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De olhos bem fechados.

por Fernando Lopes, 30 Set 15

 

O realizador Jordan Oram, canadiano, decidiu juntar quatro casais que nunca se tinham visto para que se conhecessem através do beijo. Uma experiência social como tantas outras, que vale bem mais pelas questões que coloca, que pelo ineditismo da ideia. Os casais são fisicamente compatíveis, da mesma idade, sem grandes hipóteses de gerar choque ou surpresa. As questões ficam: E se conhecesses a pessoa porque te vais apaixonar através daquele primeiro beijo? E se fosse o teu primeiro beijo? E se conhecesses alguém, o beijasses e depois fosses apresentado? E se a química fosse construída a partir desse momento?

 

Certo é que muitos de nós nunca se esquecem do primeiro beijo. Tu lembras-te?

 

[Fonte: Bored Panda]

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O Fernando quer um alemão.

por Fernando Lopes, 29 Set 15

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Não me refiro a um alemão de carne e osso, antes a um daqueles popós de luxo, poluentes e caríssimos que fazem a alegria do pato-bravo dos cinco continentes. Recordo que o sonho máximo da classe amanuense a que pertenço é ter um VW Passat, Mercedes ou BMW e um camarote no Porto. Ou no Benfica, vá.

 

Qualquer candidato a chunga com cinco coroas no bolso aspira a um alemão, mesmo que haja japoneses, franceses ou ingleses a prestar o mesmo serviço por menos 15.000 euros. É bom, é alemão, dirá com ar sério, encostando o queixo ao peito e reforçando a já exuberante papada.

 

Os alemães, esse poço de virtude, andaram a enganar meio mundo. Os seus intocáveis carros, e não só os VW, andam a software de hacker, deitando pelas bufadeiras ar quase respirável quando alguém lhes vigia a emissão de CO2 e poluindo mais que o comboio do Tua quando ninguém está a ver.

 

Lembro a Claudia Schiffer a fazer publicidade à Opel e o seu «It’s a German», como se isso por si mesmo fosse garantia de um patamar superior. E que tal «It’s a German thefore it polutes»?

 

Chego a uma conclusão preocupante: a VW não enganou só cidadãos, enganou estados. Parte dos impostos sobre os automóveis têm como base as emissões poluentes. Quanto é que os estados deixaram de receber ao atribuírem aos veículos alemães emissões falsas? Quererá «Passos, o alemão» incomodar a Sra. Merkel e a todo-poderosa VW com a sua Autoeuropa?

 

Recordo também a sra. chinesa que deixou o filho sozinho num dia de calor e ficou possessa porque lhe partiram o vidro do BMW. Sei bem que a estupidez aparece em modo multimarca, mas não deixo de me interrogar, será que faria o mesmo se o chaço fosse um Peugeot ou Toyota? Provavelmente não, não era alemão.

 

Definitivamente, este vosso escriba lida mal com a mentira, com os fariseus da indústria alemã, que dando-se ares de seriedade intocável e trabalho perfeito, tendo-se como reserva moral da Europa, montam esquemas fraudulentos.

 

Afinal não, não quero um alemão.

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A noite da arma.

por Fernando Lopes, 29 Set 15

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Conhecem os habitués o meu fascínio por personagens extremas, das que vivem a vida até ao limite e nem sempre dela regressam intactos. Não sei porque sou tocado por essas experiências limite, por um mundo de artistas e homens de letras que são o outro lado do espelho, se perdem num mundo de drogas, álcool, devassidão. Talvez seja o desejo de conhecer uma outra face da realidade, uma projecção infantil, um momento em que sou confrontado com a minha entediante normalidade. Encontrei este livro sobre perda, luta, memória.

David Carr foi um viciado durante mais de vinte anos – primeiro em erva, depois coca, e finalmente crack – antes de a perspectiva de perder os seus dois gémeos recém-nascidos o tornarem sóbrio numa tentativa de ganhar a batalha pela custódia à mãe dealer de crack. Uma vez recuperado, descobriu que as memórias dos seus anos «perdidos» divergiam – às vezes radicalmente – das da sua família e amigos. A noite, por exemplo, em que o seu melhor amigo lhe apontou uma arma. «Não», disse o amigo (para horror de David, pacifista de longa data) «Eras tu que tinhas a arma.». Usando todas as suas capacidades como repórter de investigação, decidiu pesquisar a sua própria vida, entrevistando todos, dos seus pais aos ex-colegas, até ao polícia que o deteve, dos médicos que o trataram, aos advogados que lutaram para provar que estava apto a tomar conta dos seus filhos. Inflexivelmente honesto e extraordinariamente bem escrito, o resultado é em simultâneo um relato chocante das profundezas da dependência e uma reflexão sobre como – e porquê – as nossas memórias nos enganam. Como disse David, recordamos as histórias com que conseguimos viver, não aquelas que realmente aconteceram.

