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Derrotas.

por Fernando Lopes, 22 Nov 15

As boas histórias nunca falam das vitórias, mas das derrotas estrondosas. Embora Roald Amundsen tivesse vencido a corrida ao Pólo Sul, no estrangeiro é Robert Scott que o mundo recorda. Nenhuma das vitórias de Napoleão é tão memorável quanto a derrota de Waterloo. O orgulho nacional da Sérvia assenta na batalha contra os turcos em Kosovo Polje em 1389, batalha essa que os sérvios perderam de forma estrondosa. E veja-se Jesus! O símbolo que representa o homem que dizem ter ressuscitado deveria ser um homem de pé no exterior do túmulo a acenar. No entanto, ao longo dos tempos, os cristãos preferiram a imagem da derrota: o momento em que estava pregado na cruz e prestes a desistir. Porque é sempre a história da derrota que mais nos impressiona.

 

JO NESBO, «O BONECO DE NEVE»

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A noite da arma.

por Fernando Lopes, 29 Set 15

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Conhecem os habitués o meu fascínio por personagens extremas, das que vivem a vida até ao limite e nem sempre dela regressam intactos. Não sei porque sou tocado por essas experiências limite, por um mundo de artistas e homens de letras que são o outro lado do espelho, se perdem num mundo de drogas, álcool, devassidão. Talvez seja o desejo de conhecer uma outra face da realidade, uma projecção infantil, um momento em que sou confrontado com a minha entediante normalidade. Encontrei este livro sobre perda, luta, memória.

David Carr foi um viciado durante mais de vinte anos – primeiro em erva, depois coca, e finalmente crack – antes de a perspectiva de perder os seus dois gémeos recém-nascidos o tornarem sóbrio numa tentativa de ganhar a batalha pela custódia à mãe dealer de crack. Uma vez recuperado, descobriu que as memórias dos seus anos «perdidos» divergiam – às vezes radicalmente – das da sua família e amigos. A noite, por exemplo, em que o seu melhor amigo lhe apontou uma arma. «Não», disse o amigo (para horror de David, pacifista de longa data) «Eras tu que tinhas a arma.». Usando todas as suas capacidades como repórter de investigação, decidiu pesquisar a sua própria vida, entrevistando todos, dos seus pais aos ex-colegas, até ao polícia que o deteve, dos médicos que o trataram, aos advogados que lutaram para provar que estava apto a tomar conta dos seus filhos. Inflexivelmente honesto e extraordinariamente bem escrito, o resultado é em simultâneo um relato chocante das profundezas da dependência e uma reflexão sobre como – e porquê – as nossas memórias nos enganam. Como disse David, recordamos as histórias com que conseguimos viver, não aquelas que realmente aconteceram.

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Desculpas.

por Fernando Lopes, 25 Ago 15

E, sobretudo, pedir desculpa. A Igreja Anglicana pede desculpa a Darwin, a Virgínia pede desculpa pelo drama da escravatura, a Companhia de Energia Eléctrica pede desculpa pelo mau serviço, o governo canadiano pediu oficialmente desculpa aos Inuítes. Não se deve dizer que a Igreja reviu as suas antigas posições sobre a rotação da Terra, mas o Papa pede desculpa a Galileu.

É verdade, e nunca percebi se esta moda de pedir desculpa assinala uma onda de humildade ou, pelo contrário, de desfaçatez: fazes qualquer coisa que não deverias ter feito, depois pedes desculpa e lavas as mãos.

 

UMBERTO ECO IN «NÚMERO ZERO»

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Pó, Cinza e Recordações

por Fernando Lopes, 12 Mai 15

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Como qualquer adicto em livros, mantenho o hábito de comprar mais que os que consigo ler. No blogue da G. li um pequeno excerto de «Pó, Cinza e Recordações». Fui à FNAC procurá-lo. A menina do atendimento a dizer-me que não estava na base de dados e eu furibundo a dizer que o tinha visto no site.

 

- Pode estar em pré-venda.

