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Na «Badalhoca».

por Fernando Lopes, 31 Jan 16

Porque não tenho outros filhos falta-me a referência. A minha é uma mistura explosiva de personalidades, tendo a sua, coisas em que é como eu e outras que são nitidamente da mãe. Ontem fomos dar uma volta ao fim da tarde para espairecer, uma vez que a gaiata de encontrava sobre stress com o seu primeiro torneio de vólei.

 

Da Avenida de França a Cedofeita são vinte a trinta minutos a pé, faz-se bem de mão dada com uma menina, a ver casas restauradas e cantar os últimos êxitos da pop.

 

- Vamos comer uma sandes à «Badalhoca» da baixa?

- Existe um sítio com esse nome? Que horror.

 

A mãe seria incapaz de entrar num local, afamado que fosse, por se chamar «Badalhoca». Foi o cabo dos trabalhos levá-la à Gusta da «Adega dos Caquinhos» em Guimarães, devido à fama – e proveito – de língua destravada da proprietária. Uma betinha.

 

Consegui que a criança entrasse na tasca e comesse com gosto um panado no pão. Única num estabelecimento repleto de adultos e espírito boémio. Eu, que sou um tipo do povo que se sente à vontade num restaurante chique ou numa tasca sebosa, quero proporcionar experiências alternativas à miúda. Tranquilizei-me porque vejo que tem muita da minha adaptabilidade.

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Esperem sentadas.

por Fernando Lopes, 29 Jan 16

Que cases. Que pareças o Brad Pitt de casaca. Que te mantenhas sóbrio durante o evento apesar de sentires que ali não pertences. Que sejas no mínimo um sucedâneo do José Avillez. Que sejas exímio na cama mas não tenhas fodido muitas gajas e sobretudo as amigas dela. De gatinhos que rasgam o sofá, cães que deixam uma poia no meio da sala e mesmo assim os aches fofinhos. Crianças, tens mesmo de gostar muito de crianças. O futuro são as crianças, mesmo as que gritam com cólicas durante seis meses seguidos.

 

Esperam isso de ti e até mais. Que nunca te sintas deprimido e tenhas sempre um óooptimo sentido de humor. Que não tenhas mau hálito. Que não te peides quando foste desterrado para a varanda fumar um cigarro. Que sejas executivo, mas quando chegas a casa te tranformes em canalizador, electricista, carpinteiro. Que percebas os anagramas do IKEA e montes uma estante BILLY com quatro componentes sem perder uma puta de uma porca. E que fique bem à primeira.

 

Que sejas uma espécie de «melhor amiga» e logo a seguir te transformes em Mr. Grey, possante, musculado e dominador.  Que te interesses por uma cena chamada «moda» que muda todas as estações. Que não gostes de futebol e cervejas, mas te comovas com ballet. Que atures os episódios das novelas.

 

Musculoso, tens de ser musculoso, um corpo em V e o pinto devidamente aparado. Que leves as crianças ao parque sábado de manhã enquanto a tua cara-metade aproveita para ter o seu tempo de qualidade com as amigas.

 

Que estejas sentado todo o dia à secretária fazendo complexo cálculo financeiro e isso não te provoque hemorróidas. Que conduzas um carro de 200 cavalos a 120 à hora, vás levar as crianças ao colégio e quando ela chega lhes tenhas dado banho, a roupa na máquina e o jantar a 5 minutos de ficar pronto. Assim ela sempre pode participar, tratando majestaticamente da salada.

 

Que faças tudo isto e a seguir possas discutir com profundidade o «Tractatus» de Wittgenstein. Esperam tudo isto, só não esperam que sejas tu.

 

Inspirado por esta cretinice coisa...

 

P.S. – Também me chamaram cretino. Provavelmente os cretinos andam aos pares, mas esta vitimização feminina já cansa. Socialmente é exigido demasiado a ambos os géneros, como se tivéssemos a obrigação de ser perfeitos. Não temos. E podem chamar-me cretino à vontade, é irrelevante.

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Enquanto há tempo.

por Fernando Lopes, 28 Jan 16

Irritam-me sobremaneira as almas que dizem que fariam tudo do mesmo modo. Tenho arrependimentos quási infinitos, uma enormidade de coisas mudaria na minha vida se atrás pudesse voltar.

 

Entre elas está a relação com o meu pai.

