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À janela.

por Fernando Lopes, 1 Jun 17

janela.jpg

 

Todos os dias, às 08:30 da manhã, esta senhora idosa está a janela, imagino que a admirar a pressa dos transeuntes que correm para os escritórios, outros ainda quase arrastam crianças pequenas para a escola próxima. Em baixo passam os carros, motos, entram os trabalhadores. Passados uns minutos desaparece. Uma vez que o edifício onde trabalho tem vidros espelhados não imagina que está a ser observada. Já me habituei a vê-la ali, se um dia desaparecer vou sentir a sua falta. Depois pergunto-me: quem é tão estúpido que adianta a hipótese de sentir a falta de quem não conhece?

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19 comentários

De alexandra g. a 02.06.2017 às 23:36

Não diria, de todo, que é bizarro, diria que é até mui genuíno, eventualmente natural, no que à nossa - chamemos-lhe assim - 'natureza' diz respeito: sentimos conexão com pessoas que jamais vimos, mas sentimos que conhecemos. Bem sei que a isto podemos chamar cultura (aquilo que inclui os, so to say, valores, educação, afinidades, etc.), mas também podemos, de igual modo, ou no mesmo patamar, chamar idiotice completa, ilusão absurda, carências diversas, eu sei lá.


Não se sabe, parece-me ser esta a fórmula mais correcta.


É bom não saber, sentindo que se sabe, mas mantendo uma dose de lucidez q.b. (ok, eu abuso nos picantes, mas o açúcar, nicles :)

De Fernando Lopes a 03.06.2017 às 00:15

É como se fosse um mundo de afectos indizíveis. As pessoas são estranhas, eu sou estranho.

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  • Anónimo

    Mas olhar directamente pode ser muito intimidante ...

  • Fernando Lopes

    Agradeço o abraço e retribuo ainda com mais vigor....

  • Linda Blue

    Eu nunca consegui ir ao cemitério "ver" o meu pai....

  • Fernando Lopes

    Temos modos comuns de lidar com a ausência, não é ...