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Mais triste que vivê-la.

por Fernando Lopes, 19 Jun 16

Às vezes, nos meus passeios pelas ruas da infância, encontro velho conhecidos. A C. é uma delas. Trabalhava numa pizzaria afamada da cidade. Sempre com o ar melancólico e discreto que a acompanha desde a juventude, quando éramos colegas de liceu. Tinha-a visto pela última vez no inverno passado. Tomava conta da mãe, um AVC que a deixou paralisada. Nunca casou, nem sequer lhe conheci namorados. Quando a vi e perguntei pela mãe desatou a chorar. Desempregada, o tempo a fugir, tomando conta de uma entrevada, sem amor regular. A mãe vinga-se do mundo, da sorte, maltratando quem dela cuida. Disse-lhe que era normal que expurgasse a raiva para que lhe estava mais próximo. Palavras sem sentido, conforto que não vale.  Perguntei se a podia abraçar, dei-lhe um beijo na testa. Quando nos separamos, uma pequena lágrima teimosa escorreu-me pela face. Há vidas tão tristes, que mais triste que vivê-las é contá-las.

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