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Não vou chorar se não chorares.

por Fernando Lopes, 2 Jan 15

São 3:30 da manhã e vejo-me à porta do velho alfarrabista, agora bar. Espreito pela porta e inspiro a penumbra. Ao balcão aquela rapariga bela e estranha; bonita, elegante, transformou-se numa figura peculiar. Rastas, piercings, braços totalmente tatuados, colocaram-na num universo paralelo em que poderia ser o que quisesse: modelo, rastafári, filha perdida de um maori. Assim que os olhos se habituam à escassez de luz olho para as mesas do fundo. Resplandeces, como coroada por um brilho invisível. Aproximo-me de ti e beijo-te a face do modo mais suave de que sou capaz, os lábios a tocarem-te de um modo quase imperceptível.

 

O tempo foi clemente contigo. À parte umas pequenas rugas nos cantos dos olhos continuas incrivelmente bela e suave. Observo melhor e essas rugas tornaram-te ainda mais bela, como toque final do retrato de um mestre renascentista.  

 

Podíamos falar de amigos e paixões antigas, reescrever memórias de amor, mas as nossas vidas são um poço dos desejos que secou, uma história qualquer que lemos num livro. Amor é saudade, dor, tempo que não pára. Amo-te como sempre te amei, mas o comboio da vida, por tragédia ou destino, não parou no nosso apeadeiro.

 

Tiro dois cigarros do maço de Pall Mall, acendo o primeiro e coloco-o nos teus lábios. Não há surpresa ou asco nos teus olhos, apenas melancolia. Entre a neblina de fumo beijo-te apaixonadamente. Sinto os teus lábios quentes nos meus, eternizo aquele momento como se fosse o último. O meu único amor. Levanto-me e saio.

 

Não vou chorar se tu não chorares.

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