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Bem-Feita.

por Fernando Lopes, 29 Nov 16

Sou pai, adoro sê-lo, a minha cria é uma espécie de farol que me ilumina sempre, mesmo quando o nevoeiro tudo torna difuso. Tenho apenas um irmão, e este lidar com o desenvolvimento no feminino é novo para mim. Começa a miúda a esgadanhar a adolescência, eu a transformar-me num pai preocupado. Consigo lidar com isso. Tal não me impede de recordar deliciosas estórias de infância de uma ingenuidade que, lentamente, desparecerá.

 

Quando andava no infantário a Matilde era muito amiga do Afonso, mas pegavam-se por tudo e por nada. Uma espécie de cão e gato, que primeiro se chateavam para logo a seguir fazerem as pazes.

 

- Pai, tropecei, caí e chorei.

 

- Não faz mal.

 

- Faz, faz, o Afonso riu-se e chamou-me bem-feita. Eu não quero ser bem-feita.

 

- Isso dizes agora, estou certo que daqui a uns anos mudarás de opinião.

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Yellow.

por Fernando Lopes, 29 Nov 16

And it was all yellow


A praga amarela terminou. Obrigado ao Pedro e à Treza

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Cuidado com os homens com quem dormes.

por Fernando Lopes, 28 Nov 16

Não sendo praticante, nada tenho contra sexo ocasional. O que passa, é que é necessário muito cuidado com o feliz seleccionado(a) para essas ocasiões. Não queria dizer isto, em primeiro lugar por ser uma generalização, em segundo por questões de género, mas os homens são uns grandes linguarudos no que às suas conquistas diz respeito. Vai daí uma moça precisa de duplos cuidados quando se deita com gajos sem tento na língua. As actividades com este órgão podem incluir tudo menos falar, o que nem sempre o tal macho consegue. Tomai atenção jovens e não tão jovens moças, em não dormir com gajos com complexos de inferioridade ou que tenham uma esponja tipo bota da tropa. Faça ao deleite de privar com uma moça gourmet, quando estão habituados a rancho, não hesitarão em dar com a língua nos dentes. Não é grave, mas pode tornar-se desagradável. Aconselho-vos pois, para essa prática esporádica, um verdadeiro conquistador, um playboy, ou sex machine. Esses, na esmagadora maioria dos casos ficarão calados. O maior conquistador que conheço é meu amigo, e nunca, nunca, diz nada. Nem a mim.

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Black Friday.

por Fernando Lopes, 25 Nov 16

Como é do conhecimento da freguesia habitual, costumo almoçar num shopping. Notei um movimento inusual de gente a circular, muitos com saquinhos nas mãos. É a maravilha da sociedade de consumo: gente a comprar com dinheiro que não tem, coisas de que não precisa.

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Albergues do Porto.

por Fernando Lopes, 24 Nov 16

albergue_martires.jpg

 

Quando andava na primária passava pelo albergue da Rua dos Mártires da Liberdade duas vezes ao dia. Aqueles homens – na época era apenas masculino – pobres, sujos, alguns alcoolizados, causavam-me maior temor e perplexidade que preocupação social, o que queria era chegar à pastelaria do Neves para ferrar o dente na minha bola de Berlim.

 

O que entretanto devia ter desaparecido, perpetua-se. Cada vez mais utentes, maiores dificuldades. 

 

Quem me conhece sabe que as minhas boas acções – se isso lhes posso chamar – ficam comigo. Estou-me nas tintas para o espírito de Natal, para a caridadezinha, mas o albergue dos Mártires está a fazer obras, e necessita de ajuda. Só para que se saiba, a instituição contabiliza 30.000 dormidas por ano, 145.000 refeições servidas. É de apoiar, não custa nada, basta usar o NIB 0007.0431.00024380003.88. Agradeço em nome de todos os que o não podem fazer.

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Tenda.

por Fernando Lopes, 23 Nov 16

tenda.jpg

 

Sem grande azul entre as minhas nuvens, dedico-me a observar. Na rua Júlio Dinis, Boavista, sobrevivem algumas sapatarias caras, uma ou outra loja de roupa. À noite, as fachadas dos edifícios permitem que alguns sem-abrigo ali façam algo similar a uma casa. Depois, logo pela manhã, arrumam os cartões que serviram para mitigar o frio e esconder o desespero. Hoje, num desses quartos a céu aberto, existia uma tenda que já serviu de brinquedo. Pelas cores garridas, pelo contraste, vi um toque de alegria no negro do drama.

