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Calibre 38.

por Fernando Lopes, 11 Mai 15

Recostou-se na sua cadeira de executivo, espaldar prolongado até à cabeça, e olhou pela janela. Do quinto andar do seu gabinete, virado para o cemitério de Agramonte, avista-se uma linha interminável de jazigos. Alguns barrocos, outros encimados de cruzes celtas, outros ainda ostentando a decrepitude de quem tinha gasto desmesurado dinheiro para mandar construir uma espécie de monumento à morte, onde os que lá se encontravam depositados aguardariam o momento igualitário de recepção dos outrora herdeiros.

 

Inclinou-se ligeiramente para a frente e abriu a gaveta na ponta esquerda da secretária. Retirou de lá um revólver calibre 38. Pousou-o à sua frente, e colocou a caixa de munições ao lado. Com um ligeiro toque do polegar, soltou o travão e fez cair o tambor sobre a esquerda. Rodou-o, ouvindo com prazer o rodar bem oleado daquela simples e eficaz máquina de morte.

 

Carregou com reverência, uma a uma, as seis munições, fê-lo rodar de novo, deu-lhe um toque breve e seco que o fez voltar à posição inicial com um estalido quase imperceptível.

 

Transportou o cano até à boca, e sentiu um arrepio no contacto frio com o metal. Carregar no gatilho seria demasiado fácil. Como que dotado de um instinto primário, abocanhou-o como os grandes tubarões brancos fazem ocasionalmente aos cascos dos navios. Toda a sua boca soltou um estranho ruído, a cedência dos dentes face à dureza do metal. Não sentia dor, apenas necessidade de morder. Pequenas lascas soltaram-se e cortaram-lhe as gengivas. O reflexo obrigou-o a apertar ainda mais. A boca era já uma amálgama de sangue, dentes e matéria mineral. Sentiu a língua solta, uma enorme quantidade de sangue. O cano furou o palato e ouviu um estranho silvo, o ar a preencher a cavidade nasal.

 

Resistiu ao reflexo de cuspir e deixou o sangue lentamente inundar-lhe os pulmões. Sabia que iria morrer sufocado e no entanto não abrandava a pressão ou cedia a deixar entrar ar. Recostou-se para trás, num gorgolejar de morte.

 

Na manhã seguinte, quando a mulher da limpeza o encontrou, todo o sangue tinha escorrido para o chão. Estava imaculadamente branco como uma figura de cera, dir-se-ia que exibia um sorriso trocista.  

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