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Laidinha.

por Fernando Lopes, 14 Out 15

Laidinha era, como tantas outras da sua idade e condição, doméstica. No pequeno quintal junto à casa de pedras velhas e irregulares tinha o galinheiro e a horta. E o que poupavam graças às poedeiras, legumes quase nunca era preciso comprá-los. Criou assim dois filhos de forma digna e asseada, entre trabalho e tabefes do marido.

 

Desde que os rapazes tinham partido para o Porto, Florêncio, talvez por saudade, talvez por coisa nenhuma, tinha-se ensimesmado. Embebedava-se quase todos os dias, muitas vezes fedia a uma combinação de pecado mortal, vinho e putas. Não que as putas a incomodassem, enquanto Florêncio se punha nelas não a obrigava a levantar a saia e satisfazer-lhe os desejos. O que a transtornava era o fedor que trazia nesses dias, uma mistura de verde tinto azedado e mulher que não se lava por baixo.

 

O tabefe ou pontapé ocasional tomaram a pontualidade de relógio suíço. Era porrada e cheiro a puta mal lavada, dia sim, dia não. O dinheiro cada vez mais curto, não fosse a horta e as pitas, muitas vezes não teria janta decente para lhe dar.

 

- Tás’me a bater porquê, perguntou Laidinha.

- Porque me apetece, sua cabra.

 

Pegou velho atiçador de ferro e deu-lhe com força na cabeça. Florêncio recuou, tonto, surpreendido com o sangue que lhe escorria da cabeça para a face e camisa. E bateu, bateu, até que ele tombou. No chão já só emitia uma espécie de vagido. Laidinha continuou a vergastá-lo com o ferro até que tudo ficou em silêncio.

 

Quando a guarda chegou, Florêncio estava sentado num velho sofá de orelhas, com o seu melhor fato e camisa, a gravata às riscas com o nó atado. A lividez que havia tomado conta do cadáver dava-lhe um ar nobre e calmo que nunca fora seu em vida. A cozinha e sala impecavelmente limpas, o atiçador junto à lareira, um agradável perfume a lavanda enchia a casa.

 

Quando perguntada porque havia vestido o cadáver e tratado da casa só lhe ocorreu uma frase:

- Queria deixar tudo direito antes de ir para a cadeia.

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Feedback

  • Fernando Lopes

    As pessoas devem poder vestir-se como lhes apetece...

  • Henedina

    Nos EUA é McCartismo

  • Henedina

    Algum bom senso na indumentária?..'Humm

  • alexandra g.

    Sem,de todo - que fique claro, ao contrário daquel...

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