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Churrasco à Angolana.

por Fernando Lopes, 14 Mar 14

Há no meu bairro uma churrasqueira já com umas décadas, especializada em «churrasco à Angolana». É um local simples, toalhas de papel na mesa, que vende comidas populares; frango assado, fêveras, costelinhas, tripas. É frequentado por trabalhadores da construção civil, vendedores, amanuenses, funcionários públicos e todo a imensa mole que se convencionou chamar classe média ou trabalhadora.

 

O dono é um homem baixinho de um ar sinistro. Deve ter mais de sessenta anos, olhos encovados, careca. Os poucos cabelos laterais que lhe restam são de um preto muito profundo, nada natural. Anda sempre ligeiramente curvado, deslizando entre as caixas registadoras, ora a do take-away ora a do restaurante. Tudo nele é insidioso, como se empregados ou clientes estivessem a preparar-se para o assaltar. Põe sempre os pacotes de batatas com muito menos quantidade do que seria expectável, tem um cuidado meticuloso quando enche os recipientes de alumínio de arroz, como se uma batata ou colher de arroz a mais fossem a sua ruína. Uma personagem de Dickens nos tempos modernos.

 

Quem está à frente do grelhador da comida para fora é uma mulher mestiça, de idade indefinível; tanto pode ter quarenta e muitos como sessenta. É a responsável pelas costelinhas, frangos, espetadas. Vira as carnes, chama o número de cliente para ser servido com uma melancolia profunda, maquinalmente, como se nada fizesse sentido. Os olhos castanhos são vítreos, olha como se não estivesse a ver, vejo reflectido neles a minha própria angústia, como se estivéssemos já mortos por dentro e nos limitássemos a fazer maquinalmente o que esperam de nós, sem lampejo de paixão ou revolta.

 

Só frequento o estabelecimento em desespero de causa, para dizer a verdade já lá não vou há anos. Naquelas duas personagens estão duas mundividências, a do avarento explorador e a do trabalhador resignado. Um microcosmos a cheirar a frango e carvão onde está reflectida a nossa sociedade. Não gosto do que vejo, identifico-me com a mulher. Também eu, com um diferente grau de sofisticação estou há vinte e tal anos a «virar frangos», a fazer o que se espera que seja feito. Quantas centenas de milhares como nós terão abdicado da vida para a ganhar?

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11 comentários

De Alice Alfazema a 14.03.2014 às 18:04

Tens razão Fernando, quantos de nós...eu também me identifico com essa mulher, só que já nem viro frangos, serão antes carcaças corcomidas, que viro e reviro sem cheiro nem fumo.

Boa crónica!

De Fernando Lopes a 14.03.2014 às 19:11

Obrigado, Alice. Este pareceu os momento dos «Vencidos da Vida» no Séc. XXI. ;)

De Jorge Castro Pereira a 15.03.2014 às 01:05

Ó pá, tu decide-te! ;-)

Vamos lá ver:
1) por um lado, apresentas uma "não-conformidade"
2) por outro, estás "conforme", porque andas "há vinte e tal anos a «virar frangos», a fazer o que se espera que seja feito"

Eu cá por mim, gosto mais duma das opções e a distinção é muito simples:
1) uma anda nas imediações do "desconhecido", mas... contantemente vivido
2) outra, a primeira, encerra em si, ainda que possa ser de forma ligeira, algum grau de consciência. Parece-me ser uma vantagem! E não, não estou a dizer que gosto desta tua "não-conformidade"

Esta é fácil de dizer, mas a verdade é que todos nós passamos muito tempo a "virar frangos" e muitas vezes a virar animais de porte francamente maior . E isto sem conseguirmos sair desta teia, mesmo quando damos conta da sua existência.

Eu, que vivo no bairro-ao-lado conheço o quadro; já o observei algumas vezes e a tua descrição é boa. Mas, como sabemos, é apenas uma espécie de repetição "Duracell" que, mesmo no século XXI (onde estará o espanto?) tende a perpetuar-se. Apenas se sofistica (quando tal acontece!) nos modos de apresentação, ganhando contornos mais subtis, mais "civilizados".

Se me permites, punha a questão ao contrário: quantos de nós não abdicaram da vida para a ganhar? É mais fácil de contar!

Não quero exacerbar reações, mas continua a aparecer como importante a necessidade de criar condições para que a consciencialização das nossas circunstâncias seja possível. Há coisas que por muito "demodé" que estejam continuam válidas.

Abraço

Jorge

De Fernando Lopes a 15.03.2014 às 09:33

«Um homem é o homem e a sua circunstância.» Ortega Y Gasset. Provavelmente o facto de estar doente e em casa exacerba a visão das coisas, ou talvez não.

Abraço.

De Carlos Azevedo a 16.03.2014 às 03:43

Tenho o dizer que o frango de lá é muito bom. :-)

De Fernando Lopes a 16.03.2014 às 13:23

É do tempero; uma pitada de avareza, molho de angústia e um cheirinho de exploração.

De Carlos Azevedo a 16.03.2014 às 14:29

Confesso que nunca me apercebi, mas acredito em ti. Tenho a sensação de que todas as pessoas que assam frangos têm um ar desgastado, o que se deverá, na maioria dos casos, à tarefa em si.

De Fernando Lopes a 16.03.2014 às 18:30

Há ali mais qualquer coisa, Carlos. Sei bem que não és insensível ao sofrimento alheio, existe ali uma asfixia velada. É estranho, só perdendo-se nos gestos e nos olhos das personagens te consegues aperceber.

De Carlos Azevedo a 16.03.2014 às 20:37

Como te disse, acredito em ti. Irei estar mais atento quando lá for.

De Ana A. a 17.03.2014 às 12:30

Decidi comentar o poste depois de ler os comentários, pois tenho algo a dizer:

As vicissitudes da vida levaram-me a frequentar algumas cozinhas de hotel e restaurantes no Algarve e no Porto, em 2008 e 2009 (a crise na minha vida aterrou nessa altura). Para quem não conhece os bastidores da restauração, na sua grande maioria, são dramas quotidianos de: stresse, falta de condições de trabalho e faltas de respeito, por parte das chefias e entre pares. De tal forma fiquei traumatizada que perdi grande parte do prazer que tinha em comer fora.

De Fernando Lopes a 17.03.2014 às 12:50

A sua descrição, enquadra grande parte dos ambientes de trabalho de hoje, independentemente da área. As pessoas, dominadas pelo medo, entraram em «modo de sobrevivência», e o mundo pode ruir à sua volta sem que exprimam um gesto de solidariedade. No fundo pensam aliviadas «desta safei-me», até que chegue a sua vez.

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