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Tenho um sobrinho novinho em folha.

por Fernando Lopes, 30 Dez 17

Quase nos 55 continuo a ficar surpreso e entusiasmado com o milagre da vida. Tenho um sobrinho «novinho em folha», estreou-se entre nós na passada 4ª feira. Quem me conhece sabe que sempre adorei bebés e crianças, de alguma forma lamento não ter tido mais filhos. Pego no pequenito ao colo e a sua fragilidade e em simultâneo o mundo que se lhe abre, deixam-me nas nuvens. Um bebé é como uma história por contar, por caminhos que são só seus escreverá um futuro que só a ele pertence. Não sei se a maioria dos homens são assim, mas sou aquele chato que brinca com os miúdos no restaurante, que faz caretas e palhaçadas, que os ensina a dar traques com as mãos. Penso que tenho jeito, acima de tudo adoro aquelas pessoas pequenas. Anseio pegar nele, brincar, fazer tonterias. Nada melhor que ter um futuro à espera de ser escrito ao colo.

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Pois...

por Fernando Lopes, 24 Dez 17

O amor é divino.

Marcel Proust
 

É a única forma de eternidade, o lado solar da natureza humana, aquilo que nos faz superar-nos todos os dias.

 

Um Natal cheio de amor.

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Um país dividido.

por Fernando Lopes, 17 Dez 17

camelo_lourenco.jpg Ainda e sempre o brihante texto de Luís M. Jorge


Nos idos de 75, era eu um infante de calças curtas, assisti a brigas imensas pour et à cause de opções políticas que então separavam pais e filhos, tios e parentes. Existiam dois caminhos claros, antagónicos, que separavam as águas. Hoje noto como nunca essa fractura ideológica, com os órfãos de PPC, das políticas austeritárias e de castigo, e os outros. Temos a madame Avillez, os Ramos e Hienas do Matos a vociferar contra tudo e qualquer coisa que o governo faça. É um direito que lhes assiste, respeito-o. Atribuem todos os méritos da actual situação às reformas estruturais – que foram vender tudo aos chineses ao preço da uva mijona, desvalorizar o trabalho, aumentar impostos, castigar os portugueses por comprarem um apartamento nos subúrbios e irem de férias a Benidorm. Esta ideia ancestral de que o povo só lá vai a chicote continua o orientar uma certa intelligentsia da nossa direita, sem que lhe entenda o porquê. O governo actual não passa de social-democrata com um perfume ocasional de medidas de esquerda. O PS como partido de poder continua a ter uma clientela faminta que tem de alimentar. PC e Bloco persistem em viver no seu pequeno mundo como se tudo não estivesse ligado e dependente dos «poderes imperialistas» da UE. Não é, nem de longe nem de perto, o que sonhei. É o possível, e quem olhar para o país sem preconceitos verá que, apesar de tudo, em contraste com montenegrina filosofia, «o país está melhor e as pessoas estão melhor». 

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Põe-te no teu lugar.

por Fernando Lopes, 15 Dez 17

 Dizes a verdade mesmo quando ela é inconveniente.

 

Não gostas de jogos de palavras, preferes chamar os bois pelos nomes.

 

Achas que lealdade é mais importante que obediência.

 

Não pensas que dinheiro ou status definam o que é essencial numa pessoa; a sua humanidade.

 

Continuas a desejar utopias.

 

Não te adaptas a situações «sociais».

 

Evitas mentir e até as mentiras piedosas te são custosas.

 

Estás permanentemente insatisfeito contigo e com os outros.

 

Tens grandes exaltações e enormes angústias.

 

Dizes palavrões, ris alto, piscas o olho com malandrice.

 

Adoras beber, rir, cantar.



 

Atenção: és um tipo excessivo, tens o coração perto da boca, melhor pores-te no teu lugar.

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Marvin Gaye.

por Fernando Lopes, 10 Dez 17

No restaurante onde almoço durante a semana – o das couves, Filipe – os empregados rodam com alguma frequência. Recordo com saudade o Luciano, um rapaz brasileiro, alto e magrinho, que era uma autêntica máquina. Fixava tudo, servia sempre com um sorriso, uma piada e uma rapidez alucinante. Acabava o turno completamente transpirado, tal o esforço de físico e de concentração que aquelas duas horas de gás a fundo implicavam. Havia também o Márcio, refilão encartado, mas sempre pronto para agradar e satisfazer os pedidos mais improváveis. Agora servem dois jovens brasileiros, a Lorrana, simplificado para Lô e o Higor, que quando me confessou que o seu nome se escrevia com H levou logo com a alcunha de Igor com H. A Lorrana está grávida, quando lhe perguntei o nome do bebé, disse-me que tinha escolhido Marvin.

 

- Fixe, como o Marvin Gaye, disse. Ela olho para mim, franziu o sobrolho e afastou-se. Passado uns minutos aproxima-se de mim e pergunta:

 

- Seu Fernando, já me tinham falado nisso do gay. Que é que é isso?

 

- Lô, não tem nada a ver com gay, é Gaye, com é, era um cantor americano muito conhecido, há uma música dele «Sexual Healing» que deve ter ouvido, foi muito popular nos anos 80.

 

 

Dúvida desfeita, mãe tranquilizada sobre o bullying ao seu futuro rebento.

