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Quando se passa de marido a parente.

por Fernando Lopes, 22 Out 17

A confissão foi de uma médica, casada há trinta e cinco anos: Sabes, não sei se como homem compreendes isso, mas quando se está casado há tantos anos como eu, já não se olha para o marido apenas como homem, passa já para a categoria de parente.

 

À época pareceu-me uma confissão de desistência, como se não houvesse lugar para amor, sexo, luxúria, quando se está casado há décadas, e tudo se resumisse a uma vida em comum, uma construção conjunta de dois companheiros. Hoje tenho a ideia que as mulheres são tão ou mais vorazes que os homens no que à variedade de parceiros concerne. É satisfação suficiente que a nossa companheira de décadas nos deseje sexualmente, não estou certo que o inverso seja verdade.

 

Se me parece mais ao menos consensual que uma relação se vai tornando mais de companheirismo e menos de desejo pelos terríveis mecanismos da idade, tenho para mim que se as prioridades femininas não fossem tão diferentes das nossas seríamos descartados a um ritmo de fazer Zsa Zsa Gabor parecer uma noviça.

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Da ausência de empatia ao paternalismo.

por Fernando Lopes, 19 Out 17

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Marcelo sabe interpretar como ninguém o sentimento do povo. Talvez não do povo todo, mas do taxista, da vendedeira do Bolhão, do homem do talho. Não é desprimor para estas classes profissionais, são apenas um exemplo de um certo sentir geral. Costa e Constança manifestaram uma frieza perante a tragédia só explicável porque os citadinos vêem o campo como algo de distante, que já lhes não pertence, uma realidade paralela. Não é de perdoar.



O governo foi inábil? Certamente. Teimoso? Acho que sim. O que povo e a CMTV querem é gente chorosa a lambuzar o presidente. Não omitindo a gravidade de cem mortes – cem, um número que assusta – preocupa-me igualmente que o presidente sinta a necessidade de fisicamente ir oferecer um ombro amigo a quem necessite de depositar a sua tragédia nas espaldas do mais alto magistrado da nação. A postura de Marcelo, ditada também pelos media, de Jesus Cristo enfatiotado, a dar longos abraços e beijinhos, encerra mais que empatia, paternalismo. Esteve tão mal quanto o governo pelas razões opostas.

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Follow the money.

por Fernando Lopes, 16 Out 17

Este é um ano dramático em termos de incêndios, não tanto pela área ardida mas pela perda de vidas humanas. Ao leigo que vos escreve saltam dois factores à vista: o ano excepcionalmente quente e seco que potencia estas ocorrências – em 54 anos de vida não me recordo de 34º em meados de Outubro –, e a sua gravidade. Aquecimento global, incúria, crime, falta de ordenamento florestal são tudo razões que terão o seu peso. O tempo quente e os ventos do furacão Ofélia terão feito o resto.

 

Mas nos anos recentes criou-se a indústria do fogo. Quem ganha com ela?

 

- Quem vende equipamentos com ela relacionados (carros de combate, materiais, equipamentos, etc). É preciso que haja fogo para que se comprem novos equipamentos e carros, para que existam materiais cada vez mais sofisticados e caros, uma indústria que se alimenta da tragédia. Sem fogos, vende-se menos, negoceia-se melhor, compram-se equipamentos sem ser sob pressão. Recordo-me de ver uma notícia recente em que o governo tinha compra 20 e tal pick-ups sofisticadas para o ataque a fogos na sua fase inicial. Não deve ter saído barato, mas ficou bem nos telejornais, deu ideia que se estava a fazer alguma coisa.

 

- A industria do meios aéreos de combate ao fogo (privatizada, tornou-se um filão apetecível que é tão mais rentável quantos fogos houver. Não estou a imaginar quem lucra com o fogo a rezar para que ele não aconteça.

 

- Para a construção e algumas autarquias é economicamente interessante a construção de heliportos e similares.

 

- Muitos PDMs serão eventualmente reavaliados pelo que fogos junto de vilas e cidades – como ontem em Braga, só para falar da maior cidade – parecem-me corresponder a interesses imobiliários.

