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Sem deus nem mestre.

por Fernando Lopes, 31 Ago 17

Cinquenta e quatro anos feitos, quando me perguntam o que em mim mudou tenho de admitir que nada de essencial. Talvez tenha o coiro mais curtido, um pouco menos de impulsividade, maior capacidade em admitir que errei e pedir as respectivas desculpas. Continuo dominado por uma ética restritiva e uma certa inocência. Inocente no sentido de intocado, como uma gota de água que cai numa poça. Gera-se momentaneamente movimento, círculos concêntricos, mas logo tudo volta ao que era. Existe em mim uma profunda aversão a fazer o que é errado, a maltratar os outros, a enganar alguém mesmo que isso me traga proveito evidente. Não é auto-elogio, apenas a constatação de que uma educação rigorosa em termos morais me transformou em prisioneiro desse labirinto. Talvez por isso nada me faça feliz. Faço simplesmente o que tem de ser feito, e o facto é apenas uma nota de rodapé na minha estória. Será talvez essa a razão porque nunca roubei, tão-pouco traí. Sem deus nem mestre, vergam-se-me as costas sobre esta cruz moral que me puseram na infância, que não poucas vezes se me parece mais albarda que crucifixo.

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Desculpe o Huawei (*) ou «Fare il portoghese»

por Fernando Lopes, 29 Ago 17

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Políticos e altos dirigentes públicos viajaram a expensas de uma multinacional chinesa. Afinal, quem de nós não gostaria de visitar a velha China sem gastar um tostão? O caso demonstra a ingenuidade, melhor dizendo, a estupidez, destes senhores.

 

Os «nossos melhores» são tão, mas tão fraquinhos, que basta levá-los à bola a França ou num passeio mais longínquo para se esquecerem que desempenham funções de representação da nação portuguesa. Tal passa-se porque somos um país de pobrezinhos, os nossos dirigentes e quadros ganham mal – como aliás todos os portugueses, e qualquer presente faz perder a gravitas associada ao estado.

 

Há também uma questão cultural e histórica, os portugueses pelam-se por uma pechincha ou borla. Este atavismo tem séculos. Em Itália os que entram à borla em qualquer sítio são portoghese. Reza a lenda que em 1514 o Papa deu uma espécie de livre trânsito não pagante aos portugueses e todos, incluindo os romanos, declaravam «io sono portoghese».

 

Estes senhores cumprem apenas uma velha tradição nacional, aproveitar as borlas. Claro que a Huawei faz isto com o objectivo de impressionar pessoas que podem influenciar decisões, mas não é culpa deles que existam quadros portugueses e até um deputado que arrisque(m) a sua já fraca credibilidade por uma passeata grátis. É pouco, muito pouco, mas o velho regime, que conhecia esta portugalidade rural, saloia, e chico-esperta como ninguém, não mandou edificar o «Portugal dos Pequenitos» à toa. É todo um modo de ser.

 

(*) De uma música velha da Rita Lee.

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Aventurar-se a amar.

por Fernando Lopes, 28 Ago 17

Noto imensas mulheres e homens solitários. Construiram uma carreira, uma vida, mas não têm com quem a partilhar. Baseado unicamente na minha observação diria que em muitos casos o foco no sucesso académico e profissional transforma essas pessoas em gente que se sublima pelo trabalho esquecendo que a vida tem muito mais que isso. Para mim sucesso é ser amado, ser pai, pessoa. Quem me adiantaria ser um profissional de elite se ninguém me amasse? Fechados neste seu labirinto, esta imensa multidão de gente só, tende a ter medo da rejeição, a não ser tolerante com o outro, a quedar-se pelo seu pequeno mundo. Tenho amigos e amigas assim, à espera de um príncipe ou princesa perfeitos que não chegarão nunca, que não arriscam apaixonar-se, não estão prontos a ceder, a ser tolerantes, a aceitar que esse conceito infantil da pessoa bela, inteligente, sexy, sensível, toda ela só qualidades, mais não é que um sonho pueril. Escrevo isto com a experiência de uma partilha de vida longa de vinte e quatro anos. Nunca nada foi exactamente como idealizei. Existiram zangas, dúvidas, desentendimentos profundos. Ainda hoje subsistem, mas já sabemos que não existem relações ideais, apenas pessoas que através de um longo processo de adaptação, sucessos e fracassos, altos e baixos, superam as dificuldades através da vontade e do amor. Não estar disposto a arriscar, não ser capaz de abrir o coração, de exibir despudoradamente as suas fragilidades, agarrar-se a uma quimera, é uma espécie de morte em vida. Aventurar-se a amar, tropeçar, cair, voltar a levantar-se, e tentar de novo com o mesmo entusiasmo, é a essência da vida. Pobres dos que ficam sentados, tristes e impotentes, à espera de algo que não virá nunca, tão-somente porque não existe.

