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Vicks Vaporub.

por Fernando Lopes, 11 Nov 13

Constipado há mais de uma semana, fungando aqui, tossindo acolá, com o nariz transformado numa pingadeira, só um remédio antigo me desentope eficazmente o beque; o velho Vicks Vapospray. Uma coisa puxa a outra e recordei-me de um velho remédio de infância, o Vaporub, que se esfregava no peito antes de deitar. Descongestionava, deixava um agradável odor a eucalipto, e, se não curava, dava uma sensação de alívio inigualável.

 

Há até uma história caricata entre dois sexagenários que envolve o Vaporub. Prontos para o amor à moda antiga, isto é, de luz apagada, o homem confunde a embalagem do Vicks com a de lubrificante. Ambos só deram fé do sucedido quando o acto se tornou mais “ardente”. A senhora, em sofrimento com o fervor causado pelo produto, só dizia:

- Bufa, Manel, bufa!! 

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A Moulinex da minha infância.

por Fernando Lopes, 29 Out 13

Houve um tempo antes da Moulinex e do picar carne em 1,2,3. O dispositivo acima era “a máquina” da minha infância. De procedimento simples, cortava-se a carne em pequenos pedaços, introduziam-se na parte de cima do aparelho e rodando a manivela obtinham-se os fios de carne que saíam pelos orifícios laterais. Como a coisa era atarraxada à mesa de operações, exigia uma dose moderada de braço. Demasiado empenho na manivela fazia com que o parafuso não segurasse o aparelho e tudo tombasse, vindo de imediato o calduço da mãe. Pouca força não produzia carne picada. Tal como hoje, a perfeição requeria um equilibrado balanço.

 

Coisa de antanho lembrada pelo meu amigo Carlos.

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Cala-te, ó parreco!

por Fernando Lopes, 10 Out 13

Por questões de afecto e bolsa, o pai teve vários Minis. A buzina era fracota e fazia barulho que, goste-se ou não, se assemelhava a um pato. Um dia, quando buzinava a um qualquer tipo, teve de ouvir:

- Cala-te, ó parreco!

Furioso, rumou à oficina e mandou instalar a buzina mais potente que havia. Disseram-lhe que era quási igual à de um camião.

- Quero ver quem é que agora me chama parreco!



Memória ressuscitada por este vídeo.

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Linguagem colorida.

por Fernando Lopes, 19 Set 13

Todos sabem como é rica a linguagem por estas terras do norte. Há muitos anos atrás sentei-me ao pé de um daqueles lavadouros públicos, algures em Rio Tinto. Tinha feito um longo percurso a pé e aproveitei para descansar e escutar a conversa – sim, às vezes escuto diálogo alheio. O bate boca descambou em troca de mimos, até que uma das mulheres acusou a outra de mal fodida. Ouvi, com estes que a terra há-de comer, a descrição mais rica para actividade sexual intensa:

- Mal fodida, eu? Até tenho calos no cu dos colhões do meu homem.

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Bola Nívea.

por Fernando Lopes, 23 Ago 13

Imagem roubada à Nucha, a gaja da franja

 

Na despedida de uns amigos não resisti à piada “Encontramo-nos na Bola Nívea!”. A filha olhou para mim com ar de extraterrestre, e aí percebi mais uma vez o que é o gap geracional. Muitas das nossas praias tinham uma espécie de posto de vigia patrocinado pela célebre marca. Uma referência num mar de gente, toalhas e areia. Modo de fugir à vigilância dos pais e vaguear livremente, encontrar namoradas, marcar um jogo de futebol ou vólei, estar com amigos. A Bola Nívea deve estar quase extinta das nossas praias, há anos que não vejo uma. Marcaram uma geração, o início de um contacto mais livre entre rapazes e raparigas quando isso ainda era tabu. Quantas paixões terão começado com um encontro junto a esse ícone. Era um tempo em que só havia Olá de laranja , ananás e Epá, um gelado dava para três, o famoso “dá-me uma chupa”, se jogava ao prego e a vida era simples: tudo o que necessitávamos para ser felizes estava ali, a dois passos da Bola Nívea.  

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Eu ainda sou do tempo…

por Fernando Lopes, 16 Jul 13

em que mães desapiedadas nos obrigavam a vestir camisolas e calças que picavam como o diabo. Todos os que têm 45 ou mais sabem que nos inícios dos anos 70, sabe-se lá porque razão para além da crueldade pura, algum parvalhão punha lã nas calças e camisolas. Obrigavam-nos a vestir calças em que tínhamos de andar como se fossem andas, com as pernas muito abertas. E quem não teve uma camisola/camisola interior que nos obrigava a caminhar como um robot, com os braços abertos e quase sem respirar? Coçávamo-nos mais que cão com pulgas, lembram-se? E não adiantava nada dizer: “Ó mãe isto pica!”