 

Sou radicalmente contra a privatização de meios de combate a incêndios e, curiosa coincidência, desde que tal aconteceu têm aumentado os fogos de ano para ano. Além das condições naturais que propiciam os fogos, cada vez que há lume também há bolsos mais cheios. Pensem nisso.

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As mulheres e os pormenores.

por Fernando Lopes, 12 Out 17

A maneira como homens e mulheres observam o mundo é, em muitos aspectos, substancialmente diferente, mas uma das coisas que mais me surpreende é quando elas falam de homens. Às vezes caem-me nos ouvidos em conversas absolutamente deliciosas como hoje aconteceu. Quatro mulheres jovens falavam sobre alguns seus conhecidos. Referiram coisas para mim tão espantosas como «tem umas mãos bonitas», «gosto do andar dele», «tem um nariz giro» e o clássico «olhos bonitos». Como homem, se fosse jovem, ficaria preocupado com o nível de detalhe com que observam. Nenhum macho estaria demasiado preocupado com as mãos da eventual parceira a não ser que fossem sapudas e peludas como as de um gorila; desde que uma rapariga não ande aos pulinhos ou a tropeçar nos tacões, o modo como se deslocam é-nos relativamente indiferente – mas não ponham os pés à frente um do outro como os modelos de passerelle – o nariz é algo que pode chamar a atenção se for demasiado grande, adunco, ou tiver pêlos de fora, caso contrário é apenas um nariz. Com os olhos já é uma história completamente diversa. Trambalazanas como só nós, sermos observados assim ao microscópio só nos desvaloriza.

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Carro velho com retoques na pintura.

por Fernando Lopes, 9 Out 17

Hoje encontrei um velho conhecido com quem trabalhei há mais de vinte anos. Trocamos amenidades, falamos da vida, da família.

 

 - Ainda trabalhas no mesmo sítio?

 

- Sim, disse eu. Mas ando cansado, a vitalidade, a fluidez de raciocínio já não são as mesmas, enfim..

 

- Mas ainda estás com bom aspecto.

 

- Pois, mas sou exactamente como os carros dos stands de segunda-mão. Dão-lhes uma lavadela, uns retoques na pintura, corrige-se uma amassadela aqui e ali, lava-se o motor, muda-se o óleo, mas os quilómetros estão cá, o mais provável é avariar na próxima esquina.

 

Fiquei a pensar como isso se aplica a muita gente da minha idade, ainda podemos enganar aqui e ali, mas não deixamos de estar já com muito uso, dentro em breve não passaremos de uma relíquia, ou como agora se diz «um clássico».

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Ciganos a abastecer.

por Fernando Lopes, 3 Out 17

OK, André Ventura é um racista, xenófobo e o raio que o parta. Existem pessoas, e essas pessoas são boas ou más, não havendo nenhuma relação com a sua origem. Ora isto é só meia verdade. Alguns ciganos – e repito, alguns – aproveitam o desconforto que a sua fama de conflituosos provoca para tomarem atitudes que facilmente seriam alvo de críticas ferozes no que a outros diz respeito. 19:15 bomba da Repsol da Constituição. Paro para abastecer. Um cliente avisa um dos funcionários que estão a roubar água. Este sai vigoroso e volta a entrar com ar comprometido. Quando chego cá fora noto homens e mulheres ciganos com uma carreta e uns 15 ou 20 garrafões de água. Atestavam os garrafões no espaço de ar e água dos carros. Automóvel, nem vê-lo. Gozavam da impunidade que a etnia lhe dá. Não é crime grave roubar água a uma multinacional, aliás «ladrão que rouba ladrão»... Provavelmente não tinham água potável. Não me incomodou, até soltei uma gargalhada. Foi o suficiente – e eu moreno e de preto também pareço cigano – para logo uma mulher olhar para mim de alto a baixo, a avaliar possível contenda. Meus amigos politicamente correctos: se fosse eu, vocês, uns quaisquer mitras, tinham levado a merecida desanda. Eles olhavam com ar desafiador. É por isso que me chateia quando os camaradas do PS, PCP, BE defendem a diferença pela diferença numa espécie de bom selvagem revisitado. Temos de ter a noção que existem nas minoras grupos que se aproveitam dessa intocabilidade. Talvez seja um modo de defesa, talvez seja legítimo e compreensível. Ou talvez não.