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Comida para pássaros.

por Fernando Lopes, 22 Nov 17

Periquitos_xl.jpg

 

Virou moda comer sementes, vai daí somos bombardeados com os benefícios de tudo quanto é semente ou baga. Linhaça, aveia, girassol, ou com nomes mais exóticos como quinoa e goji. Os supermercados têm agora secções saudáveis cheias de painço. Ora tipos como eu só comiam tremoços e amendoins para acompanhar a cerveja. Havia também o arroz, semente de tradição milenar na alimentação humana. Agora comem-se quaisquer tipo de sementes. Dizem os nutricionistas para não ingerimos sementes à toa pois estas têm contra-indicações como flatulência ou oclusão intestinal. Mulherada e hipsters, cuidado, não me apetece levar com o vosso flato. Recordo-me de num vegetariano ter comido almôndegas de lentilhas com a triste consequência de ter largado mais ventosidades que uma vaca argentina. Tá tudo muito bem, mas para este velho do Restelo que vos escreve, sementes ainda são comida para psitacídeos.

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Sonhos e desilusões.

por Fernando Lopes, 21 Nov 17

Será que somos o resultado da soma dos nossos sonhos subtraídos das nossas desilusões? Uma operação aritmética como balanço de vida parece-me muito redutor. Sendo um ser que raramente se contenta, recuso-me a fazer estas contas. Provavelmente aprendi mais com as desilusões, mas o que me faz caminhar em frente são os objectivos alcançados. Venci e perdi número suficiente de combates para saber que o que mais importa é a garra com que se luta, a convicção na justeza da nossa causa. Venho a descobrir que, muitas vezes, dar é mais importante que receber. Quando damos – um carinho, ajuda financeira, uma boa palavra, pouco importa – viaja para o universo um bocadinho de nós. Faço diariamente um esforço para ser honrado, justo, digno, generoso. Não em nome de uma qualquer recompensa monetária ou divina, mas por pensar que é assim que deve ser. Estar consciente desta obrigação de dar o melhor de mim é o que me faz correr. Com a certeza de que raramente serei a pessoa que ambiciono, continuarei a tentar.

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Um macho só.

por Fernando Lopes, 20 Nov 17

gata2.jpgBranca Maria e seu negro dono.


A Branca Maria apareceu na loja da minha mulher (publicidade descarada http://lyskin.com). Andava por lá desde Agosto, desaparecendo de quando em vez para, suponho, sessões de galderice. Sou um homem de cães, nunca tive um gato na minha vida, mas quando a minha mulher me apareceu toda chorosa que a Branca tinha desaparecido, achei por bem adopta-la, tornado-a uma gata séria. Somos agora o lar de acolhimento da Branca. Compramos uma sanita fechada que corresponde a um banho completo, ração da boa, brinquedos e escovas. Na primeira noite miou como uma desalmada. Entendi que queria farra, gatos, copos. Nada disso minha menina, enquanto estiveres cá por casa comportas-te como uma gata de família, as noites loucas acabaram. Parece que se habitou. Sou o único macho da casa, até o estafermo do gato é gata. Tudo bem, também existem vantagens, sou o menino cá do sítio.

 

É uma experiência radical, e se a bichana não tivesse nome chamava-lhe «Fantasma» pois esconde-se nos locais mais improváveis, entre as prateleiras e os livros, debaixo da secretária, entre a cama e o edredão, sei lá eu. Anda este vosso amigo em bicos de pés e a olhar duas vezes onde coloca o rabo para não esmagar o seu animal de estimação.

 

Gatos, eu? Jamé. Nunca digas nunca, seu parvalhão.

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Preços que fazem sorrir a estranja.

por Fernando Lopes, 3 Nov 17

Depois de almoço, quando ia tomar um café e fumar um cigarro, deparei com o Pedro numa lufa-lufa. Uma série de forasteiros de um hotel das proximidades tinham resolvido pedir cappuccino. Sabemos bem que a preparação da bebida demora o seu tempo e não se coaduna com a pressa de quem tem de servir dezenas de cafés em poucos minutos. Tinha tempo, fiquei a vê-lo fazer a espuma naquela meia-de-leite aperaltada. Quando perguntaram o preço o Pedro respondeu: três euros. O homem sorriu, fez o gesto de não com a mão, e esticou indicador e o médio a justificar que eram dois. Sim, sim, dois, três euros. O homem abriu um sorriso como quem diz: 1,5 euros por um cappuccino é pouco mais que de borla. Conversamos depois um bocadinho e contou-me que é frequente a dúvida em todos os produtos de cafetaria. Perguntam-me sempre duas vezes se o croissant custa mesmo 80 cêntimos. Para alguém vindo da Europa do norte, o custo da nossa restauração e cafetaria deve ser perto de ridículo. Bem dizia o bife num outro dia ao balcão do «Rádio» depois de ter pedido uma cerveja: One euro? Are you sure?

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Cedofeita street, adoro-te

por Fernando Lopes, 31 Out 17

grafitti.jpgNo canto inferior esquerdo «Cedofeita Street, adoro-te»

 

Um miúdo alto e muito magrinho resolveu alterar ciclicamente duas enorme paredes de Cedofeita. A da foto é a parede lateral de um prédio, o muro da antiga esquadra também tem um grafitti diferente a cada dois ou três meses. Para ele, que como eu, ama Cedofeita, o meu abraço.

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