 

Morreu com a idade que tenho hoje, demasiado velho para ser um amado dos deuses, muito novo para regressar ao pó. Como muitos pais e filhos, a nossa relação pautava-se por uma conflitualidade latente. Iguais em alguns traços fisionómicos e de carácter mas com um mar de diferenças em tantas outras pequenas coisas. Digo sem pudor que sou muito melhor pai do que ele alguma vez foi.

 

E no entanto lamento não ter tido tempo de podermos envelhecer juntos.

 

Ocorre-se-me esta prosa porque o disse hoje de viva voz, a um amigo com relação espinhosa como a minha. Tens uma segunda oportunidade, aproveita-a.

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Estupor da gaiata!

por Fernando Lopes, 27 Jan 16

No aniversário recente de um amigo, jornalista de méritos reconhecidos e acima de tudo uma excelente pessoa, tive o prazer de travar conhecimento com o Gonçalo Cadilhe. Para um turista com ambições a viajante é o mesmo que um muçulmano dar de caras com o profeta. O Gonçalo é um tipo discreto, com uma voz baixa, todo ele calma e suavidade. O meu oposto, já se percebeu.

 

Tendo-o ali à mão de semear, bombardeei-o com uma série de perguntas parvas a que já deve ter respondido um milhão de vezes. Em vez de me mandar bugiar foi extraordinariamente simpático e respondeu a todas as dúvidas. Já era admirador do viajante, fiquei também a sê-lo do homem.

 

Descobri nas redes sociais que será o guia de uma viagem à Namíbia. Parafraseando o saudoso Carlos Pinto Coelho, África- mãe, mãe-ventre, ventre-sonho, sonho-África. Por algo inconsciente, o meu fascínio por este continente parece interminável.

 

Cheguei à sala triunfante:

 

- Se o pai ganhar o euromilhões vai à Namíbia com o Gonçalo Cadilhe. Expliquei que era uma viagem de sonho, iria sozinho durante esses 15 dias.

 

- E tu aguentavas lá quinze dias sem ver a tua filha, ripostou a fedelha.

 

Sei que temos uma relação fortíssima, muitas vezes me senti um pinguim imperador, mas aquela autoconfiança excessiva caiu mal. Cortar um sonho ao pai? Achar que não sobreviveria sem ela uma quinzena? A Matilde é minha filha numa certa fragilidade e insegurança que partilhamos, raras vezes a vi tão afirmativa e segura do seu nariz.

 

Dei por mim a pensar que provavelmente estou a fazer um trabalho bom demais ao incutir-lhe autoestima, tanta que acha que não posso viver distante por um curto período.

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Má sorte ter nascido assim.

por Fernando Lopes, 25 Jan 16

Quem me conhece bem sabe que por detrás dos abraços, jovialidade, permanente boa disposição, está um homem que nasceu e vai morrer inquieto. Associam esta insatisfação, a ânsia que me consome, as mãos quase sempre transpiradas, à infelicidade.

 

Nunca me conheci doutro jeito, e de outro não quero ser. Dizem-me que na minha idade ainda posso ser feliz. Mas como? Coisas simples fazem-me feliz. Ajudar um amigo, festejar a vida entre quem me quer bem, o sorriso da minha filha são coisas que me fazem feliz.

 

O meu projecto, ou calvário se assim o quiserem ver, é abdicar de um frequente auto-contentamento, tendo em conta a felicidade de quem me é mais querido. Não podes pensar assim, dizem. Vais acabar velho e sozinho. Provavelmente têm razão, mas uma causa maior vale sempre o sacrifício.

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Votar mata.

por Fernando Lopes, 24 Jan 16

Votar.jpg Numa passadeira a caminho da assembleia de voto

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Pérolas.

por Fernando Lopes, 24 Jan 16

Ana de Amesterdam, Carla Romualdo, J. Rentes de Carvalho, Soliplass, são estrelas da blogosfera mesmo que o não saibam ou queiram assumir. De Rentes de Carvalho nem é preciso falar, a obra fala por si, é provavelmente o maior escritor português vivo. Ana de Amesterdam é muitas vezes brilhante, outras tão brutalmente sincera que dói. Carla Romualdo é de uma delicadeza na escrita, emotividade contida, capacidade de captar um momento, absolutamente única, de leitura indispensável. Uma princesa que escreve como tal. E depois temos Soliplass, que tenho o prazer de conhecer, e que apesar do breve encontro me inspirou profundo respeito e admiração.

 

O porquê está em postas como esta, «Um Presidente do Povo». A ler. Obrigatoriamente.