 

Assim era, saí dali com o rabinho entre as pernas e «Pergunta ao Pó» de John Fante debaixo do braço. Acabei-o ontem. Uma vez que o dinheiro não é elástico, estava à espera do fim-de-semana para usar os cartões daquela cadeia que me deram de presente.

 

Seria muito bonito se no centro comercial onde almoço não houvesse uma Bertrand. Vi-o, ele viu-me, não resisti, trouxe-o para casa. Em boa hora o fiz, pois escrevo às 2:00 da manhã, 140 páginas lidas depois. Rentes de Carvalho é um enorme escritor. Poucos conseguem fazer literatura à volta de pequenos factos, problemas, dramas e irritações. Este diário nada fica a dever a outra obra de excepção, o seu «Tempo Contado».

 

Absolutamente obrigatório.

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Literatura.

por Fernando Lopes, 22 Abr 15

A boa literatura é a que esmaga, envolve, nos faz entrar dentro das palavras e torná-las nossas. Ficcionada ou não, faz-se parte de nós, abre portas que julgávamos fechadas, dá respostas a perguntas que pecavam pela inexistência, descreve de forma perfeita o que sentimos mas não fomos capazes de colocar em palavras, põe-nos imagens na cabeça, transforma-se em parte integrante das nossas experiências mesmo que as não tenhamos vivido.

 

Um bom livro é uma bofetada na existência, despertar do torpor, frio que corre na espinha, bebedeira que contagia. É andar no comboio do Douro com a cabeça de fora, fumar ópio em Hong-Kong, participar numa orgia em Los Angeles. É apaixonar-se por quem não nos quer e sofrer com isso, participar em batalhas como um herói, ser carne para canhão num pesqueiro no fim do mundo, encarnar a perfídia de um anão.

 

Sem ela, a literatura, o mundo seria infinitamente mais triste, a humanidade mais pobre.

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Epifania.

por Fernando Lopes, 2 Mar 15

Não sou particularmente culto ou grande bibliófilo; leitor mediano, não ultrapasso os vinte livros por ano. Gosto sobretudo de romances, «estórias». Quando uma obra me chega precedida de grandes encómios e adjectivação generosa, como ao cão sarnento, arrebita-se-me a orelha de suspeição. Conduziram-me a «Stoner» Mestre J. Rentes de Carvalho e o Ricardo Gonçalves com que partilho muitas das descobertas.

 

«Stoner» é uma obra especial. Toda ela cruzada por uma enorme melancolia e pelo amor ao ensino e sobretudo à literatura. Uma biografia romanceada que poderia ser a de qualquer académico aprisionado no seu universo e circunstância. A vida de Stoner é de algum modo, a minha, a tua, a do homem comum. A diferença é a autenticidade, despretensiosismo e elegância de escrita com que ela é contada.

 

Ocasionalmente provocou-me uma ou outra epifania: o que sinto, sentimos, está ali retratado com rigor e transparência. Atente-se nesta pequena amostra:

 

Depois, sorriu com ternura, como que perante uma recordação. Pensou que tinha quase sessenta anos e que deveria estar para lá de uma tal paixão, de um tal amor.

Mas não estava, sabia que não estava e nunca estaria. Debaixo da dormência, da indiferença, do distanciamento, ali estava paixão, intensa e firme; sempre ali estivera. Na juventude, dera-a livremente, sem pensar …

 

De estranhas maneiras, dera-a a cada instante da sua vida e talvez a tenha dado mais plenamente quando não estava ciente de o fazer. Não era uma paixão nem da mente nem da carne; era, isso sim, uma força que as abrangia a ambas, como se fossem a matéria do amor, a sua substância específica. Dedicada a uma mulher ou a um poema, dizia simplesmente: Olha! Estou vivo.

