 07.09.2017 às 10:13

Adorava o meu cão, mas o tipo era um burguês. Ração só de carneiro e mimos só quando estivesse para aí virado. :)

De flor a 07.09.2017 às 12:08


um dia destes mando-te as minhas duas gordas e depois me dirás :b


um abraço

De Genny a 07.09.2017 às 10:19

huummm....não acredito que ainda não encontraste esse olhar, uma vez que fosse, no rosto da tua filha

De Fernando Lopes a 07.09.2017 às 11:19

É diferente, Genny. O amor filial não funciona assim, acho eu. Provavelmente como pai eu é que faria esse olhar. :)

De alexandra g. a 07.09.2017 às 23:18

damn it.

olha lá!, tanta gente carregando sensatez (inclui nisto de tanta gente: carinho, atenção, emoção, espanto, etc.) em modo de oferenda linda  para um tipo que todos sabemos ser decente, culto inteligente (inclui nisto etc. e ainda giro como o catano, em bués :)) e tu a dar uma de difícil?


mau, Ferdinad, maumau!

De Fernando Lopes a 07.09.2017 às 23:28

Não sei se estás familiarizada com a minha peculiar infância, mas o facto de ter sido entregue aos avós deixou em mim um permanente sentimento de enjeitado. Adoro os avós estejam eles onde estiverem, mas ficou sempre a marca e a necessidade de amor. Escrevo para que gostem de mim, muito do que que faço é para provar a mim mesmo que mereço ser amado. Pode parecer estranho mas é assim mesmo. 

De alexandra g. a 07.09.2017 às 23:44

Sei, meu amor (a um padrinho pode chamar-se amor e o Filipe sabe, que também o és, para ele, e repara que não estou a contornar o facto de seres, para mim, um amor, pois que cheguei a ele através e ti, como bem sabes), eu sei. 


Eu sei. Eu também imagino, querido Fernando, mas, por incrível que possa parecer, contigo e a tua história pessoal, a imaginação não vale nada, vale a leitura, o mergulho no éter que já foste - não és, agora já te conheço :) - e o que tenho a dizer-te é que esta alexandra é uma  amiga para a vida, mas creio que me repito, de novo. Estarei a ficar cota? :D


Abraço com beijo na boca :)

De Fernando Lopes a 08.09.2017 às 00:01

Talvez de quando em vez seja excessivamente confessional, mas é uma catarse que me é necessária. Tal como esta necessidade quase patológica de ser intensamente amado. . 
______________
By the way, vocês deram-me muito mais do que  eu merecia. E essa é uma bela forma de amar.


Beijo

De alexandra g. a 08.09.2017 às 00:09

Nada de 'excessivamente', mas tudo & quando necessário, catarse, comme il faut!
 
E nunca mais repitas isso de te termos dado blablabla, que a casa está à tua espera, amor (em nome dos dois :)**


____
Tens muitas qualidades, mas esta é fabulosa: és uma companhia do caralho, rara :)

De Anónimo a 08.09.2017 às 06:09

Conheço o teu passado de viva voz e quero o teu presente e futuro que será também connosco.
O Filipe 

De Fernando Lopes a 08.09.2017 às 07:14

Dá cá esses ossos! Nunca pensei ser tão literal ó magrela. :))

De Anónimo a 08.09.2017 às 11:16

Não acredito que nunca tiveste alguém que te olhasse assim, nem que por um segundo fosse.
Não sejas calimero :) 
beijo e bom fim de semana
MM

De Fernando Lopes a 08.09.2017 às 12:11

Não sei se não tive ou se fui incapaz de me aperceber de tal. Tenho dúvidas, muitas dúvidas. Sou um bocado Calimero, não sou?


Beijo 

De redonda a 08.09.2017 às 19:14

pode não ser com um olhar assim, aqui com palavras

De Fernando Lopes a 08.09.2017 às 19:17

Não é tão importante a forma em que esse amor se expressaria, mas a sua expressão de facto.

De Carlos A. de Carvalho a 08.09.2017 às 20:57

Em novembro vou passar 15 dias ao meu amado Portugal  . Penso em pegar um comboio de Lisboa ao Porto , só para ter a honra de conhecer tão ilustre e amado ser humano . Não tenho como olhar para ti com o olhar canino ou  o que ele representa mas , vou olhar com prazer e respeito para  alguém que nos faz ama-lo sem que o conheçamos . 

De Fernando Lopes a 08.09.2017 às 21:26

Será um enorme prazer retribuir esse abraço. Mesmo. 

De Henedina a 09.09.2017 às 00:59

Eu olho, por vezes, assim...

De Fernando Lopes a 09.09.2017 às 11:24

É uma capacidade rara, a de exprimir amor de forma tão simples e pura. Conserve-a.

De Anónimo a 10.09.2017 às 19:13

Acho que também procurei isso muito tempo, sobretudo por parte de outro ser humano e por motivos muito semelhantes aos seus. E creio que o tive mas não soube guardá-lo, prolongá-lo. Hoje, curiosamente não procuro isso e creio mesmo que se o tivesse o sentiria como um peso, uma amarra, uma responsabilidade. Não quero que alguém me ame com adoração, apenas qb, se me amar com conta, peso e medida, eu serei mais livre, ele será mais livre. E isso agora é o que me é essencial.
~CC~

De Fernando Lopes a 10.09.2017 às 20:21

Entendo-a, mas o conceito de amar com «conta, peso e medida», dá-lhe uma racionalidade que o amor não tem. Terá a ver com uma fase da vida em que de algum modo aprendemos a domesticar os sentimentos. Quero sempre tudo, por uma eternidade, nem que essa eternidade dure um segundo. É pueril bem sei, mas é uma parte de mim que nunca amadureceu.

De alexandra g. a 12.09.2017 às 23:09

"Entendo-a, mas o conceito de amar com «conta, peso e medida», dá-lhe uma racionalidade que o amor não tem. Terá a ver com uma fase da vida em que de algum modo aprendemos a domesticar os sentimentos. Quero sempre tudo, por uma eternidade, nem que essa eternidade dure um segundo. É pueril bem sei, mas é uma parte de mim que nunca amadureceu."


Não exactamente, Fernando, o amor não é uma domesticação de sentimentos. É o amor, por exemplo, que leva uma mãe ou uma amante (allow me, às vezes gosto disto de falar como pessoa) ou um pai ou um amante a colocar-se na estrada e a empurrar para diante quem ama e fica ali, na estrada, em panado.


Todos, em algum momento achámos que queremos tudo, mas tem que existir um dia para perceber que isso é uma impossibilidade (cada um de nós está dividido por vários e cada um de nós já é vários...).


Quanto à eternidade, bom, creio que, essa sim, existe, enquanto alguém se lembrar de nós, mas nós já durámos mais do que um segundo...........................

De Fernando Lopes a 13.09.2017 às 19:28

Quando falava em amor pensava não no maternal, paternal ou filial, mas no outro. E sim, é verdade, às vezes preferimos « colocar-se na estrada e a empurrar para diante quem ama e fica ali, na estrada, em panado.» Isso é, sem dúvida, amor.

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