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Mulheres são o principal inimigo das mulheres.

por Fernando Lopes, 27 Set 15

A tasquinha onde costumo tomar o pequeno-almoço, é agora propriedade de uma senhora de cinquenta e muitos anos. Absolutamente inexperiente na área, apesar de alguns tropeções iniciais, consegui adaptar-se ao negócio. Mas até num pequeno negócio se conseguem identificar tiques patronais, as empregadas que a auxiliam nunca são suficientemente boas ou competentes.

 

Em meia-dúzia de meses já por lá passaram três. A última era uma rapariguinha de vinte e tal anos, muito bonitinha e elegante. Parece que tinha formação em hotelaria e andava por ali temporariamente. Percebia da área, era educada e simpática. Cometia o pecado capital de ser jovem e bonita.

 

Alguns empregados de serviços e construção civil a fazer obras no local cortejavam-na discretamente. Nunca vi faltas de respeito ou piadas fora de contexto, certo é que ao final da tarde se juntava um pequeno grupo masculino com um olho brilhante centrado na rapariga.

 

Apercebi-me que isso causava desconforto na mulher mais velha. Foi despedida ou despediu-se, não sei bem.

 

Mais uma vez tomo nota que as mulheres são o principal inimigo das mulheres, sempre numa competição pela atenção dos machos, ser a fêmea-alfa, mesmo quando tal não se justifica. Estará aqui por certo uma das razões de os homens terem mantido domínio social durante tantos séculos.

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Agora também deitas facas ao lixo?

por Fernando Lopes, 23 Set 15

7:20. Acordo e vou fumar um cigarro para o escritório. Cá em casa todos acordamos mal-dispostos, existe um acordo tácito para não trocarmos muitas palavras pela manhã. A minha mulher passa por mim com ar ensonado. Passado um minuto chama-me e diz-me a primeira frase do dia: Agora também deitas facas ao lixo? Assim, a  seco. Com as cascas de fruta tinha ido o utensílio. Estamos escravos de rotinas e tarefas. Certo é que saio às 7:55, vou levar a miúda ao colégio, regressando à escola às 18:45 para a trazer para casa. A minha mulher sai por volta das 8:00 e nunca regressa antes das 20:00. O escasso tempo que temos é para tratar de coisas práticas. Já compraste os cadernos da miúda? É preciso pagar o condomínio; Faltam-te medicamentos. Não sei quando é que nos deixamos aprisionar pelas grades da utilidade, certo é que tudo gira em torno do dia-a-dia. Não a culpo ou a mim, a culpa é de ambos e tem como madrinha a circunstância. Trabalha, paga as contas, toma conta da cria. Esta circularidade toma-me, toma-nos, conta do tempo e da vida. Provavelmente estaremos demasiado indiferentes ou demasiado velhos quando repararmos que este é um caminho sem retorno.

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Até nos momentos mais negros.

por Fernando Lopes, 21 Set 15

Todos temos um lado de luz e um de trevas. Uns são mais luminosos, outros nunca conseguem que a sombra deixe de pairar sobre si. Tentamos enganar-nos como se esse lado fosse menor, insignificante. Tornamo-nos actores em drama escrito pela própria mão. Frequentemente passo longos momentos no lado oculto da minha lua, numa estranha satisfação com a infelicidade, prazer masoquista em que o negro se sobrepõe à luz. Eufórico às vezes, deprimido outras tantas, o tempo ensinou-me a conviver com sol e chuva, luz e sombra, alegria e depressão. Mas até nos momentos mais negros se consegue antever raio de luz num céu toldado pelo cinzento.  

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Sinais de Outono.

por Fernando Lopes, 20 Set 15

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Enquanto na cidade se gozam os últimos sorrisos do Verão, no campo prepara-se a lenha para o frio que está prestes a bater à porta.
 

