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Da indiferença.

por Fernando Lopes, 31 Out 14

cartao_sem_abrigo.jpg

 

Uma empresa decidiu oferecer uma espécie de «casa de cartão» aos sem-abrigo. A ideia divide-me. Não negligenciando os aspectos práticos da coisa, parece-me uma forma simples de aliviar consciências, como se um cartão alguma vez fosse abrigo digno para um ser humano.

 

Certo é que existem, e ocasionalmente me deparado com um destes resguardos na Rua Júlio Dinis. Cobertores e alguns parcos haveres estão ali armazenados, junto a uma das inúmeras lojas abandonadas, que entretanto iniciou obras para ser reocupada por um negócio que em breve será mais uma falência.

 

Ouviam-se marteladas e a água corria debaixo da porta da loja para a «casa de cartão», molhando o peculiar domicílio. Hesitei entre bater à porta e alertar os trabalhadores ou afastar o abrigo da água. Como estava sozinho, para não correr riscos de ter de me haver com alguns matulões, resolvi deslocar o cartão. Não foi a coisa mais corajosa do mundo, mas a solução possível sem ter de me sujeitar a andar à pancada.

 

Depois, reflecti na minha cobardia, na da sociedade em geral, na dos que tendo emprego ignoram os que têm menos sorte. Enoja-me ser assim, enoja-me esta sociedade que tudo tolera, enoja-me a indiferença dos transeuntes, dos operários. Chegamos a um ponto em que, em modo de sobrevivência, apenas o nosso pequeno mundo parece ser importante. Não sei se há retorno deste estranho local aonde chegamos, onde o outro nos é indiferente. Afastar as coisas e sair dali foi uma das maiores vergonhas que me autoinfligi.

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11 comentários

De Carlos Azevedo a 01.11.2014 às 02:35

Não é necessariamente cobardia. Não podemos valer a toda a gente, há um limite para o que cada um de nós pode fazer. Claro que, se quisermos levar isto ao limite, é indigno comprarmos o que quer que seja para além das necessidades básicas (abrigo, alimentação e roupa, tudo na medida do extritamente necessário) enquanto houver uma pessoa que seja a passar fome. Mas não é assim que as coisas funcionam. Confesso-te que me dói ver a miséria alheia, e é um sentimento que me acompanha desde miúdo, mas creio que o mais importante é algo que os meus pais me ensinaram: nunca tratar com condescendência aqueles a quem damos algo. Nada é mais miserável do que ajudar alguém para nos sentirmos superiores a esse alguém.

De Carlos Azevedo a 01.11.2014 às 02:39

São eles como podíamos ser nós. Quando estava desempregado, pensei nisso muitas vezes: se eu fosse sozinho no mundo, se eu não tivesse uma rede de protecção, eu era eles (e nós somos eles, mas penso percebes o que quero dizer). A distância é tão curta.

De Fernando Lopes a 01.11.2014 às 11:52

Incomodou-me a cobardia física de não enfrentar os operários da construção, a indiferença de todos, a minha vida patética e pequeno-burguesa. Arrasto esta sensação, esta impotência, há demasiado tempo. Qualquer pessoa sensível partilha este desconforto, porque, como escreves, nós somos eles. 

De Carlos Azevedo a 01.11.2014 às 13:32

Olha, isto deixou-me bem disposto: http://www.jn.pt/paginainicial/pais/concelho.aspx?Distrito=Aveiro&Concelho=%CDlhavo&Option=Interior&content_id=4213880


Tem um excelente fim-de-semana. Grande abraço.




De Fernando Lopes a 01.11.2014 às 15:05

Há esperança neste jardim mal-tratado.


Grande abraço.

De Ana A. a 01.11.2014 às 12:04

O seu gesto valeu mais que a total indiferença. Só não entendi porque teria que haver confrontação física ou verbal com os operários?!  Afinal há formas de chegar ao coração até dos mais empedernidos, e não tenho dúvidas que o Fernando sabe muito bem como fazê-lo, de uma forma pedagógica.

De Fernando Lopes a 01.11.2014 às 12:17

Sou humano, tenho um parti-pris com trolhas e taxistas. De forma geral geral têm uma rudeza que também é minha, eles levantam a voz, eu levanto a minha, fazem peito, eu também, e acaba à bofetada. Fiz o mínimo que podia ser feito e não me orgulho por aí além.


P.S. - É sempre uma alegria tê-la aqui no estaminé.

De O Abominável Careca a 01.11.2014 às 13:19

Esta iniciativa de criar camas em cartão para os sem abrigo soa-me um bocado a qualquer coisa do tipo "pseudo-altruísta" isto porque se alguém se der ao trabalho de  fazer contas a custos de produção de um artigo deste género verá que o empate de capital num projecto destes e irrisório. Mesmo que fossem feito milhares, que parece que não é o caso, o custo é mínimo e a eventual projecção do projecto e a respectiva publicidade aos mentores da ideia dá uma ideia errada daquilo que se pretende atingir. 
Os sem abrigos de todo o mundo precisam como "Pão para a boca " é de cama, comida, um tecto e respectivo acompanhamento para uma rápida integração na sociedade, através de trabalho condigno e não necessariamente de medidas avulsas promovidas por entidades que têm um comportamento mais de " Caridadezinha do género Jonet " do que propriamente de solidariedade com fins de integração que se desejaria de cariz definitivo.
Quanto à indiferença de todos nós perante o facto aqui relatado, deixo uma questão: O que podemos nós fazer de útil e relevante para tirar estas pessoas da situação em que se encontram?! Oferecer uma refeição ocasional?! Dar roupa que não usámos?! Entregar alguns trocos que temos disponíveis no momento?! 
Claro que todos nós já o fizemos alguma acções e pouco mais está ao nosso alcance a não ser extremar a nossa posição e durante uns meses dar guarida a uma pessoa em nossa própria casa. Mas para isso são necessários meios e esses escacam para uma grande maioria. Aí sim poderíamos apelidar de um acto altruísta e quiçá tresloucado mas digno de registo por todos!
E como o texto já vai demasiadamente longo para o meu gosto, cada um que haja de acordo com a sua consciência independentemente dos seus actos e quem sabe se amanhã não se notaram diferenças na postura de cada um!

De Fernando Lopes a 01.11.2014 às 15:09

Se há dinheiro para resgatar bancos, submarinos, auto-estradas, PPPs, carros governamentais e um mundo de outras inutilidades, talvez devessemos focar-nos no que é importante em primeiro: que ninguém fique sem abrigo ou comida.

De golimix a 05.11.2014 às 22:15

Como um todo podemos fazer mais do que temos feito, mas individualmente fazemos o que podemos. E de facto eles somos nós.

De Fernando Lopes a 05.11.2014 às 23:00

ImageCompletamente de acordo.

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    E tenha...um bom dia!

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    Lavei-as com grande dignidade, de saia curta e a c...