 

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Como estilhaço.

por Fernando Lopes, 21 Jan 16

Falava com um amigo sobre desilusões e frustrações amorosas. Ao contrário do que é vulgar dizer-se, o tempo não cura tudo, apenas ameniza. Quando algo corre mal sabemos que fracassamos como indivíduo e casal. Para quem deu o melhor de si, acreditou que ia resultar, ficará sempre dor e um sabor agridoce. Como um estilhaço que a pele cobriu, normalmente causa pouco incómodo, no entanto se lhe tocarmos, dói. Aprender a conviver com essa dor, umas vezes suave, outras dilacerante, é tudo o que resta.

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Corre miúda, corre.

por Fernando Lopes, 19 Jan 16

Sem saber o motivo exacto dou comigo a observar as pessoas que me rodeiam a qualquer momento. Mal acordo venho para este escritório de onde vos escrevo. Enquanto fumo um cigarro e espero que o autocarro passe, surpreendo-me sempre por estar cheio às 07:30 da manhã. Entretenho-me a imaginar onde trabalharão aquelas pessoas, que metro vão apanhar, o que fazem. Vão lá dentro a mulher-a-dias, o amanuense, o reformado que vai tratar de tudo pessoalmente às finanças. No trânsito gosto de olhar para quem está a meu lado na fila. O homem do carro de 120.000 euros, o velhinho com boina que leva a sua senhora à consulta, a mãe com os putos ensonados. Para todos eles imagino uma «estória», família, sucessos e fracassos, dramas e comédias que nos compõem a vida.

 

Depois existem aquelas personagens que secretamente admiramos como a gordinha que corre à volta da rotunda.

 

Não terá mais de 35 anos, cabelo com puxo, fato de treino largeirão. Todos os dias corre à volta da rotunda. Não sei se por razões de saúde, simples vontade de correr, para limpar a alma. Continua rechonchuda e persistente. Roda, roda sem parar, todas as manhãs. Admiro-lhe a tenacidade, pois faça sol ou chuva, ela corre.

 

Há mais de um ano que a observo. Não sei porquê sinto sempre alegria de vê-la corada, resfolegante, sem parar. Já pensei bater-lhe palmas, dar uma palavra de incentivo, mas temo ser mal interpretado. A corrida dela é uma metáfora para a minha vida; sempre a mexer-me sem verdadeiramente sair do sítio.

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Não perceber nada de mulheres.

por Fernando Lopes, 18 Jan 16

mulheres.jpg

 

Estou a ler «Mulheres» de Bukowski. É reconfortante entender que como eu, também o poeta e romancista não entendia o sexo feminino. O livro é um relato cru de Henry Chinaski – alter-ego de Bukowski -  de 50 anos, que após uma eternidade de solidão e abstinência, até de um certo desinteresse, devido à fama literária crescente se vê envolvido numa série de casos amorosos que passam a marcar o ritmo da sua vida e escrita.

 

Chinaski tem uma visão muita vezes chocante das mulheres, usando-as e deitando-as fora. Confessa que amou apenas uma mulher que se embebedou até à morte e inconscientemente mantém dentro dos seus afectos mulheres extremas, que vivem como ele num limbo entre o consciente e inconsciente, deixando-se dominar pelos instintos mais primários.

 

As boas mulheres, sem problemas, amantes fiéis, cuidadoras do seu alcoolismo, são-lhe inúteis porque lhes falta a ânsia da vertigem.

 

A Katherine sabia que havia algo em mim que não era salutar, no sentido em que é salutar aquilo que nos faz bem. Eu sentia uma atracção por todas as coisas erradas: gostava de beber, era preguiçoso, não tinha um deus, política, ideais. Estava instalado no nada; uma espécie de não-ser, e aceitava-o. O que não configurava uma pessoa interessante. Eu não queria ser interessante, era demasiado difícil. Aquilo que realmente queria era apenas um espaço ameno e enevoado onde viver, e que me deixassem em paz. Por outro lado, quando me embebedava punha-me aos gritos, enlouquecia, passava-me dos carretos. Um comportamento não batia certo com o outro. Pouco me importava.

 
Charles Bukowski, «Mulheres», pág.135

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  • Anónimo

    Tenho é que me manter nova:)~CC~

  • Fernando Lopes

    Isto era eu... :)

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    Venha e será recebida de braços abertos. Vamos com...

  • Anónimo

    Plantei uma árvore, tive uma filha e escrevi um li...

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