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Os homens que se apaixonam são parvos.

por Fernando Lopes, 11 Mar 16

Homem que é homem não se apaixona, permite que uma mulher tenha o prazer de usufruir da sua companhia, sabedoria infinita, auto-estima à prova de bala, performance sexual arrasadora. Ama-se a si próprio acima de todas as coisas, acha-se atraente mesmo que seja feio, interessante, culto, bon vivant.

 

Os tolos capazes de se apaixonar balbuciam disparates, colocam os olhos no chão timidamente, são inseguros, indecisos, fracos, inábeis, frágeis. Têm medo de tudo e sobretudo de si mesmo.

 

Gostava de ser um homem, homem.

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O homem que não sabia viver sem mulheres.

por Fernando Lopes, 1 Mar 16

Já entrado nos cinquenta, cabelo grisalho, estatura meã, generoso nariz, tez morena. Assim era o nosso homem, recostado no sofá, cigarro entre os dedos, a pensar qual o papel das mulheres na sua vida. As pessoas que mais amou ou viria a amar eram mulheres. Essenciais como o ar que respirava, questionava-se se seria simplesmente amor, admiração ou dependência. Um bocado disfuncional, com falta de jeito para «coisas de homem», habituara-se a ser cuidado. Era por isso que as venerava? Nem por sombras. Recuou o mais possível, ao tempo da sua adolescência e não conseguiu vislumbrar mais de um mês sem ter uma companheira a seu lado. As poucas vezes que isso aconteceu andou perdido como cão sem dono, embebedou-se noites a fio para ter companhia na sua solidão. Certo é que gostava de ser mimado, acarinhado, de ter alguém a seu lado pondo cor no breu que quase sempre o acompanhava. Porquê? Era assim tão inepto que fosse incapaz de estar com a sua solidão? Precisava de ser acarinhado como um bebé? Não era também ele um cuidador? Percebeu então que não sabia viver sem mulheres porque nele existia uma forma feminina de amar.  

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Laidinha.

por Fernando Lopes, 14 Out 15

Laidinha era, como tantas outras da sua idade e condição, doméstica. No pequeno quintal junto à casa de pedras velhas e irregulares tinha o galinheiro e a horta. E o que poupavam graças às poedeiras, legumes quase nunca era preciso comprá-los. Criou assim dois filhos de forma digna e asseada, entre trabalho e tabefes do marido.

 

Desde que os rapazes tinham partido para o Porto, Florêncio, talvez por saudade, talvez por coisa nenhuma, tinha-se ensimesmado. Embebedava-se quase todos os dias, muitas vezes fedia a uma combinação de pecado mortal, vinho e putas. Não que as putas a incomodassem, enquanto Florêncio se punha nelas não a obrigava a levantar a saia e satisfazer-lhe os desejos. O que a transtornava era o fedor que trazia nesses dias, uma mistura de verde tinto azedado e mulher que não se lava por baixo.

 

O tabefe ou pontapé ocasional tomaram a pontualidade de relógio suíço. Era porrada e cheiro a puta mal lavada, dia sim, dia não. O dinheiro cada vez mais curto, não fosse a horta e as pitas, muitas vezes não teria janta decente para lhe dar.

 

- Tás’me a bater porquê, perguntou Laidinha.

- Porque me apetece, sua cabra.

 

Pegou velho atiçador de ferro e deu-lhe com força na cabeça. Florêncio recuou, tonto, surpreendido com o sangue que lhe escorria da cabeça para a face e camisa. E bateu, bateu, até que ele tombou. No chão já só emitia uma espécie de vagido. Laidinha continuou a vergastá-lo com o ferro até que tudo ficou em silêncio.

 

Quando a guarda chegou, Florêncio estava sentado num velho sofá de orelhas, com o seu melhor fato e camisa, a gravata às riscas com o nó atado. A lividez que havia tomado conta do cadáver dava-lhe um ar nobre e calmo que nunca fora seu em vida. A cozinha e sala impecavelmente limpas, o atiçador junto à lareira, um agradável perfume a lavanda enchia a casa.

 

Quando perguntada porque havia vestido o cadáver e tratado da casa só lhe ocorreu uma frase:

- Queria deixar tudo direito antes de ir para a cadeia.

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Visitou-me a tua ausência.

por Fernando Lopes, 8 Out 15

Sem ti, nada sou. Deambulo pelas ruas da vida, perdido num local estranho.

 

Sem ti, nada vejo. Faltam-me os olhos que guiam, a contra luz que obscurece e ofusca.

 

Sem ti, nada oiço. O canto das sereias não é nada comparado com a tua voz. Ruídos sem sentido, cacofonia, nada mais.

 

Sem ti, nada sinto. Pega num coração morto, troféu sem valor como o dos assassinos de Inês de Castro. É assim o meu, apagado, inexistente, pedaço de carne morto. Sem ti não bate, movimenta-se maquinalmente.

