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Por tua causa ando a alugar o bacalhau.

por Fernando Lopes, 30 Set 16

Hora de almoço. Enquanto me dirijo para o trabalho, uma profissional do amor caminha atrás de mim e discute acaloradamente com o seu empresário ao telemóvel. O linguajar da senhora é intenso, e reparem, estou habituado a intensidade desde que de tenra idade acompanhava a avó ao Bolhão. Entre múltiplos, caralhos, foda-se, sai-lhe um putinha que te pariu. Achei ternurento, putinha que te pariu é quase como dizer «a tua mãe não é lá muito séria, mas paciência». Depois remata com um «por tua causa é que ando a alugar o bacalhau». Simplesmente poético. De facto, a transacção comercial vulgarmente conhecida como prostituição, não passa de um aluguer. Não vende, porque isso significava propriedade permanente, hipoteca, o diabo a quatro. Não dá, porque tal seria de borla, arruinaria o negócio, teria de pedir um Plano Especial de Revitalização (PER). Suponho que só dê, mesmo dado, ao manager com quem trocava ideias e a um ou outro amigo de ocasião. De facto, trata-se de um aluguer. Quando um tipo pensa que já ouviu quase tudo, há sempre uma meretriz que nos faz notar que a língua – a falada, está bom de ver – pode ser enriquecida com coloridas definições.

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Peso de bailarina.

por Fernando Lopes, 29 Set 16

Ontem fui ao ginásio ao pé de casa fazer a avaliação física e para me prepararem um plano de treino. Quem me recebeu foi um jovem brasileiro, alto e seco. Meteu-me numa salinha, conversámos um pouco, mandou-me colocar em cima de uma maquineta e segurar com os polegares numa pega. A máquina lá fez as suas contas. Peso 74 – mais um que de manhã, aceito – IMC de 25, no limite máximo do aceitável. Até aqui nada de surpreendente. O que assusta é que o diabólico aparelho diz que tenho de perder 13 quilos de gordura e ganhar 700 gramas de músculo. Mais coisa, menos coisa, o objectivo é atingir 61, 62 quilos, peso que considero de bailarina.  Obviamente que me ri a bom rir e afiancei que se em 6 meses chegasse lá perto lhe compraria um presente.

 

Como que para me castigar, desafiou-me logo a treinar. Lá fui eu. Fiquei entregue a uma jovem chamada Miriam, uma simpatia com imensa paciência. Explicou o funcionamento de algumas máquinas, e fiz logo 10 minutos de marcha, 10 de bicicleta e 10 de elíptica. Suei como um porco, mas vim sem dores nos músculos. Amanhã regresso para que a treinadora me explique o funcionamento de outras máquinas e oriente um plano inicial. Juro por escrito que se nos próximos seis meses emagrecer 10 quilos e os transformar em músculo, acredito em milagres.

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Notas soltas (2).

por Fernando Lopes, 28 Set 16

Não conheço muita gente com um património imobiliário superior a um milhão de euros. Mademoiselle Mortágua ignora uma coisa básica: a classe-média tem pretensões e aspirações a rica. O tipo do T3 de 150.000 euros em Ermesinde sonha ter um T5 na Foz, a quinta no Douro, a vivenda em Albufeira. Para além do aproveitamento político das palavras da Mariana, a menina devia saber que os maiores defensores dos ricos são os tesos aspirantes a Crésus.

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Temas:

Notas soltas (1).

por Fernando Lopes, 28 Set 16

Deixemo-nos de merdas, o Deutsche Bank está falido. Se isto me dá um certo gozo? Sem dúvida. É um desastre há muito anunciado, o sistema bancário alemão era muito mais frágil que o que aparentava, baseado em pequenas caixas locais, os Landesbank, cheiinhos de crédito mal parado, o próprio Deutsche atolado no crédito hipotecário subprime. Em algum momento havia de estoirar, é por estes dias. Já se sabia há tempo. O problema é que a europa não suporta outra crise bancária, agora de uma dimensão estratosférica. Não sei se ria, se chore.

