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Um cinquentão atípico.

por Fernando Lopes, 21 Jan 18

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Muitos dos tipos da minha idade ambicionam poder ter um Porsche, como se a potência debaixo do pé compensasse a que começa a dar sinais de fraqueza «entre pernas». A verdade é que 54 são 54, as maratonas sexuais são coisa do passado, «cumprir» os deveres conjugais sem grande embaraço já não é mau, vamos olhando para o Viagra como uma solução de curto-médio prazo, e não algo que nos fazia sorrir como há dez anos. É a puta da vida.

 

Este vosso humilde escriba anda apaixonado por um MINI. Já aqui escrevi que na infância o pai Tinha um Mini Cooper, que nos inícios dos anos 70 nos levava ao Algarve em intermináveis viagens, malas em cima do tejadilho.

 

Agora, não sei por nostalgia, gostava de abandonar a barcaça de quase seis metros que conduzo por algo mais maneirinho, prático, e que me reavivasse essas boas recordações de um tempo em que tudo era possível. Será que sou estranho? Os meus sonhos materiais nunca foram os típicos – nunca ambicionei uma casa com piscina, um BMW na garagem e um camarote no Dragão. Agora, se e quando puder, vou comprar um MINI.

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O assédio invisível.

por Fernando Lopes, 15 Jan 18

 

Todo o ruído criado à volta de hollywodesco assédio diz-me pouco. Não que o não condene, mas inspira-me pouca preocupação que starlettes venham bradar aos quatro ventos que foram assediadas. A maioria delas seriam adultas, capazes de se defender e de dizer não. Estava em Cedofeita, esplanada do costumes. Uma jovem com pouca mais de 20 anos contava à avó como uma colega sua, ainda menor, tinha recebido uma proposta financeira para ir para a cama com um homem mais velho, não sei se patrão ou cliente de algum estabelecimento onde a jovem trabalhava. Percebia-se pelas roupas e jeito de falar que eram gente de origem humilde. Havia ali um sentido de inevitabilidade, como se ser jovem, bonita, e precisar do emprego a(s) levasse a aceitar aquilo. Que o assédio vem quase sempre de quem tem ascendente sobre o outro é normal, anormal é que miúdas que precisam de trabalhar, pensem com fatalismo, que serem assediadas é algo a que se não pode fugir, para não perder o trabalho. Essas jovens, com pouca maturidade e muita necessidade, raramente se queixam. Fico a pensar que também esta história do assédio é muitas vezes uma questão de classe social. Era assim nas fábricas, é agora, nesta era pós-industrial, nas boutiques e cafés da moda. Assedia quem pode, cala quem necessita.

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Shitbrain.

por Fernando Lopes, 12 Jan 18

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Os Estados Unidos são um país historicamente recente, quase imberbe se comparado com os padrões europeus. Convivi diariamente com americanos durante uma década, não os acho genericamente estúpidos. A impressão que me ficou – e vale o que vale – é que são ingénuos, infantis, e um bocado ignorantes. Como qualidades, são extremamente capazes socialmente, simpáticos, e muito bons nas áreas em que se especializam. Saindo da sua área de estudos e trabalho para o que chamamos interesses e cultura geral, o panorama que se me deparava era o de um deserto. Uma impressão individual que mais não é que isso mesmo – uma impressão. O americano médio é criado na ideia que que pouco mais existe para além dos Estados Unidos, que a Europa é uma espécie de museu vivo, e que os países em vias de desenvolvimento ou subdesenvolvidos são mesmo shitholes.

 

Trump é suficientemente estúpido para escrever publicamente o que o americano médio diz à boca pequena. Provou ao que vinha quando em plena campanha eleitoral enfatizou a ideia de criar um muro com o México. A América de Trump é branca, supremacista, racista e intolerante. Mas a América de Trump é a de muitos milhões de americanos, não só de rednecks e Tea Party, um princípio etnocentrico atravessa muitas daquelas almas.