 

Sem ti, nada penso. Porque me falta a tua luz que torna simples o complexo, fácil o difícil.

 

Sem ti, nada amo. Ensinaste-me que o amor é o único sentimento verdadeiramente completo. Sem ele nada me distingue de um morto vivo, arrastando-se sem como nem porquê.

 

Sem ti, não existo.

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Talvez.

por Fernando Lopes, 2 Jun 15

Talvez a solução para os problemas do mundo esteja no fundo de uma garrafa, numa linha de coca, num caldo de cavalo cortado com aspirina. Ou talvez não. Talvez seja a literatura, essa fraca imitação da vida, onde os heróis, após um apuro ou outro, vencida tragédia ou obstáculo, sobrevivem quase sempre, emergem purificados e vigorosos. Talvez a poesia, jogo lúdico de palavras, onde cada leitor encontra sempre algo de seu e uma mão cheia de nada. Talvez como o pintor a única forma de sobreviver à dor seja mutilar-se para sentir uma dor maior ainda. Talvez seja o amor o redentor, o de Cristo ou que encontras quando encostas a cabeça no colo de uma mulher. Talvez a dor seja o que nos move, a droga, o álcool, a literatura, a poesia, o amor, o que nos apazigua. Talvez não haja solução para os problemas do mundo. Do meu, do teu, de todos os mundos. Talvez.

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Calibre 38.

por Fernando Lopes, 11 Mai 15

Recostou-se na sua cadeira de executivo, espaldar prolongado até à cabeça, e olhou pela janela. Do quinto andar do seu gabinete, virado para o cemitério de Agramonte, avista-se uma linha interminável de jazigos. Alguns barrocos, outros encimados de cruzes celtas, outros ainda ostentando a decrepitude de quem tinha gasto desmesurado dinheiro para mandar construir uma espécie de monumento à morte, onde os que lá se encontravam depositados aguardariam o momento igualitário de recepção dos outrora herdeiros.

 

Inclinou-se ligeiramente para a frente e abriu a gaveta na ponta esquerda da secretária. Retirou de lá um revólver calibre 38. Pousou-o à sua frente, e colocou a caixa de munições ao lado. Com um ligeiro toque do polegar, soltou o travão e fez cair o tambor sobre a esquerda. Rodou-o, ouvindo com prazer o rodar bem oleado daquela simples e eficaz máquina de morte.

 

Carregou com reverência, uma a uma, as seis munições, fê-lo rodar de novo, deu-lhe um toque breve e seco que o fez voltar à posição inicial com um estalido quase imperceptível.

 

Transportou o cano até à boca, e sentiu um arrepio no contacto frio com o metal. Carregar no gatilho seria demasiado fácil. Como que dotado de um instinto primário, abocanhou-o como os grandes tubarões brancos fazem ocasionalmente aos cascos dos navios. Toda a sua boca soltou um estranho ruído, a cedência dos dentes face à dureza do metal. Não sentia dor, apenas necessidade de morder. Pequenas lascas soltaram-se e cortaram-lhe as gengivas. O reflexo obrigou-o a apertar ainda mais. A boca era já uma amálgama de sangue, dentes e matéria mineral. Sentiu a língua solta, uma enorme quantidade de sangue. O cano furou o palato e ouviu um estranho silvo, o ar a preencher a cavidade nasal.

 

Resistiu ao reflexo de cuspir e deixou o sangue lentamente inundar-lhe os pulmões. Sabia que iria morrer sufocado e no entanto não abrandava a pressão ou cedia a deixar entrar ar. Recostou-se para trás, num gorgolejar de morte.

 

Na manhã seguinte, quando a mulher da limpeza o encontrou, todo o sangue tinha escorrido para o chão. Estava imaculadamente branco como uma figura de cera, dir-se-ia que exibia um sorriso trocista.  

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Não vou chorar se não chorares.

por Fernando Lopes, 2 Jan 15

São 3:30 da manhã e vejo-me à porta do velho alfarrabista, agora bar. Espreito pela porta e inspiro a penumbra. Ao balcão aquela rapariga bela e estranha; bonita, elegante, transformou-se numa figura peculiar. Rastas, piercings, braços totalmente tatuados, colocaram-na num universo paralelo em que poderia ser o que quisesse: modelo, rastafári, filha perdida de um maori. Assim que os olhos se habituam à escassez de luz olho para as mesas do fundo. Resplandeces, como coroada por um brilho invisível. Aproximo-me de ti e beijo-te a face do modo mais suave de que sou capaz, os lábios a tocarem-te de um modo quase imperceptível.

