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Agora o que sai mais é sopa.

por Fernando Lopes, 6 Mai 13

Ao sábado costumo ir almoçar sempre ao mesmo restaurante. Anteontem, mais apressados que o habitual para não nos atrasarmos para o Desfile Anual do Carro Eléctrico, optei por um almoço mais leve, sopa e um prego em pão. Os preços são relativamente em conta, um almoço completo não andará por mais que 6, 7 €. Comentei com um dos gerentes:

 

- Aqui a sopa é excelente, se não fosse um glutão comia mais vezes sopa e menos francesinha.

- A clientela do fim-de-semana e da semana é diferente. Antes, à semana vendíamos muito, agora o que sai mais é sopa. Nota-se que as pessoas que trabalham por aqui estão com muito menos dinheiro.

 

Não tenho nada contra a sopa – bem pelo contrário – e concordo que os portugueses em geral comem demais. O receio é que dentro em breve o ajustamento nos levará a histórias que julgávamos para sempre arquivadas, como a meia-sardinha e o naco de broa do tempo dos nossos bisavôs. Bem dizia a Madame Jonet que não podemos comer bife todos os dias. Uma pitonisa é o que ela é.

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Exemplo de ajustamento.

por Fernando Lopes, 22 Abr 13




















Tânia Marisa, 29, farmacêutica. Tinha como remuneração em 2012, 1.300 €. Aceita trabalho por 1.100 €, abaixo da tabela do sindicato. Patrão só contrata trabalhadores não sindicalizados. Involuntariamente ou não, exerce pressão sobre colegas, que baixam salários. Seis meses depois nova redução. Colega não aceita trabalhar abaixo da tabela do sindicato e negoceia rescisão por mútuo acordo. Colegas baixam mais 100 €, Tânia Marisa como recompensa baixa de 1.100 € para 900 €. Tânia Marisa não perde só 200 €, perde dignidade profissional. Passo seguinte: todos exercerão funções seja por que salário for. Um exemplo de sucesso do ajustamento.

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A banda do Titanic.

por Fernando Lopes, 17 Abr 13

Não há melhor imagem para descrever a atitude dos portugueses face ao descalabro económico e social que vivemos. Somos com a banda do Titanic, continuamos a pretender que nada acontece enquanto este barco, lentamente, se afunda. E a banda continua a tocar.

 

Todos temos amigos, colegas, familiares desempregados. Conhecemos alguém que passa dificuldades, outro que se declarou insolvente, quem trabalhando afincadamente não consegue cumprir integralmente os seus compromissos. E a banda continua a tocar.

 

Recentemente veio às páginas dos jornais o caso da D. Amélia, varredora da Câmara, que colocou um anúncio em que se oferecia para trabalhar, fora do horário, por comida. Comida. E a banda continua a tocar.

 

Entregámos o governo a um bando de mentirosos que prometeu não aumentar impostos, não cortar subsídios, não aumentar o desemprego. Tudo se reduzia à fórmula mágica de “cortar nas gorduras do Estado”. O Estado já deve estar no osso, os portugueses estão-no certamente. Mexer nos privilegiados, nas rendas excessivas, na cambada de “empresários” que sempre rosnou ao Estado enquanto aceitava o bife dado com a outra mão? Nem pensar. E a banda continua a tocar.

 

Aceito que tal seja um modo de defesa, uma certa alienação para evitar pensar que o pior nos poderá bater à porta. Enquanto, como povo, não nos impusermos, corrermos com estes mentirosos com um missão – a destruição de Portugal e a transformação do sul da Europa em algo entre China e Disneylândia – não haverá futuro para nós ou para os nossos filhos. Deixemos a atitude autista da banda do Titanic e usemos os instrumentos como arma de arremesso.

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Maioria absoluta.

por Fernando Lopes, 9 Abr 13

Incerteza, provável desemprego, pressões várias, tudo tem acontecido a esta família nos últimos dias. O PEC (Processo de Empobrecimento em Curso) continua, deixando centenas de vítimas pelo caminho. A pressão com os estagiários e contratados a prazo é real, fazendo os salários dos efectivos baixar brutalmente em muitos sectores. Estamos quase no ponto sonhado por PPC e o seu governo, em que todos aceitaremos tudo para ter comida na mesa. Neste momento, que redefine uma nova forma de luta de classes, lado a lado os empresários dignos desse nome e os capazes de qualquer filha da putice. Os segundos vencem com maioria absoluta.

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Praça da Alimentação.

por Fernando Lopes, 30 Mar 13

Moreno, estatura meã, descomposto, sujo. Passeia na praça de alimentação. Num estranho bailado entre "Happy Meals", pizzas e saladas, vigia constantemente quem sai, tabuleiros, sobras, localização das empregadas. Nada diz, nada pede. É a dança da fome, da vergonha de esmolar, da abundância lado a lado com a miséria. Avança e hesita em pegar no que resta de um pequeno pacote de batatas fritas. Portugal, século XXI, praça da alimentação.