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Lagartixa.

por Fernando Lopes, 26 Set 16

Insignificâncias ganham ocasionalmente valor de revelação. O fim-de-semana passado estava no churrasco quando vejo no lavatório ao lado uma lagartixa que se debatia desesperada a tentar subir a superfície lisa e íngreme de inox. Observei as tentativas durante uns segundos, e decidi ajudar. Assim que sentiu o meu dedo a empurrá-la, tentou subir ainda mais rapidamente, movimentos de medo puro. Consegui colocá-la fora daquele fosso. Saltou para a tijoleira, depois para a parede de granito. Ficou durante uns segundos a recuperar, voltou-se para mim. Parecerá coisa de amalucado, mas quase aposto que estava a agradecer.

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Este fim-de-semana foi assim. (*)

por Fernando Lopes, 25 Set 16

arcos1.jpg Acordar ao som do nevoeiro.

 

arcos2.jpgSaber que ainda existem bogas no rio.

 

 

arcos3.jpg Olhar para trás a caminho do café «O Cunha» e ver isto.
 

 

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Boosters Intensificadores Anti-Age.

por Fernando Lopes, 21 Set 16

boosters.jpg Rua Júlio Dinis, Porto

 

Zézinho foi almoçar. Resolveu dar uma volta ao quarteirão e deparou com isto. Precisei de dois ou três segundos para – tentar – entender o que ali está escrito. Parece que é um tratamento intensivo anti-envelhecimento. Já tinha visto o uso disparatado de anglicismos, mas este supera tudo, duvido que 80% das potenciais clientes entendam a mensagem. Não valia mais um «bora lá pôr-te como nova?».   

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Cisma grisalho.

por Fernando Lopes, 20 Set 16

O restaurante onde almoço diariamente tem tido um empregado novo quase todas as semanas. Primeiro foi um jovem, mesmo muito jovem, depois um rapaz empertigado com ar de quem estava a servir caviar e não bife com molho de francesinha, um outro já perto dos sessenta com enorme boa vontade e memória curta. A transformação social e cultural que vivemos, a crise, o medo de perder o emprego, a competição desenfreada, levaram a que seja cada vez menos agradável trabalhar, o trabalho passou a ser mais palco de luta pela sobrevivência que local de camaradagem.  Muitos patrões aproveitaram este momento de mudança de paradigma para exercerem poder de uma forma arbitrária, discricionária, transformando o trabalhador numa «coisa» facilmente permutável. Quando vi por lá o senhor, já bem passado dos cinquenta, confesso que tive uma certa pena por um tipo daquela idade ser obrigado a competir com miúdos que poderiam ser seus filhos, quase netos. Não deve ser fácil. O momento político anterior aplicou a velha máxima do «dividir para reinar». Pegou, e tendemos a ver no vizinho do lado um competidor em vez de um companheiro. Pôs novos contra velhos, trabalhadores do privado contra os do público, a isto chamou «cisma grisalho». Temo que este momento, como um cancro, tenha alastrado de tal modo pela sociedade que seja difícil voltar aos tempos em que nos ajudávamos uns aos outros. Sempre houve conflitos, ambições, egos inflados, graxistas, sacanas, mas eram uma minoria que se negligenciava como algo disfuncional.  Hoje são esses e os idiotas úteis altamente valorizados, sobreviventes a não se sabe quê ou quem. Uma sociedade que perde a sua humanidade nos ambientes de trabalho, inexoravelmente, irá perdê-la em todas as outras áreas.

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Informação inútil.

por Fernando Lopes, 19 Set 16

Um destes dias, no trabalho, e a propósito de alfaiates, mandei para o ar a piada:

 

- O sr. aparta à esquerda ou à direita?

 

Ninguém percebeu, mas eu explico: quando os fatos ainda eram uma peça artesanal esta era uma pergunta costumeira, para dar um pouco mais de pano à esquerda ou direita para arrumar a genitália. Com o advento do pronto-a-vestir, já ninguém quer saber se nos dá mais jeito a folga de um lado ou de outro. Não é que estejamos mais pequenos que os nossos antepassados, a modernidade é que nos obrigou a «estacionar em menos espaço».

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Temas:

Mulher sem rosto.

por Fernando Lopes, 17 Set 16

Mulher_sem_rosto.jpgMulher Sem Rosto, Rua de Sá da Bandeira, Porto

 

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  • Fernando Lopes

    E dizemos isto como se tentar ser boa pessoa fosse...

  • pimentaeouro

    Assino por baixo.

  • Fernando Lopes

    É a nossa obrigação, Inês. Impensável ter um anima...

  • Inês

    E o contente que eu fico por saber que há mais um ...

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