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Pacheco, por ele mesmo.

por Fernando Lopes, 27 Fev 15

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«Está para sair um livro com entrevistas suas... Esse livro é uma merda! Isso é uma aldrabice. É bom para andar por essas pequenas editoras.» Luiz Pacheco, semanário «Sol», Janeiro de 2008. Grande prosador, Luiz Pacheco foi também um dos melhores conversadores da imprensa. Estas entrevistas, publicadas nos últimos 20 anos em jornais e revistas, apresentam-nos uma das vidas mais agitadas da literatura portuguesa e são bem a expressão de uma inteligência desperta, desafiadora e implacável, batendo forte e feio em algumas personalidades da nossa vida pública. Caso humano riquíssimo, impossível de resumir aqui, o mais sensato é dar-lhe a palavra: «Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco nasceu em 7 de Maio de 1925 e espera morrer no ano 2000. Está bem-disposto, porque está desempregado. Publicou muitos livros de outros autores. Não se lembra de publicar nada (dele) que prestasse. Escreveu muitas obras e perdeu quase todas. Teve três mulheres, nove filhos e netos, nem conta. Folhetos de sua autoria: Os Doutores, a Salvação e o Menino, Carta-Sincera a José Gomes Ferreira, O Teodolito, Os Namorados, O Cachecol do Artista. Teve 18 valores na admissão. O Urbano teve 12.» 

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A pergunta.

por Fernando Lopes, 23 Fev 15

 

Chegara àquela idade em que lhe ocorria, com crescente intensidade, uma pergunta de uma simplicidade tão avassaladora que não tinha como a enfrentar. Dava por si a perguntar-se se a sua vida valeria a pena, se alguma vez valera a pena. Era uma pergunta, desconfiava ele, que assolava todos os homens a dada altura; perguntou-se se os assolaria com uma força tão impessoal como o assolava a ele. A pergunta acarretava uma tristeza, mas era uma tristeza geral que (pensava ele) pouco tinha que ver consigo ou com o seu destino em particular. Nem sequer tinha a certeza se a pergunta surgia das causas mais imediatas e óbvias, daquilo que a sua própria vida se tornara. Provinha, julgava ele, do acumular dos anos, da densidade de acidentes e circunstâncias, e do que aprendera sobre eles. Tirava um prazer cruel e irónico da possibilidade de o pouco que aprendera o ter levado a essa certeza: que, a longo prazo, todas as coisas, incluindo a aprendizagem que lhe permitia chegar aquela conclusão, eram fúteis e vazias, e por fim reduziam-se a um nada que não conseguiam alterar.

  

John Williams, «Stoner»

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Sobre homens casados.

por Fernando Lopes, 5 Jan 15

«É casado e diz que vai deixar a mulher e os filhos para ir viver contigo mas depois nunca mais se decide?» Bingo! Claro. Somos incrivelmente banais. Acreditamos, porque queremos acreditar. Em deuses, porque isso entorpece o medo da morte. No amor, porque adoça a vida. No que dizem os homens casados, porque é o que os homens casados dizem. 

 
«O LEOPARDO», JO NESBø

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CONVITE_Lan_amento_do_livro_Nicolinas_1984_2014_fiNicolinas 30 Anos 1984|2014

 

Sexta, a apresentação do livro «Nicolinas 30 Anos 1984|2014» do Ricardo Gonçalves. Leveza sem simplismo, reflexão sobre o futuro sem purismo, a obra e a sua divulgação pública foram a imagem do Ricardo, de Guimarães, dos seus filhos. Uma cidade com fortíssima identidade, que recebe com carinho mas sem servilismo, digna, granítica, nobre e firme, capaz de nos envolver num abraço amigo. Em Guimarães estou em casa. Durante a apresentação o Miguel fez um exercício de contabilidade que assumo como meu: nunca perdi um amigo desta terra, muitas vezes venho fortalecido com novos laços. Assim aconteceu uma vez mais: numa tertúlia improvisada, ao lado do meu anjo mau, Filipe, o seu irmão João Pedro, que me fez rir e enternecer com as suas histórias. Aos vimaranenses, dignamente representados por estes companheiros, o meu obrigado.

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