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Breve tipificação do utilizador do MB.

por Fernando Lopes, 30 Abr 15

Já todos nos deparamos em algum momento com um utilizador de MB que nos transporta para o seu mundo de manias. Embora existam muitos mais, tipifico apenas os casos mais frequentes:

 

- O desconfiado: é o sujeito(a) que não confia no anãozinho que dentro do MB distribui as notas. Segue uma coreografia programada; primeiro tira um talão com o saldo, depois faz um levantamento, e finalmente tira um novo comprovativo com os movimentos. É desconfiado, acha que até as máquinas o querem enganar.

 

- O atrasado: é o homem de aspecto irritante, que se coloca à frente do terminal com 10 contas para pagar. O cliente que se segue pode esperar. Paga a água, talão, paga a luz, talão, paga a TV por cabo, talão. Cioso do seu direito de usucapião ainda olha zangado se perguntamos se a coisa está demorada.

 

- O esperançoso: sabe que está teso como um carapau, mas tem esperança no jackpot. Mete o cartão do Millennium e nada, o do Montepio e nada, o do Santander e nada. Vai embora triste e deixando o boneco extenuado de tanto levantar os braços a dizer «Saldo Insuficiente>». Desloca-se a outro local, e como jogador viciado continua a tentar a sorte.

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Nunca serás meu.

por Fernando Lopes, 29 Abr 15

Monaco_chrono_Gulf_face_PR_.jpg

 

O único adereço que um homem pode usar sem amaricar é um bom relógio, talvez uns botões de punho. Obrigado ao fatinho e gravata numa base diária, associo os botões à minha gaiola dourada. Tenho apenas dois pares, de aço, simples e acessíveis. Adoro relógios, mas não tenho um verdadeiramente bom. Namorei o da foto acima, exposto numa ourivesaria em Júlio Dinis. Quando o fui apreçar mais de 4.000 euros nos separavam. A senhora era convincente, que podia levar e pagar 200 euros por mês, sem juros, que não precisava de contrato de crédito e o diabo a quatro. Tentei-me, mas racionalizei. Não tenho bolsa para uma peça de tal valor. Quer dizer, ter tenho, mas seria uma cagonice sem fim e como sabem sou um simplório. Ficou-me ligeiro travo amargo por não ser dono daquele objecto. Hoje, vi-o à venda por mais de 8.000 euros. Ficou-me a certeza que nunca irá ser meu.

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Já ameacei fisicamente uma freira.

por Fernando Lopes, 28 Abr 15

A história conta-se em duas penadas e fortaleceu a minha aversão a tudo o que seja padralhada, freirame e quejandos. Há uns anos a minha mulher teve de ser operada de urgência ao apêndice com uma peritonite. No dia seguinte obteve consentimento do médico – um velho amigo da família – para tomar um banho ligeiro. Coloquei um banquinho no chuveiro, acompanhei-a com todo o cuidado, e com uma esponja, procurando não humedecer o penso, dei-lhe a desejada lavagem. Será desnecessário dizer que estava preocupadíssimo e cauteloso.

 

Surge-me do nada uma freira de capacete azul – as outras usavam-no branco – meia histérica, a dizer que ela é que tinha que dar banho à minha mulher, eu não estava autorizado. Percebi que estava relacionado com pudor e não com questões clínicas ou incapacidade minha. Passei-me com a madre superiora ou lá que raio era.

 

- Ou a senhora se põe imediatamente daqui para fora ou esqueço que é mulher e enfio-lhe um murro. Daqui para fora, já!

 

Colérico, olhos vermelhos de sangue, se argumentasse levaria a tareia da vida dela. Resmungou entre dentes, ameaçou que ia fazer queixa e saiu. É preciso ser mentecapto para julgar que poderia pensar em sexo num momento delicado como aquele.

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Razões de sangue.

por Fernando Lopes, 26 Abr 15

Sempre me senti um enjeitado; explica-se o facto por não ter sido criado pelos meus pais, antes deixado ao cuidado dos avós. Fui excelentemente tratado, uma infância preenchida pela melhor mulher do mundo, que me amou e cuidou como nenhuma até hoje. Debaixo de um modo rude, agressivo, por vezes temerário, outras auto-destrutivo, ficou o trauma de ser um filho «abandonado». Nunca o perdoei. Como nunca perdoei o facto de o pai me ter destruído o sonho de toda uma juventude ao prometer-me um moto e rapidamente se ter esquecido disso. Ambos eram absolutamente centrados em si mesmo, sempre foram assim. Serem pais foi algo que fazia parte da época, não um apelo profundamente sentido. O pai, por dever de ofício, era obrigado a deslocar-se com frequência a Londres. Recordo bem o ataque de ciumeira da mãe quando foi preterida numa viagem a Inglaterra, em que com 17 anos fui convocado para acompanhar a figura paternal. As palavras que mais me chocaram, mais dor e desilusão me causaram, foram-me ditas pela mãe. Por isto e mais, nunca fomos propriamente íntimos. Nem somos. E no entanto, agora que a vejo hospitalizada, preocupo-me profundamente. Está a reagir bem, certamente sairá airosamente desta. Racionalmente devia ser-me indiferente. Não o é. Um ataque de preocupação filial não estava nas minhas previsões. Talvez em momentos de crise o sangue fale mais alto que a razão. Não sei se é bom ou mau, é simplesmente assim.

