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Marmitas.

por Fernando Lopes, 30 Dez 15

Habituei-me a ver marmitas desde criança. Eram usadas sobretudo pelos operários da construção civil que vinham de terras tão distantes como Lousada, Penafiel, Amarante, trabalhar para as obras no Porto. Porque a paga era escassa e os restaurantes abertos à hora de almoço também não abundavam, trazia-se o almoço de casa. Às vezes, no caminho da escola para casa, ficava do outro lado da rua a observar os homens regressarem temporariamente à cozinha da aldeia. Havia sistemas simples e outros mais complexos. Normalmente apenas um tacho, embrulhado num pano, mais largo no fundo e com um laçarote na pega do testo. Esse pano era precedido de um embrulho prévio em jornais, várias camadas, para manter o conduto quente. As mais das vezes aquela gente simples comia apenas com garfo ou uma colher. Comer de faca e garfo era requinte de citadinos, pouco prático dadas as circunstâncias. Existiam também uma espécie de pilhas mágicas em que sobre um tacho maior encaixavam outros menores. Umas vezes dois, outras três. Tinham ganchos laterais e o fundo do menor servia de testo do que se lhe sobrepunha. Uma torre de tachos afunilando para o infinito. Eram mais finos e a comida aquecida sobre brasas improvisadas. O pequeno tinha a sopa, o maior o almoço propriamente dito. Mandavam piadas uns aos outros sobre as qualidades culinárias das mulheres e um piropo à jeitosa do outro lado da rua. Lembrei-me disto ao ver um anúncio qualquer às novas marmitas. Hoje é algo in, sinal de frugalidade. Naquele tempo significava apenas dificuldade.

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Cura de águas na região dos vinhos verdes.

por Fernando Lopes, 26 Dez 15

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Neste dias em que tudo em pára, remete-se este vosso escriba a silêncio campestre. Recolhe-se ao seu abrigo, e irá conviver com a gente da sua aldeia adoptiva, cabras, garranos e demais bicharada. A porca que se dava pelo nome e gostava de festas foi assassinada. Porque muito que custe a nós citadinos, os animais valem pela função, a sua era ser criada, engordada e comida. Escusado será dizer que não vou ferrar o dente em nenhuns salpicões que ofereçam com medo que pertençam à minha defunta amiga. Aproveitarei sem pudor todo o verde, desde que não seja tinto. Uma malga de tinto deixa os dentes pretos e provoca tal distúrbio intestinal que é melhor nem lhe chegar os beiços. Levo cadernos de notas e um livro oferecidos por dois amigos blogosféricos cuja amizade passou para lá do monitor. Até já.

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Carta de princípios para o novo ano.

por Fernando Lopes, 23 Dez 15

Diverte-te como se o fim do mundo fosse já amanhã. Protege os fracos, enfrenta os fortes. Pensa com a tua cabeça, e sobretudo com o coração. Foge do rebanho, sê tu mesmo. Marimba-te para o que os outros acham de ti, excepção feita aos que te são queridos. Dá. Dá o que te for possível e dá sobretudo amor. Não te resignes, luta contra que o achas errado, importa menos quem vence mais o empenho com que se lutou. Sê justo, leal, frontal, mesmo que isso te possa trazer dissabores. Ama até que o peito se fique gasto, cansado, mas esplendorosamente feliz.  Perdoa sempre que puderes, o rancor gasta mais energia que ser magnânimo. Abraça um estranho. Bate palmas a um músico de rua. Sorri, mesmo quando o lógico seria chorar. Um novo ano é metaforicamente um renascimento. Aproveita-o, renasce, vive. Tu mereces.

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Para ti, avó.

por Fernando Lopes, 21 Dez 15

Não sou, não vou, não posso, não quero, ser hipócrita. As pessoas têm graus de importância na minha vida. Amor total e absolutamente incondicional senti-o duas ou três vezes. Fazes-me falta sempre, mais ainda no Natal, porque tu eras o Natal, particular, só meu, que me acontecia todos os dias. Mais uma vez – já lá vão dez anos – vou estar à mesa sem os teus olhos luminosamente azuis, sem o teu jeito rude de matriarca atarefada, sem o teu amor, o teu bacalhau, os teus ralhetes a fingir pelo excesso de Alvarinho. Nada é como quando estavas, minha cuidadora, minha bimãe. Deixa-me dizer-te um segredo: quando dizias que ninguém cozinhava como tu e te desmentia, era apenas para ser pacificador, nunca, ninguém, consegui como tu escrever amor sob a forma de comida. Para te sossegar, digo-te que, estranhamente ou talvez não, estás lá, como se de forma mágica ainda supervisionasses tudo. De modo diferente é certo, estarás sempre connosco, comigo. Bom Natal, Vó.

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Quando o homem deixa de ver no espelho o rapaz.

por Fernando Lopes, 20 Dez 15

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Envelhecer é um processo doloroso, independentemente do sexo. Não creio que o mito perpetuado que o envelhecimento é mais penoso para as mulheres que para os homens seja verdadeiro. Rapazes serão rapazes, mantemos um lado infantil toda a nossa vida, um modo de auto-preservação tão masculino que ouvimos septuagenários comentar: «Faleceu um rapaz da nossa idade».

 

Subitamente, levou este rapaz uma chapada de realidade. Já não é o jovem que via ao espelho. Um processo doloroso mas inevitável, um atropelamento por um comboio que julgávamos estar ainda distante.

 

Todos ouvimos o ditado «galinha velha faz boa canja», nunca ninguém disse «galo velho dá uma cabidela de truz».  

 

Requer tempo, maturidade, e um enorme rombo numa auto-estima já de si frágil, que demorará a calafetar. Mantive estes dias de silêncio porque o rapaz deixou de ser prevalente. Não sei se isso vai afectar o blogue, certo é que para um tagarela é difícil manter-se calado.

 

Uma das narrativas mais dolorosamente sinceras que li sobre a vida e este estádio pré-comatoso que atravesso foi descrita por John Williams no fantástico «Stoner». Como o personagem que dá nome ao livro, mantenho intacta a capacidade de me apaixonar por um momento, uma paisagem, um livro, uma pessoa. Estou vivo, vou andar por aqui, tentar esquecer a cabeleira grisalha e a dezena de quilos a mais, e manter as únicas qualidades que tem o homem por detrás deste blogue: integridade de carácter e absoluta sinceridade.

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