 

Contrariando a anteriormente generosa política de acolhimento, a tendência para julgar inferior, expulsar, atribuir aos estrangeiros os males dos EUA, é cada vez mais frequente. Existe a séria hipótese de 800 mil seres humanos criados desde a infância nos EUA, que serviram o exército dos EUA, que mais não recordam que o país que os acolheu, serem expulsos porque nasceram em shitholes.

 

Aquando da eleição de Trump, em conversa privada, o jornalista Ricardo Alexandre, que me dá o privilégio de ser meu amigo, salientava que o que mais o assustava era a insensibilidade de Trump, ele que tinha feito a cobertura das eleições americanas. Palavras a que na altura não atribui a importância devida e hoje se revelam quase proféticas.

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Tenho um sobrinho novinho em folha.

por Fernando Lopes, 30 Dez 17

Quase nos 55 continuo a ficar surpreso e entusiasmado com o milagre da vida. Tenho um sobrinho «novinho em folha», estreou-se entre nós na passada 4ª feira. Quem me conhece sabe que sempre adorei bebés e crianças, de alguma forma lamento não ter tido mais filhos. Pego no pequenito ao colo e a sua fragilidade e em simultâneo o mundo que se lhe abre, deixam-me nas nuvens. Um bebé é como uma história por contar, por caminhos que são só seus escreverá um futuro que só a ele pertence. Não sei se a maioria dos homens são assim, mas sou aquele chato que brinca com os miúdos no restaurante, que faz caretas e palhaçadas, que os ensina a dar traques com as mãos. Penso que tenho jeito, acima de tudo adoro aquelas pessoas pequenas. Anseio pegar nele, brincar, fazer tonterias. Nada melhor que ter um futuro à espera de ser escrito ao colo.

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Pois...

por Fernando Lopes, 24 Dez 17

O amor é divino.

Marcel Proust
 

É a única forma de eternidade, o lado solar da natureza humana, aquilo que nos faz superar-nos todos os dias.

 

Um Natal cheio de amor.

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Um país dividido.

por Fernando Lopes, 17 Dez 17

camelo_lourenco.jpg Ainda e sempre o brihante texto de Luís M. Jorge


Nos idos de 75, era eu um infante de calças curtas, assisti a brigas imensas pour et à cause de opções políticas que então separavam pais e filhos, tios e parentes. Existiam dois caminhos claros, antagónicos, que separavam as águas. Hoje noto como nunca essa fractura ideológica, com os órfãos de PPC, das políticas austeritárias e de castigo, e os outros. Temos a madame Avillez, os Ramos e Hienas do Matos a vociferar contra tudo e qualquer coisa que o governo faça. É um direito que lhes assiste, respeito-o. Atribuem todos os méritos da actual situação às reformas estruturais – que foram vender tudo aos chineses ao preço da uva mijona, desvalorizar o trabalho, aumentar impostos, castigar os portugueses por comprarem um apartamento nos subúrbios e irem de férias a Benidorm. Esta ideia ancestral de que o povo só lá vai a chicote continua o orientar uma certa intelligentsia da nossa direita, sem que lhe entenda o porquê. O governo actual não passa de social-democrata com um perfume ocasional de medidas de esquerda. O PS como partido de poder continua a ter uma clientela faminta que tem de alimentar. PC e Bloco persistem em viver no seu pequeno mundo como se tudo não estivesse ligado e dependente dos «poderes imperialistas» da UE. Não é, nem de longe nem de perto, o que sonhei. É o possível, e quem olhar para o país sem preconceitos verá que, apesar de tudo, em contraste com montenegrina filosofia, «o país está melhor e as pessoas estão melhor». 

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Põe-te no teu lugar.

por Fernando Lopes, 15 Dez 17

 Dizes a verdade mesmo quando ela é inconveniente.

 

Não gostas de jogos de palavras, preferes chamar os bois pelos nomes.

 

Achas que lealdade é mais importante que obediência.

 

Não pensas que dinheiro ou status definam o que é essencial numa pessoa; a sua humanidade.

 

Continuas a desejar utopias.

 

Não te adaptas a situações «sociais».

 

Evitas mentir e até as mentiras piedosas te são custosas.

 

Estás permanentemente insatisfeito contigo e com os outros.

 

Tens grandes exaltações e enormes angústias.

