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Descubra as diferenças.

por Fernando Lopes, 30 Out 15

Não discutimos Deus e a virtude. Não discutimos a pátria e a sua história. Não discutimos a autoridade e o seu prestígio. Não discutimos a família e a sua moral. Não discutimos a glória do trabalho e o seu dever.

 

António de Oliveira Salazar
 
 Portugal é membro de pleno direito da União Europeia e aderiu desde a primeira hora ao projeto da moeda única. Exige-se ao Governo que agora toma posse que respeite as regras europeias de disciplina orçamental aplicáveis aos países da Zona Euro e subscritos pelo Estado português, nomeadamente o Pacto de Estabilidade e Crescimento, os pacotes legislativos […], o Tratado Orçamental.
[…]De igual modo, devemos manter-nos fiéis aos compromissos que contribuem de forma decisiva para o prestígio de Portugal no mundo, com destaque para a nossa presença no espaço da lusofonia e nas organizações internacionais de defesa e segurança coletiva de que fazemos parte.
ANíbal cavaco silva
 

Quarenta e um anos depois continua a haver coisas que não se podem discutir. Ámen. 

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O homem que detestava compras.

por Fernando Lopes, 29 Out 15

Se me querem ver trombudo e a bufar mais que uma chaleira, é fácil: metam-me num centro comercial e obriguem-me a ir às compras. Seguindo os velhos planos quinquenais da economia planificada russa, também eu compro roupa por atacado só para evitar ter de andar de loja em loja a vestir e despir. Convidem-me para ir à FNAC gastar dinheiro em livros e CDs e fá-lo-ei com todo o gosto. A compra de tralha para vestir é coisa que evito a todo o custo. Esta minha aversão está a pré-configurar uma tragédia. Os fatos estão todos coçados, as gravatas em estado duvidoso, os sapatos a gritar «troca-me», até as inseparáveis Levi’s e botas Timberland pedem reforma urgente. Todos os fins-de-semana prometo a mim próprio ir tratar do problema e todos adio. Quando encontro um fato que me fique relativamente bem, trago dois iguais mas com cores diferente; nos sapatos é mais ao menos idêntico. Com tantas profissões por aí, podia haver alguém que comprasse as roupas por nós. Gastaria algum dinheiro extra com gosto só para não ter o incómodo de andar de loja em loja. Sei que soará estranho para as senhoras, mas o prazer que me dão estas obrigações é quase o mesmo que ir ao dentista.

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A instabilidade como fonte de equilíbrio.

por Fernando Lopes, 27 Out 15

Sou por natureza um tipo inseguro. Metem-me medo as relações amorosas consideradas como inabaláveis. Casado há 23 anos, os braços invisíveis que suportam este longuíssimo afecto tremem mais que ramo de árvore em dia de ventania. Nada é certo na vida e em especial no amor. Não estou nada seguro que a minha mulher se não possa apaixonar por outro ou vice-versa. Os laços que nos unem são como que tecidos por uma aranha; suficientemente fortes para suportar o estrebucho agonizante de uma mosca, flexíveis o bastante para suportarem gotas de chuva, frágeis quanto baste para se romperem quando uma folha choca contra ela. Nada é certo, e talvez seja esse frágil equilíbrio tecido a quatro mãos a razão por que nos mantemos juntos. Personalidades opostas, visões do mundo diferenciadas, sentires quase sempre divergentes. Um antagonismo transformado em relação. Que no entanto, contra todas as expectativas, resiste.

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Coisas na parede.

por Fernando Lopes, 26 Out 15

luaty.JPGCedofeita, muro que cobre a antiga «Ilha de Cedofeita».

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Ter um símio por companheiro.

por Fernando Lopes, 25 Out 15

12:30, estação de metro da Trindade. Após 6 kms de caminhada claudico e decido regressar a casa de metro. Headphones metidos até ao tímpano, volume no máximo, The The e o álbum «Infected» a rolar. Ao meu lado um casal de 40 e poucos anos. Ela loira, magra, com ar simples mas arrumado. O tipo é um mal-ajambrado, ar de grunho, dentes pretos. Agarra-a e apalpa-a como um macaco com cio. Apalpa-lhe o rabo ostensivamente à frente de dezenas de pessoas. Ela tenta puxar-lhe a mão para a anca, mas só o consegue durante breves segundos.  O marmelo roça-se nela com um daqueles cães pequenitos que montam até uma almofada. A mulher visivelmente embaraçada, ruboresce.

 

Desvio o olhar, dou dois passos em frente. Não sou púdico, mas cenas daquelas entre adultos são completamente despropositadas, desagradáveis. Chega a carruagem, entro e fico a pensar o que levará uma mulher a suportar um animal daquele calibre. Falta de amor-próprio? Medo da solidão? Quando chega ao ponto de tolerar um símio daqueles, que dignidade lhe resta?

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Porque não dou dinheiro a drogados.

por Fernando Lopes, 22 Out 15

Falava hoje com um amigo e explicava-lhe que a minha generosidade não tem barreiras morais, é-me indiferente se o que dou vai ser gasto em comida, tabaco, vinho ou prostitutas. Não dou a drogados. Porquê? Não implica nenhum julgamento moral, quero lá saber se o Manel ou Joaquim são agarrados. Não dou porque estaria involuntariamente a alimentar o circuito do tráfico, desde o dealer de esquina, até ao magnata da droga. Tornassem a poeira legal, vendida em estabelecimentos autorizados, com lucro para o comerciante e impostos para o estado e doaria com o mesmo desapego com que o faço a um alcoólico. E sim, estou a fazer um julgamento moral sobre traficantes.