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Rouba, mas faz obra.

por Fernando Lopes, 29 Set 17

Domingo será dia de autárquicas. As eleições de carácter regional revelam podres e virtudes da política como mais nenhumas. Temos uns tipos de quem se suspeita vagamente, outros que alteram o PDM a favor de interesses esconsos, os que ofereciam electrodomésticos, e, para completar o ramalhete, caciques e dinossauros. Sobre muitos dos candidatos à reeleição paira o espectro da suspeita, nunca se saberá se justificada. Outros, como muitos presidentes de junta, dão todos os dias o melhor de si em prol da população que os elegeu. Esqueçamos os vigaristas, procuremos eleger gente competente e séria. Há muito que devíamos ter ultrapassado o síndrome oeirense: «rouba, mas faz obra».

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A todos os que me buzinam logo às 8:05.

por Fernando Lopes, 27 Set 17

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Minhas senhoras e meus senhores, as minhas desculpas. Ocasionalmente tenho de parar em segunda fila para deixar a minha filha na escola. Sei que incomoda, sei que estrangula o trânsito, mas mais não posso fazer. Tentei ensinar a criança a saltar do carro em andamento mas a mãe insiste comigo que é demasiado perigoso. Propus à escola um mecanismo de rappel, mas não foi aceite sabe-se lá porquê. Tentei despejá-la pelo tecto de abrir, mas confesso que com a mochila a pequena não passa pelo estreito espaço. Enfim, quando o semáforo se compadece e fica vermelho lá sai a criança sem incomodar ninguém. Caso contrário tenho mesmo de estacionar em segunda fila, atravessar a miúda e saltar para o carro. É verdade, esta articulada manobra - já com sete anos de prática - , chega a atrasar-vos durante dez infinitos segundos. Mil perdões, sei que o vosso tempo é precioso. Já à senhora que me buzinava furiosamente e 600 metros depois estacionou igualmente em segunda fila à porta do liceu para deixar sair o seu rebento só me apraz dizer: vá para o caralho.

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Ricochete.

por Fernando Lopes, 26 Set 17

Há gente que por mau feitio, mau carácter, ou uma terrível combinação de ambos, passa a vida a disparar em todos os sentidos. Esquecem-se que no meio de tão cerrada metralha algum projéctil perdido vai fazer ricochete. Ficam eles surpreendidos por serem vítimas do seu próprio veneno, eu pasmo por nunca terem avaliado a forte probabilidade de tal acontecer. Chamem-lhe karma, justiça divina, o que quiserem, mas é mais ao menos uma inevitabilidade.

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Paro para abastecer. À minha frente uma senhora procura na carteira – e vocês sabem como são as malas das mulheres – o respectivo cartão de desconto. Comprar seja o que for transformou-se num acto complexo que requer especialização. Aquela senhora encontrou cartões do Ikea, Pingo Doce, Continente, Cortefiel, antes de chegar ao que lhe proporcionava a redução de preço almejada. Dei comigo a pensar que cá em casa também é um pouco assim, temos cartões para tudo e um par de botas. Sei que se podem conseguir benefícios consideráveis, mas a coisa entre talões, promoções e cartões de fidelização é de tal modo complexa que se me falta o empenho. Fui comprar um blazer e trouxe um cartão, no Continente vi uma maquineta que dá cupões de desconto à sorte, comprar não sei o quê traz apensos cinco euros de desconto numa próxima aquisição. Sei que faz parte do marketing, que o objectivo é fazer o consumidor comparar uma série de tretas que não necessita, fazê-lo voltar sempre à loja habitual, mas um dia com tantos cartões e benefícios cruzados, chegar, comprar, e apenas pagar será só para ETs como eu.

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