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 E os ouriços exibem luzidias castanhas.

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Numa festa, aparece um casal conhecido. Ele, companheiro de luta, jornalista, desportista, ex-boémio, actual pai de família. Ela é muito bonita, inteligente e extraordinariamente suave. Um doce, como se costuma dizer. Junta-se uma roda de amigos a comentar e celebrar a gravidez, saber novidades, apaparicar os futuros  pais.

Chega outro, já ligeiramente tocado, queda-se a apreciar as movimentações.

- Que é que fizeste? Engravidaste-a? Grande coisa, isso até eu fazia. E com gosto!

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UBER que vos pariu!

por Fernando Lopes, 17 Set 15

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Uma parte dos taxistas não pode ser classificada de outro modo que não de energúmenos. Foram bonitas as fotografias de colegas à estalada, grevistas a atirarem ovos aos que não fizeram greve. Tipifica a classe. Ainda há pouco queriam uma tarifa fixa para quem saísse do Aeroporto de Lisboa. Entendemos o porquê. Caros taxistas, tenho dificuldade em aturar a rádio Festival, o cheiro a cebola de alguns, o tema omnipresente da bola ou conversa sobre os políticos. Tenho pouca pachorra para o braço de fora, o rosário no retrovisor, os bancos emporcalhados,  os vidros que não descem, o ar condicionado desligado para poupar no gasóleo que EU estou a pagar. Ainda menos para as manobras radicais e manhosas que fazem frequentemente.

 

Os taxistas portugueses perdem em comparação com a UBER porque os carros são velhos, os percursos nem sempre os mais curtos, os taxistas raramente um exemplo de urbanidade e cortesia. Falta à esmagadora maioria da classe umas aulas de civismo, até de línguas. Num mercado global, a qualidade conta, e a UBER é muito melhor que os táxis vulgares. O vosso argumento das licenças é legítimo, mas meus caros, a maioria de vós foge de passar uma facturinha como o diabo da cruz. Se analisarmos as coisas, temo que a UBER dê mais receitas para o estado, uma vez que todas as viagens geram automaticamente factura. Portanto, até o vosso argumento do preço da licença cai pela base uma vez que a esmagadora maioria das vossas viagens não pagam os respectivos impostos. Chama-se a isso dar com uma mão e tirar com a outra

.

A greve foi prova da vossa estupidez, acabaram por fazer enorme publicidade à concorrência. E quem experimentou, dificilmente volta.

 

Quando passarem factura sem ser a pedido, lavarem os carros, se preocuparem com o conforto do passageiro e não se comportarem como estando na vossa sala de estar, talvez volte a usar táxis. Até lá, vou evitar-vos sempre que possível.

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Notas para uma filha.

por Fernando Lopes, 15 Set 15

Começas a ameaçar entrar na adolescência. Ora, tu não compreendes bem isto, mas um dos momentos que um pai mais teme é quando a sua filha começar a olhar para outros homens, ainda por cima com ideias libidinosas. Mesmo sabendo, o pai fica contristado quando dizes que o Luís Miguel da telenovela é mais giro que eu, mas só um bocadinho…

O moço até é bem-apessoado, não te posso acusar de mau-gosto, mas um pai nunca está preparado para o momento em que deixa de ser o centro das atenções da sua menina.

 

Temo o tempo já não muito longínquo em que apareças com o «Tó Zé» cá em casa, e o teu amado seja daqueles com a pala do boné para trás e calças à caga-na-saquinha. Para um pai, a sua menina nunca cresce, pelo menos não o suficiente para deixar de ser a sua menina. Criado num mundo de homens, em que o calduço era a forma de saudação mais suave, se bebiam gasosas de golada para ver quem dava o maior arroto, um dos desportos favoritos era pôr-se em cima de um muro e ver quem fazia chichi mais longe, se compravam cigarros avulso desde o ciclo, e se gamava no supermercado, o pai sempre viu as meninas como algo etéreo, a proteger, coisas frágeis e preciosas. Sei hoje que não é assim, que a maioria das mulheres são bem mais resistentes à adversidade, mais duronas que nós homens. Mas agora, ou daqui a cem anos, serás sempre a minha menina, o bebé que adormecia em cima da minha pança com Placebo aos berros.

 

Por isso peço-te humildemente que demores a entrar na adolescência o mais tempo possível. O mundo pode esperar por ti, eu nem por isso.

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