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Suspiro.

por Fernando Lopes, 26 Abr 17

Passeava pela cidade, bem no centro onde me perguntaram pela «livraria do Harry Poter», e juro que a ouvi suspirar. Não sei se o suspiro que a cidade exalou era de cansaço ou enfado. Ela, como os seus habitantes, ocasionalmente, cansam-se da falta de privacidade, dos pequenos locais que eram nossos e agora estão sempre cheios. Não é que não gostemos de receber, adoramos, mas cansa-nos estar sempre sorridentes, amáveis, prestativos, até ao turista 1.000.000. Como um casal, queríamos um bocadinho de intimidade. Só nós e as nossas pequenas manias. A esplanada da escada dos Guindais sem estar cheia, sem gente de mapa ou Google Maps em punho. Gostávamos de petiscar no «Museu da Avó» tranquilamente, sem grandes filas de franceses. Questionei porquê franceses, porquê ali, disseram-me que era aconselhado por um qualquer «guide touristique». A cidade, como qualquer organismo vivo, também precisa de descanso. Palavra de honra que a ouvi suspirar. Suspirei com ela.

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Não há camaradas paneleiros.

por Fernando Lopes, 21 Abr 17

Não sou defensor nem avesso à causa LBGT, porque, simplesmente, não faço juízos morais, não gosto de ser defensor de coisa nenhuma, menos ainda de empunhar bandeiras. Cada um vive a sua sexualidade como lhe apetece, nem me passa pela cabeça que fosse de outro modo. Não condeno ou apoio nenhuma preferência sexual, excepção feita àquelas que tipificam crimes contra menores. Mas gosto da postura Séc. XIX do PCP. Não temos provas que a Coreia do Norte seja uma ditadura, menos ainda que na Chechénia estejam em curso perseguições às orientações sexuais «diferentes». Deve ser bem mais simples viver num mundo a preto e branco.

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Demasiado longe, há demasiado tempo.

por Fernando Lopes, 14 Abr 17

Fugiste-me, e provavelmente foi a atitude mais sensata que tomaste em toda a tua vida. Não sou flor que se cheire, carrego mais angústias, incertezas, que sorrisos. Não te traria a pacatez que desejavas, difícil imaginar-me com três ou quatro ranhosos na mesa do chinês a depenicar o menu «Família Feliz». Pouco tenho para partilhar senão esta pedra invisível que carrego, um Sísifo de pacotilha. Também não te digo que queria viver contigo até sermos velhinhos, pela razão simples que nunca envelheceste, foste, és, e serás sempre a minha menina, nem que os ossos se te curvem com o peso da idade, os olhos percam o brilho com as cataratas. Uma menina, a minha menina. Estamos demasiado longe, há demasiado tempo. Talvez nos tenhamos transformados em pessoas diferentes, talvez se nos cruzássemos nada mais existisse que uma memória. Ou talvez não. É esse o encanto, serás sempre o meu «e se...» favorito.

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iscas.jpg Imagem do Tripadvisor ou julgam que ando a fotografar o que como?

 

Pela cidade abundam restaurantes. Na passada semana, por motivos familiares, passei muito tempo – demasiado – no Hospital da Lapa. Pediam por cada refeição 13 euros. Pelo preço e pela vontade de sair daquele ambiente, andei pela zona, testei alguma da restauração existente, o que deu origem a este post. Com a cria, fui a um estabelecimento mais velho que eu, ao qual o avô tecia elogios, a «Rosa das Iscas». Aqui não existe o efeito novidade de alguns locais, nada de sofisticado, apenas e simplesmente comida caseira. No Porto, quando eu era criança, não se usava a palavra patanisca. Se era de bacalhau dizia-se «isca de bacalhau», o mesmo para as de fígado. O estabelecimento é simples, despretensioso, quase rústico, quase coisa nenhuma. Não adianta frequenta-lo pelo ambiente, não vão encontrar o beautiful people da urbe, apenas gente simples que gosta de boa comida tradicional. A petinga tinha bom aspecto, mas decidi-mo-nos pelo que dá nome ao estabelecimento, as iscas ou pataniscas. Cada dose (6 ou 7 euros) é composta por três iscas de tamanho generoso e um fabuloso arroz malandrinho de legumes. As pataniscas são de estalo, a fazer recordar as da minha avó, que é sempre o meu maior elogio. Numa travessa decorada com duas folhas de alface e alguns pickles, ei-las, douradas, quentes, estaladiças. O arroz tinha couve, feijão, cenoura, e vinha a fugir do prato. O serviço é simples, mas rápido e eficiente. Pela cozinha andava um senhora de sessenta e um homem que presumi um pouco mais velho, talvez o proprietário. Sem salamaleques, sem merdas, mas bom. Gostei tanto que já estou a combinar uma jantarada de amigos no local. Se estiverem no Porto e vos apetecer pataniscas, sigam o meu conselho e dificilmente ficarão desiludidos.