 

Dizes palavrões, ris alto, piscas o olho com malandrice.

 

Adoras beber, rir, cantar.



 

Atenção: és um tipo excessivo, tens o coração perto da boca, melhor pores-te no teu lugar.

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Marvin Gaye.

por Fernando Lopes, 10 Dez 17

No restaurante onde almoço durante a semana – o das couves, Filipe – os empregados rodam com alguma frequência. Recordo com saudade o Luciano, um rapaz brasileiro, alto e magrinho, que era uma autêntica máquina. Fixava tudo, servia sempre com um sorriso, uma piada e uma rapidez alucinante. Acabava o turno completamente transpirado, tal o esforço de físico e de concentração que aquelas duas horas de gás a fundo implicavam. Havia também o Márcio, refilão encartado, mas sempre pronto para agradar e satisfazer os pedidos mais improváveis. Agora servem dois jovens brasileiros, a Lorrana, simplificado para Lô e o Higor, que quando me confessou que o seu nome se escrevia com H levou logo com a alcunha de Igor com H. A Lorrana está grávida, quando lhe perguntei o nome do bebé, disse-me que tinha escolhido Marvin.

 

- Fixe, como o Marvin Gaye, disse. Ela olho para mim, franziu o sobrolho e afastou-se. Passado uns minutos aproxima-se de mim e pergunta:

 

- Seu Fernando, já me tinham falado nisso do gay. Que é que é isso?

 

- Lô, não tem nada a ver com gay, é Gaye, com é, era um cantor americano muito conhecido, há uma música dele «Sexual Healing» que deve ter ouvido, foi muito popular nos anos 80.

 

 

Dúvida desfeita, mãe tranquilizada sobre o bullying ao seu futuro rebento.

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Comida para pássaros.

por Fernando Lopes, 22 Nov 17

Periquitos_xl.jpg

 

Virou moda comer sementes, vai daí somos bombardeados com os benefícios de tudo quanto é semente ou baga. Linhaça, aveia, girassol, ou com nomes mais exóticos como quinoa e goji. Os supermercados têm agora secções saudáveis cheias de painço. Ora tipos como eu só comiam tremoços e amendoins para acompanhar a cerveja. Havia também o arroz, semente de tradição milenar na alimentação humana. Agora comem-se quaisquer tipo de sementes. Dizem os nutricionistas para não ingerimos sementes à toa pois estas têm contra-indicações como flatulência ou oclusão intestinal. Mulherada e hipsters, cuidado, não me apetece levar com o vosso flato. Recordo-me de num vegetariano ter comido almôndegas de lentilhas com a triste consequência de ter largado mais ventosidades que uma vaca argentina. Tá tudo muito bem, mas para este velho do Restelo que vos escreve, sementes ainda são comida para psitacídeos.

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Sonhos e desilusões.

por Fernando Lopes, 21 Nov 17

Será que somos o resultado da soma dos nossos sonhos subtraídos das nossas desilusões? Uma operação aritmética como balanço de vida parece-me muito redutor. Sendo um ser que raramente se contenta, recuso-me a fazer estas contas. Provavelmente aprendi mais com as desilusões, mas o que me faz caminhar em frente são os objectivos alcançados. Venci e perdi número suficiente de combates para saber que o que mais importa é a garra com que se luta, a convicção na justeza da nossa causa. Venho a descobrir que, muitas vezes, dar é mais importante que receber. Quando damos – um carinho, ajuda financeira, uma boa palavra, pouco importa – viaja para o universo um bocadinho de nós. Faço diariamente um esforço para ser honrado, justo, digno, generoso. Não em nome de uma qualquer recompensa monetária ou divina, mas por pensar que é assim que deve ser. Estar consciente desta obrigação de dar o melhor de mim é o que me faz correr. Com a certeza de que raramente serei a pessoa que ambiciono, continuarei a tentar.

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    Tenho é que me manter nova:)~CC~

  • Fernando Lopes

    Isto era eu... :)

  • Anónimo

    Venha e será recebida de braços abertos. Vamos com...

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    Plantei uma árvore, tive uma filha e escrevi um li...

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