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O que o berço dá, a tumba o tira.

por Fernando Lopes, 21 Out 15

Por questões de orçamento e proximidade, mais a primeira que a segunda, almoço todos os dias na praça de alimentação de um centro comercial. Embora também tenha a opção do Mercado do Bom Sucesso, o local é demasiado pretensioso para os meus objectivos. Experimentei vários estabelecimentos, em quase todos comi coisas vulgares com um toque de suposto cosmopolitismo. Será bom para os aspirantes a queques ou seguidores de modas, lamentavelmente nem a comida nem o espaço me convencem. Manias.

 

A zona tem imensos escritórios, bancos, companhias de seguros, consultórios médicos, e essa é a fauna que frequenta a zona.

 

Diariamente me espanto com a falta geral de maneiras à mesa. De homens, mas também de mulheres. Hoje dediquei-me a reparar nos comportamentos pelos quais a mãe ou avó me premiariam com um calduço. Observação número um: senhora chiquemente vestida, sapatos de design hipermodernista, a lamber a faca; senhora número dois a usar a mão até ao punho como improvisado paliteiro – diga-se em abono da verdade que abomino o uso de tal utensílio; jovem rapariga número três, híper-perfumada, cabelo impecável, saia-casaco executivo, em vez de comer a sopa com a colher, pega na tigela com as duas mãos e sorve o conteúdo com enorme musicalidade para gáudio dos meus ouvidos; o clássico bronco que mastiga com a boca aberta enquanto fala, exibindo orgulhosamente o bolo alimentar e dispersando-o, já salivado, em várias direcções. Útil quando existem pássaros e pombos nas redondezas, num espaço fechado, desperdício alimentar.

 

«O que o berço dá, a tumba o tira», pode-se emperiquitar um boçal, isso não o torna menos boçal. Se contratasse alguém, uma das coisas que faria seria convidá-lo(a) para um almoço. Más maneiras à mesa seriam factor de exclusão.

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No campo é que estava bem!

por Fernando Lopes, 20 Out 15

terraco.JPG

 

Neste dia de temperaturas primaveris Entre- Douro-e-Minho senti falta do campo. Imaginei-me a fazer abrasear costelinhas, chouriças, alheiras e pimentos tendo por vista a montanha. Acompanhado por uma garrafa de Alvarinho bem fresco, nem sabem o bem que fazia a esta cabeça cansada. Apesar de amar a cidade, encontro cada vez mais prazer nas coisas simples do campo. Pudesse eu, e dividia a vida e o tempo entre estes dois amores.

 

paisagem.JPG

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Da passividade dos portugueses.

por Fernando Lopes, 18 Out 15

 

A única indignação séria dos portugueses é o facto de roubarem um penalty ao seu clube. Tudo o resto é irrelevante para este bando de morcões a que me coube por sorte pertencer. O vizinho bate na mulher? É lá com eles; A rapariga foi violada? Andava de mini-saia; Houve um aumento brutal de impostos? São todos uns ladrões.

 

Hoje faltou a luz. Moro num empreendimento constituído por seis blocos de apartamentos e 178 habitações. Situado numa zona de classe média, média-alta, tenho por vizinhos professores, quadros, juízes, médicos, engenheiros. Gente supostamente civilizada, com sentido de comunidade.

 

O triple-play é uma coisa muito janota, mas quando ficas sem electricidade o router desliga-se, e nem o telefone fixo funciona.

 

Passados quinze minutos, munido do telemóvel, resolvi ligar à EDP avarias. Estava convencido que alguma das mais de 300 almas que habitam este condomínio já teria tido a preocupação de alertar para a situação.

 

Nada, niente, nicles, neribi. Fui o primeiro – provavelmente o único – a telefonar, e quando manifestei surpresa o rapaz do lado de lá da linha deu uma ligeira gargalhada e disse: É normal.

 

Os portugueses são absolutamente passivos até que o céu lhes caia em cima da cabeça. Não existe sentido de colectivo, comunidade. Envergonho-me de ter nascido neste antro que se julga europeu e procede diariamente como o mais relaxado dos africanos.

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Em Portugal é difícil emagrecer.

por Fernando Lopes, 15 Out 15

Absolutamente insensível a modas e novidades gastronómicas, forreta para não gastar dinheiro em restaurantes na berra, sou o que se convencionou chamar um bom garfo, quase sempre com apetite, defensor incondicional da comida tradicional portuguesa.

 

As modas chegam e invadem tudo, há que inovar para atrair clientela. A «Conga» uma casa na rua do Bonjardim especializada em bifanas, tornou-se famosa pela qualidade da carne utilizada e pelo molho. As más-línguas dizem que o panelão de molho era sempre o mesmo, sendo apenas acrescentado quando ameaçava acabar. Nada de novo já que os alemães também não lavam os tachos e formas dos bolos, ao que consta para manter o sabor. Agora já serve coisas entre o tradicional e o cagão como folhado de alheira em cama de rúcula.

 

Almoço todos os dias por uns humildes 6,50, e se soubermos ir aos sítios certos não se come mesmo nada mal. Ontem tive o prazer de partilhar mesa com um amigo blogosférico e tratamos por tu um bife com ovo a cavalo. O amigo é de carne e osso – mais osso que carne – e bateu-se com galhardia com o pedaço de vaca que lhe estava destinado.

 

Hoje cheguei com ideias de peixe, mas sucumbi face a umas excelentes tripas. Tripas dignas de tal nome têm de incluir folhos, favos e touca. Hoje em dia poucos restaurantes usam touca por ser basicamente gordura. Eu gosto, estas tinham. Os cominhos também são essenciais. Saí como um príncipe por uma quantia que não daria para um Big Mac na maior parte da Europa.

 

Não admira que em Portugal seja difícil emagrecer.

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