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Cheiro a funileiro.

por Fernando Lopes, 29 Fev 16

Procuramos descrever cores, odores, sensações de forma original. Nem sempre o conseguimos, outras vezes sobre surpreendidos pela simplicidade da coisa.

 

No fumatório da minha empresa estava uma colega com um pensativo cigarro entre os dedos. Olhava para longe, melancolicamente. Por certo não estava ali.

 

- Então Margarida? Algum problema?

- Foi o meu carro. Começou a não andar e tive de chamar o reboque. Lá vem mais uma despesa.

- E o que aconteceu?

- Carregava no acelerador e o carro não andava embora o motor trabalhasse. Ficou parado numa subida. Olhei para a temperatura mas estava normal. Quando saí o carro tinha um cheiro a funileiro.

 

«Cheiro a funileiro» é a metáfora odorífera mas bonita que alguma vez ouvi para descrever um carro que acabou de queimar a embraiagem.

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Segurança Social.

por Fernando Lopes, 27 Fev 16

O vizinho da frente da minha aldeia é um homem pequenino, muito sujo, sempre com uma daquelas boinas antigas com um pico espetado no centro. A casa, degradada, está entre um caminho de pedras grandes e irregulares, da largura de um carro, à esquerda. Do lado direito outro pequeno trilho, ainda mais estreito e estranhamente asfaltado, como se num afã de modernização alguém começasse a colocá-lo onde é inútil.

 

Na frente da velha casa cirandam galinhas e patos num aparente abandono. Nos dias de sol pode ver-se a mulher, paralítica e demente, sentada numa cadeira de rodas a gritar ou murmurar angústia e medos imperceptíveis.

 

Quando passo por ele e lhe dou os bons-dias o cumprimento é sempre precedido de uma passar da mão pela camisola, como que a limpá-la para apertar a do ilustre vizinho ocasional. Não mais trocamos que amenidades, uma ou outra palavra sobre o tempo, a falta de melhoras da sua senhora.

 

Toda aquela miséria, abandono, o desprezo dos vizinhos, fizeram-me perguntar sobre a sua subsistência. O normal por aquelas bandas, uma leira de terra aqui e ali, uma corte e um porco que lhe asseguram alguma carne. E a Segurança Social. Vai uma carinha e duas mulheres, algumas vezes por semana, levar refeições quentes, higiene à mulher, uma ou outra varridela no casebre. Sem este apoio provavelmente não conseguiriam sobreviver, já que é apenas de sobrevivência que se trata.

 

Por estas e outras me contorço todo quando oiço os liberais de pacotilha debitarem doutos pareceres sobre o excesso de despesa da segurança social.

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Mantra.

por Fernando Lopes, 26 Fev 16

Sou amiúde criticado por nunca estar satisfeito com o que a vida me retorna. Tens saúde, família, casa, algum dinheiro no banco, o que é que te falta? Tudo. Compreendo que para quem se limita a comprar o pequeno sonho burguês seja uma vida quase perfeita. Embora valorize o que me foi dado, nunca bastará, porque no meu peito cabem todos os sonhos do mundo.

 

Vou caminhando. Do meu lado esquerdo está a fantasia, do direito uma ânsia de morte que me acompanha desde muito novo. Admiro as pessoas que dizem «sou muito feliz», num mantra que de tanto repetido se transforma numa realidade disfuncional e torpe. Como as invejo.

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Olha, 53.

por Fernando Lopes, 24 Fev 16

Um dos mecanismos de «defesa» presentes em todos os seres humanos é acharem a sua idade a normal. Exceptuando petizes e anciãos, todos acham a sua idade «o padrão». Chegar aos 53 não é algo que se planeia, simplesmente acontece. Podia pegar na caveira de Yorick, passeá-la e começar a disparar elucubrações filosóficas. Somos todos um bocado bobos nesta peça de final aberto que é a vida. Não estou contente ou triste, apenas conformado. Sem respostas para saber se é a vida que nos faz, se é construção nossa ou um bocado as duas coisas, orientadas pela mão invisível da fortuna. Envelhece-se e pronto. Na alma permaneço com 35, talvez seja essa a lição a tirar de mais um aniversário. 

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Momentos filiais.

por Fernando Lopes, 23 Fev 16

Passar dos cinquenta tem os seus aspectos divertidos. Raparigas jovens, entre os vinte e trinta e cinco passam a vida a dar-me conselhos. Olhando e vendo uma figura paternal e bem-disposta abrem o livro da boa palavra e conduzem-me caminho mais seguro. É vulgar, do café ao restaurante, recomendarem algo que «não faz mal», que «devia ter cuidado» com isto ou aquilo. Sorrio, agradeço o conselho. Nenhuma é tão divertida quanto a da tabacaria. Quando não estão mais clientes no estabelecimento adverte-me sempre para a urgência de deixar de fumar. Alertei-a para o paradoxo. É idêntico a um talhante que recomende redução do consumo de carne, um dealer que me alerte que a droga faz mal, uma prostitua que diga que a abstinência fará maravilhas pela minha saúde.

