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Luz.

por Fernando Lopes, 27 Fev 17

cao.JPG O meu amigo a pedir a benção. 

Saberá a freguesia mais regular e atenta que, de quando em vez, refugio-me na minha casa da aldeia. O meio tem as suas idiossincrasias, como o facto de o alcoolismo ainda ser considerado «normal», ou coexistirem cerimónias ancestrais como a desmancha do porco ao som de música pimba vinda de uma coluna bluetooth. De minha casa ao café do Cunha, o único restaurante e centro de convívio, serão mais de mil metros a subir e descer.

 

Tomo o pequeno-almoço e logo à saída de casa me convidam para uma febra e um copo de vinho. Abdico da febra e como um naco de broa e um copo de verde branco. Na terra, quando o vinho é para consumo próprio ninguém lhe junta sulfitos, o que faz com que o vinho branco em contacto com o ar rapidamente oxide, e ganhe uma cor escura. Dez minutos de conversa sobre as agruras da cidade, como fugir das patroas, figuras que inspiram temores profundos e parecem ter sido criadas para nos atazanar a cabeça. Nisso, a cidade e o campo são mais semelhantes que o que se pensa.

 

No percurso, travei-me de amizades com um cãozito arruivado e a dona. Viúva, sexagenária e sozinha, aproveita a oportunidade para por a conversa em dia. O raio do cão, ainda mais carente de mimos que eu, sente-me o cheiro a mais de duzentos metros e desata a ladrar com entusiasmo.

 

Não sei porquê, mas a escassa iluminação pública é desligada à meia-noite. Como vou ter a eternidade para ficar no escuro, ligo um trio de lâmpadas de baixo consumo que transformam a casa no único local iluminado num raio de quilómetros.

 

- Já sabia que estava cá, o sr. deixa sempre as luzes ligadas.

 

- São lâmpadas que gastam pouco, e como acordo a meio da noite para fumar um cigarrito, gosto de ter luz, justifico-me.

 

As nossas casas distarão quatrocentos metros em linha recta, e, por estranho que pareça, a sra. pareceu sentir-se reconfortada por ver alguma luz no escuro da noite. Coisas aparentemente sem valor como deixar luzes de presença acesas, pode de estranho modo, dar a alguém a sensação de que está menos só.

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Olhos & Olhares.

por Fernando Lopes, 14 Fev 17

Quando falam comigo sobre algo sério ou pessoal, tendo a concentrar-me no interlocutor e no que me é dito. A forma como o faço, é, aparentemente, incómoda para muitos. Quando mais concentração a coisa exige, mais fixo os olhos do outro. Já se calaram de repente, afastaram-se incomodados, perguntaram-me se estava a tentar hipnotizá-los. Não vejo desconforto nisso, não me importo que me olhem nos olhos, nem entendo muito bem o factor que causa tal reacção. Para não ser deselegante, habituei-me a vaguear com os olhos. Hoje, quando me contavam algo de pessoal, aconteceu de novo. Acharão que lhes consigo ver a alma?

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Passado resolvido.

por Fernando Lopes, 9 Fev 17

 

Quatro homens a falar de mulheres, eu mais a ouvir que a participar. Para maduros já todos há muito passados dos quarenta, há muito ressentimento no ar. Um porque a mulher o deixou, outro porque foi traído – embora o não diga todos o sabemos, outro ainda porque vive com a mulher que o quis, não a que ele queria. As gajas isto e aquilo, o azedume escorre, dor e frustração de par em par. Aquele não é certamente o meu filme, conservo memórias doces de todas as relações intensas que tive. Com uma namorei mais de um ano, outra nove, a minha mulher atura-me há quase vinte e quatro. Se tivesse de fazer um balanço, se isso fosse importante, só poderia dizer bem das «mulheres da minha vida». Amaram-me, amei-as o melhor que pude e fui capaz, fizeram de mim este tipo sem amarguras afectivas, quase tudo memórias arquivadas na pasta «ternura». Penso como deve ser triste, já entradote, conservar ressentimento, pensar que não gostavam verdadeiramente de nós, estar constantemente assaltado pelo medo e dúvida. Pode-se pensar que tive sorte, mas nisto dos amores, tens tanta sorte quanto és capaz de dar, no momento certo, à pessoa certa.

