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E se o teu blogue mudasse a vida de alguém?

por Fernando Lopes, 30 Dez 16

urgência.jpgPalavras de parede, nos Mártires da Liberdade

 

Acho que ninguém decide escrever, fá-lo porque é a forma em que se sente mais confortável a comunicar. Este vosso escriba não tem mais objectivo que o de transmitir sentimentos, ideias, ao outro que está desse lado, como se de uma infantil conversa com um amigo imaginário se tratasse. As consequências das palavras, o modo como tocam quem as lê, já não é algo que consiga controlar. Há quase dois anos, conhecei um tipo artístico e tímido com quem tinha estabelecido empatia, através desta coisa dos blogues. Tornámo-nos amigos, tentei acompanhá-lo, aconselhá-lo, o melhor que podia e sabia, num momento difícil desta coisa transitória a que chamamos vida.

 

Também pela estranha magia da palavra escrita, conheceu uma rapariga por quem se apaixonou. E a rapariga por ele. E tudo começou aqui no blogue. Involuntariamente, apadrinhei uma relação amorosa que me enche o coração de ternura. Quando fala dela sorri com o seu jeito infantil, um menino que reencontrou o melhor que o mundo tem para dar: amor.

 

Estive com ela apenas uma horas. É gira, viva, inteligente, decidida. A delicadeza dele é complementada pelo sentido prático e arrojo dela. Fazem um par de amantes e compinchas plenos de cumplicidade.

 

Só por estes momentos de felicidade que esses dois seres humanos tão especiais estão a viver, já valeu a pena andar estes anos todos a mandar palavras ao vento. Disse. 

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PlayGirl.

por Fernando Lopes, 29 Dez 16

Passas por mim, pernas magras e longas, longo cabelo cor de fogo, olhos índigo, e sorris. Sei que a sedução é o teu jogo, algo que fazes inconscientemente. Não brinques com corações velhos, marcados por cicatrizes, que doem e choram, e só às vezes brilham. Lança o teu feitiço a quem a ele possa sobreviver, para quem sejas apenas mais uma estória, acaso feliz.  Vai playgirl, bela, jovem, e vê o que os meus olhos te falam: a sedução é um jogo onde sempre alguém perde, tem cuidado em não destroçar quem é ainda mais frágil que este que te olha e retribui o sorriso, para quem não passas apenas de uma beleza que oprime, e ao mesmo tempo, enternece.

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Uma puta como as outras.

por Fernando Lopes, 28 Dez 16

musico_cedofeita.jpg O homem, a guitarra, a liberdade. Ainda e sempre em Cedofeita.

 

Sais de casa no eu primeiro dia de férias de ano novo. No cruzamento de Oliveira Monteiro com Nossa Senhora de Fátima, na esplanada da velha confeitaria, um homem toca clarinete para ninguém, só pelo prazer de tocar. Em Cedofeita páras para conversar com outro músico de rua já teu velho conhecido. Na rua da Fábrica um asiático tira sons melodiosos de uma espécie de xilofone. Invejas-lhes a liberdade. Depois reflectes e vês como te tornaste prisioneiro do teu modo de vida: salário confortável, apartamento em zona nobre da cidade, casa de campo, férias em destinos «exóticos», popó de quase 200 cavalos. Não escolheste este ou outro caminho, o destino simplesmente empurrou-te. És uma puta, uma puta como as outras, talvez mais venal. Essas só transaccionam o corpo, tu, meu merdas, vendes diariamente a tua liberdade. Consolas-te com o fraco pensamento que a tua cabeça é inexpugnável, nela reside o teu espaço último de independência.

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Xmas Card From A Hooker In Minneapolis

por Fernando Lopes, 24 Dez 16

 

 

 

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Compreender a dinâmica da coisa.

por Fernando Lopes, 22 Dez 16

Estou ao balcão da confeitaria onde tomo o pequeno-almoço. Entre e sai gente apressada, comendo uma bucha antes de ir trabalhar. A patroa sai da caixa – gosto especialmente dos patrões que raramente saem da caixa – e dirige-se a uma rapariga brasileira que está a lavar louça do pequeno-almoço:

 

- Tens de ir às mesas, olhar para quem chega, compreender a dinâmica da coisa.

 

Sorrio para com os meus botões, o mundo do trabalho é igual em todo o lado. Antigamente bastava que entendesses a fundo do que fazias e o fizesses bem. Hoje é preciso que, complementarmente, dances conforme a música que toca, se possível com um sorriso. Na novilíngua chama-se «compreender a dinâmica da coisa».

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Postais há muitos!

por Fernando Lopes, 21 Dez 16

arauto.jpg

 

Queria dar-vos um postal de Natal. Procurei na net, certamente haverá melhores, mas este foi pensado para vocês que me lêem, que fazem o favor de ser meus amigos. É apenas um soldadinho-arauto que está ali para os lados da Boavista. Anuncia o meu desejo simples, de um Natal e Ano Novo em que os vossos sonhos, quiméricos que sejam, se realizem.