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Bacalhau “Foda-se!”.

por Fernando Lopes, 4 Jun 13

A mãe deve ter enorme desgostou no que o seu ventre gerou. Não bebe, não fuma, nunca diz asneiras. Moderna nas ideias, conservadora nos hábitos, quando pai e avô paterno eram vivos preservava a tradição do almoço dominical. Existia sempre um pequeno conflito sogra-nora, daqueles que nunca descambam mas estão sempre latentes. Naquele domingo tinha-se afadigado a preparar um bacalhau com broa com todos os predicados. A avó observava-a entre o curioso e inquisidor. Um cheiro magnífico. Tira-o do forno, orgulhosa, preparando-se para o levar para a sala quando tropeça no tapete junto à mesa da cozinha. Assadeira quebrada, refeição no chão e um sonoro “Foda-se!”. Foi a primeira e última vez que a ouvi dizer um impropério, mas ainda hoje quando faz o fiel amigo no forno não escapa à graçola:

- Ó mãe, vais fazer bacalhau “Foda-se!”?

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E o Coma com Pão?

por Fernando Lopes, 11 Mar 13

 

Hoje de manhã, enquanto levava a cria à escola, na rádio, recordavam-se os sabores de infância. Alguns clássicos que me encheram de prazer foram lembrados: Nestum Com Figos, Farinha Pensal, pão com manteiga e açúcar, gemas de ovos com canela, os guarda-chuvas de chocolate da Regina, os cigarros Porto do mesmo sabor, Tulicreme, uma infinidade de sabores das gerações agora entre os 30 e os 50.

 

Porque é que comíamos estas bombas calóricas e não engordávamos? Porque podíamos. O exercício físico era parte integrante do dia-a-dia das crianças. Bicicleta, futebol, trepar às árvores, jogar às caçadinhas, todos os nossos tempos livres eram ocupados com movimento.

 

Hoje, a minha filha não come fritos em ambiente escolar, tem as gulodices racionadas como todos os meninos de 7 anos. A geração que passa a vida a coçar o cu aos tablets, ou a movimentar os dedos furiosamente nas Nintendo, X-Box, Playstation e afins, pura e simplesmente perdeu o privilégio destes sabores para não ficar prematuramente badocha.

 

Naqueles minutos em que animadores e ouvintes eram meninos gulosos, ninguém referiu o meu ícone dos sabores de infância, o chocolate Coma Com Pão. Uma googladela permitiu-me descobrir que foi reintroduzido no mercado em 2011. Vai um?

 

adenda: quem quiser recordar o seu sabor de infância, faça o favor de partilhar.

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O iPad do meu tempo

por Fernando Lopes, 8 Mar 12

Tinha a vantagem de não gastar bateria, apesar de monocromática. Um colega mais afoito, de seu nome Rogério, descobriu que retirando os bordos de madeira e lançando para as poças de água em dias de chuva deslizava de um modo fantástico, proporcionando galhofeiros bate-cus. Eventualmente fomos os percursores do skimming. Ainda hoje pode ser encontrada com preços a partir de 1,5€.

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Miquinhas

por Fernando Lopes, 1 Mar 12

 

Quinta da Aurifícia (Google Maps)
(o enorme espaço verde resiste, ainda hoje)

 

Companhia Aurifícia
(das grades, à direita, observava os operários da Companhia Aurifícia)

 

 

O Porto da minha infância tinha uma ruralidade que tende a desaparecer. Fui criado na rua de Álvares Cabral, na freguesia de Cedofeita. Naquela artéria uma grande parte das casas tinham um terreno nas traseiras. Os mais ricos, tinham jardim. Os outros, um quintal de 20 ou 30m2. A casa dos meus avós fazia fronteira com a Quinta da Aurifícia, que atravessava um quarteirão inteiro, do lado da Rua dos Bragas uma fábrica a que chamávamos "a fábrica dos pregos", do lado de Álvares Cabral um enorme portão de ferro com a inscrição Quinta da Aurifícia. Cresci pois, no melhor de dois mundos, com a urbanidade e o comércio de Cedofeita e ao mesmo tempo entre galinhas, couves, salsa e hortelã. Por uma porta, saía de casa e ia brincar para "a quinta". Um espaço imenso que estava alugado. Os arrendatários transformaram aqueles 2 ou três hectares numa fonte de rendimento cultivando em pequenas parcelas tudo o imaginável. Eram uma espécie de agricultores biológicos "old age". Havia flores, castanheiros, tomates e pencas, dióspiros e vinha. O Sr. Fernando trabalhava no Instituto Pasteur e era agricultor em todas as horas vagas. A sua mulher, a Miquinhas, dedicava-se em exclusivo à agricultura. Não estou a falar de tempos remotos, a "exploração agrícola" manteve-se activa até finais dos anos 90, quando a ruralidade tendia a desaparecer engolida pela valorização do espaço, em prédios de 5 andares.


A Miquinhas vivia uma vida dupla, entre o campo e a cidade. Personagem peculiar, tanto a encontrávamos de sachola e com uns estranhos socos de plástico, avental e um chapéu esquisito, como vestida urbanamente, nas compras, entre as vizinhas. Era como se por artes mágicas, o enorme portão lhe mudasse o ofício e a personalidade. Ora lavradeira, ora uma vulgar mulher da classe média de então. Essa fronteira, facilmente ultrapassável entre o mundo rural e urbano que existiu na minha infância quase desapareceu. As Miquinhas que habitam esta cidade são uma espécie em vias de extinção, um precioso bem cada vez mais escasso. Dir-me-ão que é saudosismo. Talvez. Mas quando esquecemos a terra, também esquecemos as nossas origens. A todas as Miquinhas que ainda resistem, entre couves e galinhas, a minha homenagem.

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