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Esquecido por Deus.

por Fernando Lopes, 9 Abr 15

Quem ler as minhas crónicas campestres pensará no pacóvio citadino que vê poesia onde outros vêem escolhos. Gosto da montanha, gosto sobretudo das pessoas, mas sei bem que há mais lágrimas que poemas no dia-a-dia daquela gente que também é a minha, uma forma ancestral de mim. Vêm-me à memória as palavras de Pedro Homem de Mello, popularizadas por Amália no fado Povo Que Lavas no Rio: «Pode haver quem te defenda/ quem compre o teu chão sagrado/ mas a tua vida não.»

 

Lembro-me disso sempre que encaro com o homem minúsculo que vive à minha frente. É pequenino, com umas mãos proporcionalmente disformes, uma espécie de hobbit que trocou os pés gigantescos por mãos enormes. Usa sempre uma pequena boina e está sujo, não um sujo de não tomar banho, antes como se ele e a terra se tivessem fundido e fossem uma e a mesma coisa. A mulher padece de uma doença neurológica, perdeu o tino, mas ele não a abandonou, e em dias como o de hoje vejo-a numa cadeira a repetir uma lengalenga incompreensível.

 

O médico mais próximo está em Arcos a sete quilómetros de distância, hospital só o de Ponte do Lima a mais de vinte. Vale-lhe o apoio do estado social que os liberais pensam desnecessário e gastador. Uma carrinha de apoio domiciliário ajuda-o na higiene da mulher e providencia refeições ocasionais. Não está só, apenas esquecido por Deus.

 

O quadro campestre está pintalgado destes pequenos dramas, vidas que não são de se viver. Não passo de um estranho com quem partilham ocasionais angústias. Lampeja-me na memória a sentença do burguês, antropólogo e poeta: mas a tua vida não.

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  • Fernando Lopes

    As pessoas devem poder vestir-se como lhes apetece...

  • Henedina

    Nos EUA é McCartismo

  • Henedina

    Algum bom senso na indumentária?..'Humm

  • alexandra g.

    Sem,de todo - que fique claro, ao contrário daquel...

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