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«Lixado» a qualquer hora.

por Fernando Lopes, 24 Abr 15

lixados.jpgO Filipinho e os negócios de lixo

 

A fúria privatizadora há muito atingiu todos os sectores da nossa sociedade. Existe a presunção, certamente comprovada por valorosos estudos encomendados, que qualquer cão e gato do privado faz melhor e mais barato que o público.

 

Passou-se com os lixeiros, que no Porto há muito passaram para uma empresa privada de seu nome SUMA. Em tempos idos a recolha do lixo em camiões era feita preponderantemente à noite. Conheço até um pequenote que sonhava ser lixeiro só para poder sair tarde e a más horas. Acabou licenciado em Gestão.

 

Hoje, a recolha do lixo é quando a SUMA quiser. Já acordei às 6:00 com um camião que fazia um barulho semelhante a um tremor de terra, a despejar centenas de garrafas bem por baixo do meu modesto 3º andar. Porto, Damião de Góis, 8:40 da manhã. Um desses veículos ocupa uma faixa de trânsito a fazer carregamento de lixos vários, entupindo uma artéria já de si frequentemente congestionada.

 

Em verdade te digo pancrácio Presidente da Suma, com o meu feitio bilioso, se um dia te apanho a jeito, levas um murro nas ventas.

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Got a sinking feeling they don't care...

por Fernando Lopes, 23 Abr 15

A negligência da Europa, que resulta em não salvar as vidas de milhares de migrantes e refugiados que enfrentam o perigo no Mediterrâneo, é semelhante à de bombeiros que se recusam a salvar pessoas que saltam de uma torre de inferno de chamas. E a responsabilidade dos governos tem claramente de ser não apenas em apagar o fogo mas também em salvar aqueles que saltaram do parapeito.

 
John Dalhuisen 

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Literatura.

por Fernando Lopes, 22 Abr 15

A boa literatura é a que esmaga, envolve, nos faz entrar dentro das palavras e torná-las nossas. Ficcionada ou não, faz-se parte de nós, abre portas que julgávamos fechadas, dá respostas a perguntas que pecavam pela inexistência, descreve de forma perfeita o que sentimos mas não fomos capazes de colocar em palavras, põe-nos imagens na cabeça, transforma-se em parte integrante das nossas experiências mesmo que as não tenhamos vivido.

 

Um bom livro é uma bofetada na existência, despertar do torpor, frio que corre na espinha, bebedeira que contagia. É andar no comboio do Douro com a cabeça de fora, fumar ópio em Hong-Kong, participar numa orgia em Los Angeles. É apaixonar-se por quem não nos quer e sofrer com isso, participar em batalhas como um herói, ser carne para canhão num pesqueiro no fim do mundo, encarnar a perfídia de um anão.

 

Sem ela, a literatura, o mundo seria infinitamente mais triste, a humanidade mais pobre.

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Estou sem pio.

por Fernando Lopes, 21 Abr 15

Não esperava que o Porto passasse a eliminatória, mas tinha uma pequena esperança que se dissipou num instante. Cinco secos só na primeira parte era algo de que me não recordava. Caros benfiquistas e sportinguistas saboreiem o momento, que isto não acontece com frequência. Vim escrever isto só para escapar ao sofrimento, por isso aplaudam o Bayern baixinho s.f.f.

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Um dos sons

por Fernando Lopes, 20 Abr 15

malas com rodas.jpg

 

que enche a minha cidade é aquele tron tron tron das rodas das malas na calçada. Enquanto não virarmos atracção circense como Veneza, enquanto convivermos lado a lado com os turistas sem por eles sermos esmagados, será um som bem-vindo.Uma homenagem especial a Bernard D. Sadow, que inventou em 1970 e patenteou em 1972 as malas com rodas. Uma ideia tão brilhante e tão simples que não se entende como demorou séculos a surgir.

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700

por Fernando Lopes, 19 Abr 15

refugiados.jpg

 

O número choca não pela enormidade de vidas perdidas mas pelas esperanças que com elas naufragaram. A europa – assim, com letra pequena – do bem-estar e do estado social manifesta-se incapaz de apoiar esta vaga de refugiados de guerra, e é disso que se trata. Nenhum comissário, dirigente, líder europeu, se pode dizer impotente nesta UE que subsidia vacas e se manifesta indiferente perante vidas humanas. Aprendi que neste continente as tragédias são gradadas em função da cor da pele das vítimas. Que 100 mortos loiros valem mais que 1.000 africanos vítimas de ébola ou 700 árabes fugidos.

 

Eu, que pela morenitude da pele, pelo castanho esverdeado dos olhos, certo estou que sangue moiro me corre nas veias, só vejo pessoas. As que fogem da guerra e as outras, sentadas nos seus sofás, comando de TV na mão, indiferentes à morte alheia.

 

Duas ou três linhas nos jornais, nada mais. Enquanto seres humanos, solidários e empáticos, já estamos todos mortos, só ainda não reparamos no funesto evento.

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