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Ignorando um mundo perfeito.

por Fernando Lopes, 27 Ago 17

Publicidade, media, comunicação, impingem-nos constantemente um mundo perfeito, de imagens perfeitas, casas perfeitas, pessoas perfeitas, comidas perfeitas, como se a perfeição não fosse apenas a excepcionalidade que define o comum. Essas imagens de laboratório, de gente bonita, perfeita, não existiam à minha volta. Sentei-me na areia, observando quem passava. Vi miúdos gorduchos a rebolarem felizes na areia, pais ventrudos, carecas, sorridentes. Mães com celulite, rabos enormes, que quando se sentavam a construir castelos na areia faziam regueifas na barriga. Casais de idade que caminhavam lado a lado. Eles com os calções demasiado subidos, a tapar o umbigo, as senhoras com fatos de banho comprados nos anos 80. Gente normal, imperfeita. Ri-me deles, de mim, e com esse riso fiquei estranhamente apaziguado. Era apenas um tipo normal entre gente normal.

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O estertor de Passos.

por Fernando Lopes, 16 Ago 17

As acusações de golpismo por parte da direita aquando da formação da «geringonça» sempre foram risíveis, pois é do conhecimento público que a ascensão de Passos ao poder foi ela mesmo produto de um golpe, tirando o tapete a Sócrates quando este tinha um acordo tácito com Merkel para o PEC IV. A chanceler alemã não queria mais um país sob resgate, e muito por mão de Passos e seus algozes este foi antecipado ou provocado. Sobre golpes e golpistas acho que estamos conversados.



Durante quatro anos vivemos com o mambo jambo que era preciso primeiro empobrecer, que os portugueses viviam acima das suas possibilidades, era indispensável baixar os custos do trabalho para sermos competitivos. Pelo meio, mandou-se uma geração inteira emigrar, as luminárias do regime debitavam textos na imprensa económica – agora falida – sobre a purificação pelo empobrecimento. Provou-se que estava tudo errado, como o próprio frontman dessa narrativa – Vítor Gaspar – veio já admitir.



Passos, que nada sabe de história, ficou preso nesse labirinto. Neste momento, com uma derrota garantida nas autárquicas de que apenas é desconhecida a extensão, seria de esperar que o líder do PSD enterrasse o machado falho do liberalismo e voltasse a uma certa ideologia conservadora de pendor social que sempre foi a matriz do PSD. Desengane-mo-nos, pois. No Pontal, Passos cola-se à extrema-direita, associando à demagogia feita com os incêndios uma pitada de xenofobia. Transforma o PSD num wannabe de Tea Party.



Confesso que me dá um certo gozo ver este desespero passista não fosse o medo de ver um partido conservador democrata transformado num excremento da sua própria ideologia. Desejo ardentemente que a deriva populista deste PSD não seja mais que um mau momento, uma nota de rodapé na história do partido, pois uma democracia não se faz sem um partido conservador forte, interventivo, respeitado.



P.S. - O Purgatório vai a banhos, regressando no início de Setembro. A todos um abraço e o desejo de um bom descanso, se possível.

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Lanche à moda dos Lopes.

por Fernando Lopes, 14 Ago 17

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rapioqueira_junior.jpgPai, não quero ser fotografada a comer iscas.

 

A minha filha é como eu, rapioqueira, sempre pronta para uma festa. Uma das celebrações populares que vai sobrevivendo dentro da cidade é N. Sra. da Saúde, a festa de Arca D'Água. Desloca-mo-nos com um objectivo estratégico: pão com chouriço. Acabei a lanchar caldo verde e pataniscas. Enquanto ela andar cá por casa tenho companhia garantida para petiscos, matrecos, carrinhos de choque e bailarico.

