Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Divagações sobre francesinha.

por Fernando Lopes, 19 Jul 15

FullSizeRender.jpg

 

 

Num artigo do El Pais sobre a vinda de Sandra Carbonero, a francesinha é referida como a comida típica do Porto. Erro crasso do articulista, o nosso prato típico foi, é, e será, as famosas «tripas à moda do Porto» quer pelo seu valor gastronómico quer pelo seu peso histórico, que deu apelido a todos os habitantes desta cidade. A francesinha foi criada nos anos 50 por um ex-emigrante.

 

Trata-se de uma variante do celebérrimo croque-monsieur reinventado no restaurante «A Regaleira», onde a Rua do Bonjardim termina.

 

Até aos anos 80 era um prato de boémios, que se comia essencialmente no triângulo de cervejarias do Campo Alegre (Galiza, Gambamar, Capa Negra). Como prato de noctívagos destinava-se a energizar para o resto da noite, e não lhe era adicionado bife e batatas fritas. Era simplesmente composta por dupla camada de fiambre, salsicha fresca, mortadela, queijo e molho picante, pois o objectivo era ser um mata-fome barato.

 

A partir de meados dos anos 80, com o aburguesamento da sociedade portuguesa, a francesinha democratizou-se, e muitos que até então nunca tinham comido o petisco, começaram a fazer dele refeição. Acrescentou-se-lhe o bife e a batata frita, exigência de uma nova horda de consumidores que já não os jornalistas, estudantes, boémios, e gente da má vida em geral.

 

Em alguns locais (poucos) ainda se pode comer a francesinha à moda dos anos 80, i.e., sem bife.

 

Uma dos factores essenciais para uma boa francesinha é o pão bem torrado, para suportar o peso do queijo e não se esboroar perante a dose generosa de molho, que deve ser bem picante para puxar à cerveja e não esses molhos «amaricados» a saber a polpa de tomate que por aí se comem. É por isso que me dá vontade de me levantar e pregar um estalo aos pais de família, de fato de treino vestido, que se deslocam com a prole a comer francesinha e se queixam, como já ouvi, por estarem a usar pão torrado porque era «recesso» e querem um molho pouco picante para os anafados descendentes.

 

A democratização é muito bonita mas tem destas coisas: o que prevalece é muitas vezes o mínimo denominador comum. É a vida.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Feedback

  • alexandra g.

    Sem,de todo - que fique claro, ao contrário daquel...

  • Fernando Lopes

    CC, tem alguma razão, mas apenas lhe posso falar d...

  • Fernando Lopes

    O toque pode ser uma forma de exprimir afecto, pod...

  • Fernando Lopes

    Há uma fronteira, muito vezes ténue, entre corteja...

subscrever feeds