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O meu bebé.

por Fernando Lopes, 4 Abr 17

Aquela conversa que os filhos são sempre crianças para os pais, infelizmente, aplica-se-me. Doze anos recém feitos, apercebo-me do seu crescimento quando nela tento pegar ao colo. E nas conversas. As conversas senhor, de quando em vez parecem um salto epistemológico. Surpreendo-me com o vocabulário, com a maturidade aqui e ali. O meu bebé cresce a olhos vistos. Demonstra sensibilidade, bom carácter, capacidade empática. Falávamos de homossexualidade e a sua atitude livre de preconceitos, pronta a aceitar o outro como é, não se importando com a norma, melhor ainda, negando a sua existência, tranquilizou-me. Nós, a escola, a sociedade, estamos a fazer um bom trabalho com as novas gerações.

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Reaprender a sorrir.

por Fernando Lopes, 1 Abr 17

Tenho uma capacidade inata para me colocar na pele do outro, para «farejar» o sentir da minha gente, destes meus irmãos que vão para a fábrica às 6:30, que se deslocam para o escritório com marmitas coloridas, que vão para a escola vergados com o peso das mochilas, dos velhos solitários ansiosos por trocar dois dedos de conversa. Sinto no ar um ambiente mais distendido, a culpa por «viver acima das possibilidades» a escorrer para a sarjeta, lavada por estas águas de Março. Houve uma revolução? Nem por isso. As condições de vida melhoraram substancialmente? Não o noto. Há menos desemprego? Só mesmo um pouquinho. Se outro mérito não teve, este governo devolveu-nos uma pitada de esperança, pequenas doses de auto-estima, cortou a gordura da culpa e deitou-a fora. Passos apostava na auto-flagelação desta gente humilde, a quem disseram que ter um pequeno apartamento nos subúrbios ou passar oito dias de férias em Benidorm era coisa de ricos, reservada aos tipos ricos e loiros do norte, poupados e trabalhadores, enquanto gastávamos o que não tínhamos em álcool e mulheres. As palavras de Dijsselbloem preocupam-me tanto como o zurrar de um asno, o facto de os portugueses se incomodarem com a diatribe deste cretino é um sinal ténue desse amor próprio reencontrado. Existem poucas coisas que me deixem mais feliz que ver estas pessoas simples, trabalhadoras, a reaprender a sorrir.

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Food for tourists.

por Fernando Lopes, 29 Mar 17

A «barcelonização» a que o Porto e outras cidades nacionais têm sido sujeitas fez com que qualquer cão ou gato se ache habilitado a abrir restaurante ou similar. Tal tem provocado que em muitos dos restaurantes, hamburguerias, pizzarias e quejandos, a qualidade da comida, e principalmente do serviço, seja abaixo de medíocre. Três exemplos recentes: perto do Teatro Carlos Alberto abriu uma hamburgueria moderna. Serve dois mini hamburgueres, opções várias por preço em conta. O conceito é interessante mas, para meu mal, não como conceitos. Demoraram uma hora (sessenta minutos) a servir um menu composto por dois pequenos hambúrgueres e meia-dúzia de batatas fritas, não sem antes me questionarem três vezes sobre o pedido. À terceira, quarenta e cinco minutos passados do pedido original, não me contive:

 

- Ou me traz a porra dos hambúrgueres depressa ou ainda leva com o tabuleiro.

 

Ontem, numa churrascaria da Rua do Paraíso, um menu a armar ao fino, com javali e fófófó. Pedi uma alheira com salada mista. A alheira era do tamanho da pila de um chihuahua, a salada, literalmente a boiar em azeite e vinagre. O preço, uma exorbitância para a qualidade. O empregado de mesa parecia uma versão da «Família Bellamy», no orginal «Upstairs, Downstairs», subindo e descendo as escadas não entendi bem porquê, o elevador da comida estava a funcionar. Suponho que a vergonha o fizesse ausentar-se o máximo de tempo possível.