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Voar.

por Fernando Lopes, 19 Nov 16

lar.jpg

 

Estou no escritório, ouço a chuva e um avião. Este simples facto desperta uma série de recordações, nem todas boas. Nos anos 90 era obrigado a ir semanalmente à capital prestar contas de viva voz. Voava na LAR (Linhas Aéreas Regionais) que tinham umas avionetas para fazer o transporte entre a invicta e Lisboa. Voava num Fokker – e que belo nome – de 16 lugares, depois de 32, finalmente num modelo a jacto quando nasceu a Portugália.

 

Centenas de horas de voo, três aterragens falhadas. Numa delas, a tripulação permaneceu sentada todo o tempo. Abanámos e reabanámos, gente a vomitar, uma das portas para arrumar as malas por cima das cadeiras abriu. A meu lado uma senhora açoriana que vinha visitar o marido ao Hospital Militar do Porto.

 

- Aí que eu ainda queria ver o meu marido antes de morrer!

 

- Tenha calma, minha senhora, isto às vezes acontece, disse com um ar tranquilo mas prontinho a fazer um chichi pelas pernas abaixo.

 

Não gosto de andar de avião, mas vou para qualquer lado, evito sempre voar no Inverno. Como disse um sábio, os aviões andam lá em cima, as oficinas são cá em baixo.

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Diabo.

por Fernando Lopes, 18 Nov 16

O diabo, dizem as escrituras, era um anjo que se revoltou e foi expulso. No fundo, um rebelde com ambições a usurpador. Toma muitas formas, existe por todo o lado, encarnado em gente com que nos cruzamos todos os dias que tem um estranho prazer em praticar o mal. Assim, sem pensar muito, reconheço meia-dúzia de diabos que, altaneiramente, ignoro. O diabo está no poder, que admira o espírito crítico desde que ele não seja exercido sobre ideias que o próprio pariu. Está no tipo que bate na mulher, no que mata um adolescente à paulada, no violador, no escroque que é nosso vizinho, no Costa lá da repartição. Por opção ou condicionamento, são seres que têm esse estranho prazer em ferir o outro de qualquer forma possível. Olha por cima do ombro e verás que existem vários na tua vida.

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Contra Os Optimistas.

por Fernando Lopes, 17 Nov 16

ulisses_ja_nao_mora_aqui.JPGJosé Miguel Silva, «Ulisses Já Não Mora Aqui», na Poetria

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Suavidade.

por Fernando Lopes, 16 Nov 16

Dado o meu temperamento stressado, desbocado, intempestivo, admiro quem consegue passar pela vida com alguma suavidade. O Paulo Bento tinha a tranquilidade, eu é mais a suavidade. Procuramos compensar o que nos falta, daí que admire esta faceta, em particular, no feminino. Uma mulher que nos chama à razão, nos dá uma descasca, de um modo tranquilo, meio pedagógico, ligeiramente matriarcal, é outra loiça. À hora que tomo pequeno-almoço, está quase sempre uma jovem mulher muito alta, na casa dos 30. Não sei se pelo tamanho imponente, se por natureza, a rapariga é extraordinariamente calma, aprazível, com um tom de voz e um jeito de se exprimir tão calmo que quase apetece confessar-lhe todas as dores de alma e pecados do mundo. Hoje falava com a senhora do café sobre o seu filho, com o seu modo tranquilo sem ser xóninhas. Muitos tendem a confundir uma coisa com a outra. A uma mulher abebézada, não acho grande graça, marca uma fronteira muito ténue entre doçura e patetice. Mas aquele lado calmo, quase ternurento, exerce sobre mim enorme fascínio. É tudo o que não sou.

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  • Fernando Lopes

    E dizemos isto como se tentar ser boa pessoa fosse...

  • pimentaeouro

    Assino por baixo.

  • Fernando Lopes

    É a nossa obrigação, Inês. Impensável ter um anima...

  • Inês

    E o contente que eu fico por saber que há mais um ...

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