 

- Compreendo-a, mas pense que quanto mais cigarros vender melhor será para si.

- Não digo isto a todos os clientes, e o facto de vender tabaco não me inibe de discordar com a comercialização.

 

Toma lá, que é para aprenderes. 

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Disse-o Agustina.

por Fernando Lopes, 22 Fev 16

Porto.jpgNa inevitável Cedofeita. Muito mais em #preenchervazios

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Que fizeste este fim-de-semana, Fernando?

por Fernando Lopes, 21 Fev 16

Igreja_s_Torcato.jpgSantuário de S. Torcato

Durante a gravidez a minha mulher apanhou um vírus (CMV) que embora sem consequências para a mãe, poderia trazer surdez e problemas mentais para o feto. Passámos momentos de grande angústia e ansiedade. Um amigo de infância propôs que fossemos pedir a intervenção de São Torcato. Embora ateu, anui e todos os anos vou nesta promessa com gosto. Fomos pela primeira vez um mês antes de a criança nascer, continuamos a cumprir.

 

Velas.jpg

 

Para um pagão, religião e prazer misturam-se. Complementa-se pois a visita com um almoço de comemoração num dos restaurantes da zona. O meu favorito é o «Fentelhas». Famoso pelo «Bacalhau Racheado», prefiro os rojões com papas de sarabulho. São servidos os rojões com batata assada numa travessa. Acompanham arroz e papas de sarrabulho. O conceito que preside à coisa é combinar tudo no prato. Na minha humilde opinião as papas são as melhores do mundo, valendo por si só a visita ao restaurante.  

 

fentelhas.jpgUm dos «templos»


papas.jpgAs melhores papas de sarrabulho do mundo. Ao lado uma garrafa de «Espadal».

 

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Rejeição.

por Fernando Lopes, 20 Fev 16

Lido mal com rejeição. Fui rejeitado aos três meses de idade pela mãe que preferiu estar junto do pai a tratá-lo de uma úlcera deixando-me a cargo da avó, que me acolheu como seu, e onde vivi até sair de casa. Quando o pai morreu, essa mesma mãe disse entre dentes que preferiria ter perdido um filho. Podem tentar encontrar atenuantes, atribuir o desabafo à dor do momento. A mim também me doeu. Ainda dói. Certamente por isso lido mal com rejeição. Amigo ou amor só me recusa uma vez. Não há segunda oportunidade, carrego este fardo desde que me conheço. É-me demasiado pesado para acumular com outras negações.

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Bocê.

por Fernando Lopes, 19 Fev 16

A «estória» conta-se em duas penadas. Uma colega do contencioso marca uma reunião com um cliente devedor. Aparece-lhe um daqueles cromos «industriais» da têxtil com mais dívidas que o PIB da China.

 

Argumentaram e contra-argumentaram, tentando chegar a um acordo. O homem repetia constantemente «bocê», «porque bocê», «e se bocê». Chegou a mostrada ao nariz da moça que replica:

 

- Você não; a senhora.

O tipo levanta-se, olha à volta e pergunta:

- Onde?

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A dieta do Lopes.

por Fernando Lopes, 18 Fev 16

Como sabem os frequentadores do estaminé estou um bocadinho badocha, 82 quilos para 1,71. Adoro comer, mas o excesso de peso pode além de inestético, dificultar-nos movimentos e trazer um certo desconforto físico. Inventei a «Dieta do Lopes», que é tão simples quanto isto: diminuir drasticamente os hidratos de carbono. Ao almoço carne ou peixe com salada ou vegetais cozidos, ao jantar uma quantidade pequena e esporádica de arroz ou batata. Certo é que hoje já ia nos 77,5. Sem sofrimento, habituando lentamente o organismo a ingerir menos hidratos, menos comida. Uma asneira ou outra não têm afectado esta lenta descida de peso. Estou quase como o burro do inglês, quando me desabituar de comer, morro.

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Feedback

  • Fernando Lopes

    E dizemos isto como se tentar ser boa pessoa fosse...

  • pimentaeouro

    Assino por baixo.

  • Fernando Lopes

    É a nossa obrigação, Inês. Impensável ter um anima...

  • Inês

    E o contente que eu fico por saber que há mais um ...

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