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Bem-vindo à selva!

por Fernando Lopes, 19 Mar 13

"Diz-se que não se devem ter economias baseadas em mão-de-obra barata. Não sei por que não. Porque se não for a mão-de-obra barata, não há emprego para ninguém."


"Se os sem-abrigo aguentam porque é que nós não aguentamos?"

 

"É assim tão complicado pôr as pessoas a tratar das matas?"

 

 

Estamos no dealbar de uma guerra social. As frases acima poderiam partir de qualquer Kim Jon-un, gordo num país de famélicos. A partir do momento em que estas bestas se dedicam a debitar estas pérolas, tudo é permitido. Espero viver o suficiente para os ver entrincheirados nos seus condomínios fechados, rodeados por guardas, enquanto os miseráveis tudo destroem e reclamam o seu quinhão.

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Os Judeus do Séc. XXI

por Fernando Lopes, 17 Mar 13

A propósito do roubo de que foram alvo, a mando da UE, os cipriotas, só me ocorre uma frase de Tomás Vasques, publicada há uns tempos:

 

Os povos do sul da Europa são os judeus do século XXI.

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Novo normal.

por Fernando Lopes, 15 Mar 13

Dizer que esta crise é também uma crise de valores, é senso comum. Dezenas de milhões pagam a ganância de meia-dúzia. A perda de valores desceu hierarquicamente, de governantes para governados, patrões para empregados. A pretexto da crise, destroem-se vidas, baixam-se salários. O que fazemos? Tornámo-nos predadores do semelhante. Intriga, culambismo, marketing pessoal, ocultação de saberes, tudo vale para manter o emprego. Trabalhar, é hoje mais difícil do que nunca, pois o colega pode estar disposto a qualquer coisa para assegurar a sua sobrevivência. Como todas as crises, também esta tem algo de bom. É momento para distinguir o camarada solidário do egoísta, a intriga da frontalidade, a subserviência da cooperação. Diferenciam-se os homens dos meninos, perdoem-me o machismo da expressão.

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Trabalhar para aquecer.

por Fernando Lopes, 7 Mar 13

O projecto de reduzir ainda mais o subsídio de desemprego, imaginado pela troika e a executar pelo seu moço de recados, Pedro Passos Coelho, é uma outra forma de pressionar os trabalhadores activos a aceitarem reduções de salário inimagináveis.

 

Um trabalhador com um vencimento de 1.500 euros, receberá o valor máximo de subsídio de desemprego, 1.048,05. Quem aufira 1.500, tanto ganha se ficar em casa como se for trabalhar. Entre IRS, almoço, passes sociais e outras despesas, muitos já reparam que andam a trabalhar para aquecer, pois depois de deduzidas as despesas, ficar em casa compensa.

 

Como vamos resolver este problema? Simplesmente baixando o subsídio de desemprego, de molde a que a perda seja o maior possível, retirando poder negocial ao – como agora se diz – colaborador, no caso de renegociação salarial. À equação acresce o número de dependentes, número de titulares de IRS, etc.

 

Para maiores de 40 anos o subsídio é pago por 540 dias (18 meses), acrescendo 45 dias por cada 5 anos de trabalho. Será que quem me lê tem a certeza absoluta de ter trabalho no próximo ano e meio? Como diria Guterres, 6x3=18, é fazer as contas.

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Cemitério de elefantes.

por Fernando Lopes, 29 Out 12

O mito do cemitério de elefantes não é totalmente falso. Os animais mais velhos não conseguem acompanhar o ritmo da manada e vão ficando para trás. Por outro lado, a vegetação que faz parte da sua dieta habitual é demasiado dura, causando dificuldades extra aos animais seniores, com as presas e dentição muito desgastadas. Assim, debilitados, buscam locais com vegetação baixa e tenra, onde o tempo corre inexorável. Morrem muitos, muito velhos, em áreas relativamente restritas.

 

Vieram-me estes factos à memória porque Portugal arrisca-se em muito pouco tempo a transformar-se num gigantesco cemitério de elefantes. Ontem, num jantar de amigos, muito consideravam a hipótese de emigrar. Uns para o norte da Europa, outros para o Brasil. Não estou a falar de jovens recém-licenciados, o que seria certamente grave, mas de profissionais prestigiados, alguns a ocupar lugares de chefia. A falta de perspectivas, os baixos salários, a perseguição política, levam gente de reconhecido mérito e talento a colocar seriamente a hipótese de abandonar a sua terra natal.

 

Ficaremos por cá meia dúzia. Uns porque romanticamente preferem combater antes de desistir, outros, como eu, demasiado velhos para iniciar uma nova vida.

 

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