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Sentir-me bem só por me sentir mal.

por Fernando Lopes, 13 Ago 17

Olho ao meu redor e invejo-os, a eles, às suas vidas normais, às suas mulheres anafadas, aos filhos com ar de parvo, corte de cabelo estranho e Playstation na mão. Invejo-lhes o BMW em segunda mão, as férias em Quarteira, o polo aperreado a salientar a pança. Queria que a minha única preocupação fosse a derrota do Porto, aceitar tudo, não questionar nada, não ter angústia, desconforto, insatisfação permanente. Depois olho para as minhas mãos, permanentemente transpiradas. Assim desde sempre. Entendo que esse estado estranho de aflição é a minha natureza. Sorrio, porque sei que sentir-me mal é o meu modo de me sentir bem.

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As iludências aparudem.

por Fernando Lopes, 8 Ago 17

Estava com um amigo a conversar sobre a vida, o amor, as mulheres – nós homens, falamos tanto de mulheres como as mulheres de homens. Trocavam-se ideias sobre frustrações e sucessos, amores e desamores.


- Oh pá, há já 25 anos que vejo sempre o mesmo pipi.

 

O companheiro soltou uma sonora gargalhada. Constatou que pelo meu ar descontraído e desbocado tinha a ideia que seria um conquistador ocasional. Nada mais falso, é-me intrínseco ser caninamente fiel. Fiquei a pensar quantas pessoas me julgariam assim. A minha natureza informal é inversamente proporcional ao jeito e vontade para relações ocasionais.

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O Facebook como prova de vida.

por Fernando Lopes, 6 Ago 17

Não ligo nada para o facebook. Como qualquer fenómeno global, traz apenso uma enorme camada de pessoas desinteressantes e os seus pensamentos vazios, repetidos por outros seres igualmente desinteressantes até à náusea. Os que utilizam este rede de forma intensiva acham que nada mais existe. Já me convidaram para festas através do facebook – tãoooo estranho e despersonalizado –, já questionei se tinham chegado bem da viagem e recebi como resposta : «não viste no facebook?». Por acaso não, até tenho mais que fazer. Basicamente ignoro a coisa, não merece que se gaste cera com tão ruim defunto. Outro princípio é que aceito amizade de toda a gente. Custa apenas um clique fazer de conta que alguém tem importância para nós. Há um rapaz que conheço pessoalmente de quem tive de desligar as notificações, pois o marmanjo fazia check-in em tudo quanto era sítio. Manuel está a tomar um copo em Leça, está nos Passadiços do Paiva, na Piazza del Popolo em Roma, enfim, só não recebi notificações de que estava na casa de banho. Tudo acompanhado de bonitas fotografias. Não conheço bem a sua história, acho que a mulher lhe pôs os patins, a namorada fez o mesmo. Anda o pobre, quase cinquenta anos de vida, igualzinho às putas que chamavam clientes à porta de pensões de alta rotação. Uma tristeza profunda, ali à vista de toda a gente.

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Nós é que somos o sexo fraco.

por Fernando Lopes, 3 Ago 17

masculinismo.jpg

 

Perdoar-me-ão as minhas queridas leitoras, mas este é um momento de algum machismo. Não o sendo, perpassa pelos meus olhos passa uma visão masculina do mundo. Sendo alguma coisa – que não sou – enquadar-me-ia no «masculinismo». Tenham paciência, mas não posso deixar de defender a mundividência no masculino. As senhoras são mais espertas que nós, têm habilitações superiores, orgasmos múltiplos, capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo, geram humanos e humanidade nas vossas barrigas. Nós é que somos o sexo fraco. Não fossem tão competitivas entre vós já dominariam o mundo há séculos. Tenho para mim que a maioria das mulheres prefere não aparecer, governando por entreposta pessoa. Gosto muito do meu género, mas entendo bem os transexuais que passam do masculino para o feminino. Há ganhos óbvios. Já o contrário parece-me má transacção. Surge isto a propósito de trabalho. Uma mulher – principalmente as solteiras, que abdicaram de uma vida e das responsabilidades familiares – são feras, conseguem trabalhar mais e melhor durante mais tempo. Pelo que observo as casadas dispersam-se mais, os filhos e os cretinos dos maridos consomem-lhes muitos recursos. Se fosse empreendedor contratava preferencialmente mulheres, solteiras se possível. Antes que comece o apedrejamento digo já que as minhas amigas casadas são igualmente competentes. Algumas delas são académicas reconhecidas, outras comandam departamentos, têm negócios, eu sei lá. Livres dos emplastros masculinos, o céu seria o limite.

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