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Herança.

por Fernando Lopes, 8 Fev 17

 

– Talvez seja o nosso estado natural – disse Falcón. – Sermos originados por seres humanos complicados que não é possível conhecer. Somos sempre os portadores do não-resolvido, que depois acrescentamos com as nossas próprias questões irresolúveis, e que, por nosso turno, passamos à descendência.

 

Robert Wilson in «O Cego De Sevilha»

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Linguagem gestual? Nã, é só musical.ly.

por Fernando Lopes, 6 Fev 17

Quem tiver uma filha a esgadanhar a adolescência, provavelmente já se questionou se a miúda anda a aprender linguagem  língua gestual. Ah que bonito, a cria a respeitar a diferença, etc e tal. Nada disso. Aquela coisa que a tua filha e as amigas andam a fazer com as mãos, a cantarolar e fazer boquinhas, é, por assim dizer, uma espécie de «dobragem» com uma app chamada musical.ly. As crianças e pré-adolescentes usam-na para exibrir dotes coreográficos e de dobragem de voz. Se vires a tua filha a fazer momices como as aqui em cima, não dês demasiada importância, a criança não ficou maluca nem foi acometida por um sentimento solidário para com os surdos. É só musical.ly.

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O facebook é só para gente feliz.

por Fernando Lopes, 4 Fev 17

Sou de poucas publicações no facebook, não gosto de gente que, apatetadamente, está sempre feliz. Muitos de nós – para não dizer todos – levamos grandes chapadas da vida, mas essas nunca aparecem nesta rede social. Ora eu não gosto nada de faz-de-conta, de vender ou me iludir com algo que não existe. Já mais que uma vez fui chamado à atenção – curiosamente, apenas por raparigas – para não lhes perguntar como ia a vida nesta rede social. Uma em burnout, a trabalhar doze horas por dia, disse-me que o facebook não é para nada sério. Outra, com problemas pessoais e profissionais, quis desabafar através do messenger. Para o resto do mundo estava tudo bem. Não quero fazer parte de uma rede onde as pessoas não são mais que reflexo único da sua complexidade. Onde angústias e problemas são proibidos. Já entendi, e desculpem. Não temos problemas, nunca nos zangamos, estamos cheios de massa, somos lindos até quando acordamos. Que se foda o facebook.

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A nobre arte de ignorar.

por Fernando Lopes, 2 Fev 17

É sabido, este mundo está cheio de gente e situações pouco recomendáveis. Tens duas soluções: ou te transformas numa pessoa irascível e andas à chapada com meio mundo, ou ignoras. Alguém te ultrapassa pela direita e vira bruscamente para a esquerda obrigando-te a travar a fundo? Seria normal chamares nomes à mãe do senhor e buzinar a toda a força, certo? Ignora. O Costa lá da repartição é um filho da puta e tenta fazer-te a vida negra? Ignora. O teu companheiro(a) chegou a casa danado(a) e desatou a barafustar contigo? Em vez de partir para um mano a mano, ignora pá, ignora. O gajo do café está a dizer barbaridades sobre política internacional, e quase te apetece partir-lhe a cara? Ignora. Os factos, as pessoas, só têm a importância que lhes quiseres dar, se os ignorares não passarão de um breve e insignificante incómodo. Disse.

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Um armário cheio de coisas extraordinárias.

por Fernando Lopes, 1 Fev 17

Lá fora anunciam tempestade, pelas persianas o vento faz notar a sua intensidade uivando como só ele sabe. Escolhi um livro, e, na introdução, dou com a frase de Degas: «A arte é um vício. Não se desposa legitimamente, viola-se.». Penso como adaptaria o pensamento não à arte, mas à vida em geral. Viver, viver mesmo, é um vício. Sinto grandes angústias por minudências, choro com ridicularias, tenho fúrias com – e por causa – de gente que as não merece, vivo num permanente desconforto que é a essência da vida. Fiz tudo e nada fiz. Amei, revoltei-me, ensandeci, trabalhei, sonhei, bebi, tive medo, fugi, pensei. Mentiria se dissesse que faria tudo da mesma forma. Não. Fiz erros de que me arrependo, fui nobre algumas vezes, mesquinho outras tantas. Aprendi. Vivi. A minha vida é um armário cheio de coisas extraordinárias, pessoas extraordinárias, momentos extraordinários. Um armário infinito, onde espero continuar a armazenar tudo o que aprendi com ela. Com essa mesmo, a vida.

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