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E o seu bebé? Está bem?

por Fernando Lopes, 20 Dez 16

Raramente vou a pé para o trabalho, sou o Uber cá de casa. Levo a filha à escola, vou buscar, todos os dias. Agora que está de férias na companhia materna, aproveito para fazer o percurso a calcantes, não mais de 15 minutos. Animal de hábitos, passo pela confeitaria a tomar pequeno-almoço. Agora frequento poucas vezes, desde que a cria deixou o infantário e entrou de cabeça no mundo dos estudos a sério. Recordava-me de uma funcionária grávida.

 

- Então o seu bebé, como está?

 

- Vai para a escola primária em Setembro.

 

Não sei o tempo voa ou se estou a ficar senil, mas poderia jurar que não tinham passado mais de um, dois anos, desde que a vi grávida.

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Monstros debaixo da minha cama.

por Fernando Lopes, 19 Dez 16

Muitas vezes, muitas noites, tenho monstros debaixo da minha cama. Não como os das histórias infantis, assombrações apenas minhas, que só a mim atormentam. Pensamentos perdidos, projectos que não deram certo, vitórias, fracassos, humilhações, medos. Nem sempre se manifestam, as mais das vezes permanecem silenciosos, quietinhos, a fazer de conta que não existem. Não me assombram quando a noite está escura, aproveitam-se da minha insónia, dos meus temores, e atacam. Faço-me de forte, tento ignorá-los fazendo de conta que ali não estão, mas não desistem. Passei a noite a tenter enxotá-los. Inútil, continuaram a atacar, a servir-me memórias que pensava esquecidas, angústias velhas, velhas. E tu? Também tens monstros debaixo da cama?

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O direito a não gostar de alguém.

por Fernando Lopes, 17 Dez 16

Sou um homem de pessoas, quem me conhece sabe que rapidamente estabeleço empatias, cumplicidades, sem que isso signifique algum interesse esconso. É o meu jeito. Num mundo em que os afectos são tão efémeros quanto os interesses, convencionou-se que temos de gostar todos de todos, como se o planeta fosse uma infindável fraternidade. Não é. Tem mais traição, ódio, intriga, que lealdade, amor, frontalidade. Na escola, no trabalho, nas relações sociais não afectivas – e daqui excluo esse meu porto de abrigo que é a amizade – todos esperam que gostemos de todos. Perdoem-me, mas existe gente de que gosto de não gostar. Em alguns casos tenho boas razões para isso.

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Pôr açúcar em tudo.

por Fernando Lopes, 15 Dez 16

Qualquer celebração em Portugal tem forçosamente de incluir comida. O Natal não é excepção. A avó era modista dos Riba D’Ave, uma família nobre que habitava o local mais chique desta cidade, a Marechal Gomes da Costa. Era gente de respeito, dinheiro velho, tratavam-nos com cortesia. Apenas 4 ou 5 anos, pela mão da já então velha senhora, abriam-se-me as portas não da vida dos remediados de classe-média a que estava habituado, mas das pinturas dos familiares em pose, candelabros do melhor cristal, enormes espelhos rodeados de uma espécie de talha dourada, salões, criadas de quarto e de sala rigorosamente fardadas. Entrar ali, tão tenra idade, era o equivalente a uma viagem a um planeta brilhante e desconhecido.

 

Uma vez, ainda antes de entrar para a primária, pediram-nos para esperar numa sala lateral à grande sala de jantar, a que então chamavam saleta. Era onde eram recebidos os assim-assim a que pertencíamos, não por onde entravam serviçais e criadagem, nem os ilustres visitantes de tão nobre família. Uma espécie de purgatório, mas em sala.

 

A sra. que tinha um título nobiliárquico qualquer pediu-nos para aguardar um pouco, era época de Natal e estava a supervisionar a feitura dos doces. Chegou-se-nos com uma frase que nunca esqueci:

 

- Desculpem, estava a dar umas ordens na cozinha. Pelo menos o Natal dos pobres é simples, basta pôr açúcar em tudo. Fritam pão e açúcar; rabanadas, farinha com açúcar são sonhos, canela no arroz e está feito o arroz-doce, faz-se massa com açúcar e chama-se-lhe aletria.

 

Verdade que nesta época muita da nossa doçaria tradicional de cariz mais popular mais não é que pegar em alimentos convencionais e adoçá-los. É uma herança de país pobre que fomos, somos, e a que atavicamente continuamos agarrados.

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  • Fernando Lopes

    E dizemos isto como se tentar ser boa pessoa fosse...

  • pimentaeouro

    Assino por baixo.

  • Fernando Lopes

    É a nossa obrigação, Inês. Impensável ter um anima...

  • Inês

    E o contente que eu fico por saber que há mais um ...

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