 

O tempo foi clemente contigo. À parte umas pequenas rugas nos cantos dos olhos continuas incrivelmente bela e suave. Observo melhor e essas rugas tornaram-te ainda mais bela, como toque final do retrato de um mestre renascentista.  

 

Podíamos falar de amigos e paixões antigas, reescrever memórias de amor, mas as nossas vidas são um poço dos desejos que secou, uma história qualquer que lemos num livro. Amor é saudade, dor, tempo que não pára. Amo-te como sempre te amei, mas o comboio da vida, por tragédia ou destino, não parou no nosso apeadeiro.

 

Tiro dois cigarros do maço de Pall Mall, acendo o primeiro e coloco-o nos teus lábios. Não há surpresa ou asco nos teus olhos, apenas melancolia. Entre a neblina de fumo beijo-te apaixonadamente. Sinto os teus lábios quentes nos meus, eternizo aquele momento como se fosse o último. O meu único amor. Levanto-me e saio.

 

Não vou chorar se tu não chorares.

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O rei Wolof.

por Fernando Lopes, 21 Dez 14

A primeira vez que o vi olhava fixamente para o homem das castanhas. Tem o aspecto de um velho patriarca Wolof, mais de um metro e oitenta, carapinha grande e cinzenta, olhos muito abertos, uma velha gabardina bege, suja e gasta. Uma figura imponente com um ar lunático, não conseguimos perceber se por detrás daqueles olhos imensos e arregalados está o pasmo, a loucura, ou um bocado de ambos.

 

Imaginei-o um rei senegalês, desterrado para uma terra fria e estranha, povoada por gente morena e baixinha onde se sentia alienígena. Como os wolofs antes dele, tinha migrado África abaixo, fugindo à desertificação, ao sirocco que tudo queima. Tinha sido um rei com muitos filhos, lutador incansável como Battling Siki, agricultor e pescador respeitado. A guerra de Casamansa tinha-o trazido para a Europa, um refugiado de guerra sem estatuto, caminhante perdido no velho mundo.

 

No saco plástico que o acompanhava trazia ar quente de África, cheiro a terra húmida, pós e unguentos maravilhosos, como se a essência de um continente estivesse ali miraculosamente armazenada. Neste soba vi a África que me inunda os sentidos e a saudade, porque nascido neste país pequenino, por razões que eu mesmo desconheço, sou na alma um bocado africano.

 

Hoje, os castelos no ar que construi à volta desta personagem sofreram um sério abalo quando o vi caminhar, ébrio e frágil, para o albergue da Rua dos Mártires. Vou esquecer este momento e continuar a sonhar com o rei Wolof.

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Princesa atrás do balcão.

por Fernando Lopes, 29 Nov 14

Animal de hábitos, ao sábado costumo almoçar sempre no mesmo local. Conheço os proprietários e empregados, sei as especialidades, não necessito de me guiar pelo menu. Ao contrário do habitual nos cafés-pizzarias-hamburguerias-cervejarias do tipo, quem faz torradas, tira cervejas, sumos e ice teas, é uma rapariga jovem, não um cinquentão de bigode farfalhudo.

 

Ainda muito nova, está lá desde sempre. Magrinha, pequenina, cabelo escuro e pele muito clara, tem um ar infinitamente melancólico. Ocasionalmente, para quebrar o gelo, mando uma piada, um piscar de olho, um sorriso. A menina-mulher corresponde timidamente e esconde-se atrás da bica de cerveja, como se nada do mundo para lá daquele balcão fosse com ela.

 

Hoje, na falta de empregados de mesa, a princesa saiu do seu castelo e veio trazer-me uma cerveja à mesa. Não resisti a agradecer efusivamente, saudá-la, à rapariga que se libertou da prisão de bolos, croissants e chamuças. Eficácia, num trabalho deste tipo, é fazê-lo sem que se note que alguém existe, como se tudo fluísse sem intervenção humana. À Rapunzel que se esconde atrás do balcão, o meu agradecimento e carinho.

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Caminho à noite.

por Fernando Lopes, 17 Nov 14

tucuman.jpgImagem: Acción Poética Tucuman

 

Saio todas as noites à tua procura sabendo que não te vou encontrar. Percorro ruas e avenidas, pequenos becos, locais burgueses e operários. Às vezes demoro a observar o teatro de sombras nas janelas tentando antever-te. Porque te procuro? Porque se demanda a luz? Porquê encontrar a outra metade de nós? Sei que não vou ser bem-sucedido e não desisto.Vejo-te com uma criança pela mão, encostando a cabeça a ombro protector. Inicio uma corrida e logo paro, incapaz de aceitar que não existes, que és de alguém, que não passas de um logro. E no entanto procuro-te, o meu verdadeiro e único amor, porque no dia em que desistir de te encontrar terá morrido em mim a esperança. Por isso continuo, caminho à noite, tentando encontrar-te.

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