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Em síntese.

por Fernando Lopes, 29 Jan 18

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Há dias em que sobre mim paira uma nuvem cinzenta, carregada de chuva, raios e tormentas. Ontem foi um desses dias, em que o breu ofusca a luz. Valem-me amigos leais, almas carinhosas, que insistem em me empurrar para lá do óbvio, seja com palavras amigas ou com inconformismo exclusivo de almas generosas. Soindes quem me baleis, como se diz por aqui.

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Um cinquentão atípico.

por Fernando Lopes, 21 Jan 18

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Muitos dos tipos da minha idade ambicionam poder ter um Porsche, como se a potência debaixo do pé compensasse a que começa a dar sinais de fraqueza «entre pernas». A verdade é que 54 são 54, as maratonas sexuais são coisa do passado, «cumprir» os deveres conjugais sem grande embaraço já não é mau, vamos olhando para o Viagra como uma solução de curto-médio prazo, e não algo que nos fazia sorrir como há dez anos. É a puta da vida.

 

Este vosso humilde escriba anda apaixonado por um MINI. Já aqui escrevi que na infância o pai Tinha um Mini Cooper, que nos inícios dos anos 70 nos levava ao Algarve em intermináveis viagens, malas em cima do tejadilho.

 

Agora, não sei por nostalgia, gostava de abandonar a barcaça de quase seis metros que conduzo por algo mais maneirinho, prático, e que me reavivasse essas boas recordações de um tempo em que tudo era possível. Será que sou estranho? Os meus sonhos materiais nunca foram os típicos – nunca ambicionei uma casa com piscina, um BMW na garagem e um camarote no Dragão. Agora, se e quando puder, vou comprar um MINI.

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O assédio invisível.

por Fernando Lopes, 15 Jan 18

 

Todo o ruído criado à volta de hollywodesco assédio diz-me pouco. Não que o não condene, mas inspira-me pouca preocupação que starlettes venham bradar aos quatro ventos que foram assediadas. A maioria delas seriam adultas, capazes de se defender e de dizer não. Estava em Cedofeita, esplanada do costumes. Uma jovem com pouca mais de 20 anos contava à avó como uma colega sua, ainda menor, tinha recebido uma proposta financeira para ir para a cama com um homem mais velho, não sei se patrão ou cliente de algum estabelecimento onde a jovem trabalhava. Percebia-se pelas roupas e jeito de falar que eram gente de origem humilde. Havia ali um sentido de inevitabilidade, como se ser jovem, bonita, e precisar do emprego a(s) levasse a aceitar aquilo. Que o assédio vem quase sempre de quem tem ascendente sobre o outro é normal, anormal é que miúdas que precisam de trabalhar, pensem com fatalismo, que serem assediadas é algo a que se não pode fugir, para não perder o trabalho. Essas jovens, com pouca maturidade e muita necessidade, raramente se queixam. Fico a pensar que também esta história do assédio é muitas vezes uma questão de classe social. Era assim nas fábricas, é agora, nesta era pós-industrial, nas boutiques e cafés da moda. Assedia quem pode, cala quem necessita.

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Shitbrain.

por Fernando Lopes, 12 Jan 18

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Os Estados Unidos são um país historicamente recente, quase imberbe se comparado com os padrões europeus. Convivi diariamente com americanos durante uma década, não os acho genericamente estúpidos. A impressão que me ficou – e vale o que vale – é que são ingénuos, infantis, e um bocado ignorantes. Como qualidades, são extremamente capazes socialmente, simpáticos, e muito bons nas áreas em que se especializam. Saindo da sua área de estudos e trabalho para o que chamamos interesses e cultura geral, o panorama que se me deparava era o de um deserto. Uma impressão individual que mais não é que isso mesmo – uma impressão. O americano médio é criado na ideia que que pouco mais existe para além dos Estados Unidos, que a Europa é uma espécie de museu vivo, e que os países em vias de desenvolvimento ou subdesenvolvidos são mesmo shitholes.

 

Trump é suficientemente estúpido para escrever publicamente o que o americano médio diz à boca pequena. Provou ao que vinha quando em plena campanha eleitoral enfatizou a ideia de criar um muro com o México. A América de Trump é branca, supremacista, racista e intolerante. Mas a América de Trump é a de muitos milhões de americanos, não só de rednecks e Tea Party, um princípio etnocentrico atravessa muitas daquelas almas.

 

Contrariando a anteriormente generosa política de acolhimento, a tendência para julgar inferior, expulsar, atribuir aos estrangeiros os males dos EUA, é cada vez mais frequente. Existe a séria hipótese de 800 mil seres humanos criados desde a infância nos EUA, que serviram o exército dos EUA, que mais não recordam que o país que os acolheu, serem expulsos porque nasceram em shitholes.

 

Aquando da eleição de Trump, em conversa privada, o jornalista Ricardo Alexandre, que me dá o privilégio de ser meu amigo, salientava que o que mais o assustava era a insensibilidade de Trump, ele que tinha feito a cobertura das eleições americanas. Palavras a que na altura não atribui a importância devida e hoje se revelam quase proféticas.

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