 

Hoje vou a uma padaria/pizzaria, com o intento de comer uma sandes rápida. Pedi uma americana. Abro o pão e tomate não havia, ovo também não. Chamei o emprego e expliquei-lhe os complexos ingredientes que compõem o que os americanos chamam «sanduíche nacional».

 

Não adianta ter bonitas fotografias da comida e da cidade se não se sabe o que se está a fazer. Mesmo que os turistas de pé-descalço que nos visitam se contentem com qualquer coisa, perde-se o cliente nacional. Não se pode ter uma boa ideia – como a do primeiro restaurante referido – e depois assassiná-la com atendimento e cozinha incompetente. A restauração não é refúgio de amigos, imberbes, criação de emprego para quem não é da área. Ou se é profissional ou se trabalha para atingir níveis de qualidade acima da média, caso contrário é melhor estarem quietos.

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Patchwork ou dignidade na simplicidade.

por Fernando Lopes, 25 Mar 17

Sempre que possível, desço da Boavista ao meu útero urbano, Cedofeita. Álvares Cabral abaixo – onde vivi os trinta primeiros anos da minha vida – observo do outro lado da rua uma idosa e o seu cão. Sempre me enterneceram estas duplas velho-cão. O binómio – com sói dizer-se na cinotecnia – tem uma dinâmica própria. Ou os cães são, também eles, velhinhos, ou adoptam uma postura cuidadosa com os gerontes, não puxando, fazendo suas dores e maleitas do dono. Existirão poucos fenómenos mais empáticos que um cão e o seu dono velhinho. O que sobe castanho com pêlos brancos, acompanha a dona com enlevo. É colorido. Traz um casaquinho de cão, que mais não é que um conjunto de pegas de tacho, daquelas que as nossas avós tricotavam, unidas num trabalho de patchwork. Não há dinheiro para comprar roupa de cão, tricote-se. Há dignidade e carinho na indumentária colorida do bicho.

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Até à ilusão.

por Fernando Lopes, 15 Mar 17

A propósito do post aqui debaixo, e de um outro, podemos reflectir no que somos, o que queremos ser, na capacidade de nos reinventarmos, da forma como resistimos às rotinas, como nos focamos no instinto mais básico de nós, a sobrevivência. Cada um, mesmo os mais frágeis, somos resistentes. Durante uns segundos pense-se em todas as voltas e reviravoltas que a vida, a nossa vida, deu. Quantas vezes estivemos perto do tragédia, da morte. De como sobrevivemos aos que nos antecederam, e às vezes. de modo particularmente cruel, aos que nos sucederam. Não te morreu um amigo? Um outro não ficou desempregado, passou dificuldades? Não soubeste daquele colega de escola que acabou agarrado à branca? Não traíste ou foste traído, não te desiludiste com uma paixão que julgavas para sempre? Sobrevive-se sempre a algo ou a alguém, daí que prefira ser «vivente» a «sobrevivente». Inevitavelmente seremos todos mais sobreviventes que viventes. É uma questão de tempo. O que seremos nós afinal? Correndo o risco de uma simplificação absoluta, e consequentemente pateta, posso sintetizar o que hoje sou da seguinte forma: Sou o que resta dos meus sonhos subtraídos das minhas desilusões. Se, como eu, nesta operação, o balanço dos sonhos resistir ao das desilusões, ainda vale a pena estar vivo, porque continuamos a ter a maior capacidade de todas: acreditar no outro. Até à ilusão.

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Não quero mudar-te.

por Fernando Lopes, 12 Mar 17

Estas três palavras seriam a maior declaração de amor que poderia alguma vez ouvir. Não creio que tal tenha acontecido. Aceito-te como és, depressivo, com alterações de humor súbitas, borderliner, preguiçoso, teimoso, desastrado no bricolage, incapaz de cozinhar algo mais que tostas mistas ou pizza, flatulento, irascível, obstinado, asneirento, maníaco. Não quero mudar-te porque em ti vejo algo maior que os teus defeitos: a tua honestidade, integridade, frontalidade, humor. Ouvi algo semelhante num filme, mas já se sabe que tão pungentes afirmações de amor só existem nos filmes. Provavelmente porque nos filmes não existe um cancro chamado dia-a-dia.

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