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2015

por Fernando Lopes, 31 Dez 14

Os ocidentais comemoram hoje a o último dia do ano ou o início do novo, não sei bem. Há quem se entusiasme e veja no mover dos ponteiros do relógio uma oportunidade de renovação. Estes, movem-se inexoravelmente, ignorando sonhos, derrotas, tragédias, vida e morte. Cumprem a sua função e simplesmente avançam. O tempo ensina-nos a moderar promessas e entusiasmos. 2014 não foi um ano bom ou mau, apenas mais um no calendário das nossas vidas. Na meia-noite não estarei particularmente melancólico ou eufórico, apenas observarei o tempo passar. Suponho que será comum a muitos entusiasmarem-se cada vez menos com celebrações com dia e hora marcada. Celebrar a vida, o tempo, o novo ano, pode ser simplesmente apreciar um dia de sol, um mergulho na praia, o cantar de um pássaro, um livro, um beijo apaixonado, café da manhã e pão com manteiga, um abraço amigo. Escravo do tempo não sou. Vou estar refastelado a vê-lo passar, sem pressas ou angústias, deixando-o fluir e apreciando os pequenos e grandes prazeres que a vida nos dá. Para os que ainda vivem o sonho ingénuo de que tudo pode ser diferente, abraço-os e que todos os seus desejos se concretizem.

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O destino como titereiro.

por Fernando Lopes, 29 Dez 14

Embora seja de trato fácil, frequentemente bem-disposto e expansivo, não sou do género de fazer amizades com facilidade. Provam-no o núcleo duro, exposto a 44 de anos de convívio, partilha, glória e derrota conjuntas. Vidas repartidas desde o banco da escola, onde a sinistra mestra utilizava métodos hoje considerados bárbaros, outrora glorificados pela eficácia: violência e medo. Aprendemos à chapada, reguada, palmatória, sempre temerosos. Uma hierarquização militar, em que um simples verter de águas era ordenado: a fila tinha à frente os da 4ª classe, 3ª e assim sucessivamente. Até para o xixi havia hierarquia. Mais que o medo, uniu-nos a capacidade de resistência à adversidade, tornando-nos uma espécie de companheiros de armas, em que, nos momentos verdadeiramente adversos se usa a táctica romana do quadrado para que nada penetre nesta relação indestrutível.

 

A vida conduziu naturalmente à diversificação de relações, a novos amigos, sempre preservando os que comigo sobreviveram ao longo round que foi a escola primária. Ocasionalmente estacionam no meu coração uma ou outra alma. Aquelas a que quero verdadeiramente e que não são originárias nesse momento de encantamento, descoberta e angústia que é a infância, contam-se pelos dedos de uma mão. Entre eles duas mulheres bastante mais jovens e o ex-marido de uma delas.

 

E no entanto, entre os telefonemas da quadra – prefiro falar com as pessoas a mandar emails ou SMS – o que mais me tocou foi de um tipo com quem conversei uma única vez. Admiro-lhe a inteligência, cultura, o modo pausado, a capacidade de ignorar convenções ou conforto. Uma sensação estranha de que sempre fez parte do meu mundo, senão do real, do imaginado. Aquele que obviamente seria meu amigo, com quem se partilham vitórias e amarguras. Como se a mão de um titereiro invisível manipulasse o destino e juntasse esta dupla improvável na partilha de um dos mais nobres sentimentos: a amizade.

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Química.

por Fernando Lopes, 28 Dez 14

Todos os homens, dos 10 aos 90, reagem organicamente perante uma mulher bonita. O coração acelera, existe uma ligeira sudação das mãos, as palavras entaramelam-se, surge um ligeiro ardor na boca do estômago. As mais das vezes tentamos fazermo-nos engraçados, indiferentes, cool. Com o tempo habituamo-nos a viver com estas incomodidades, mas estão lá, sempre presentes. Acho que é a isto que se convencionou chamar «reacção química» ao sexo oposto.

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Acção Poética (I)

por Fernando Lopes, 26 Dez 14

Poetizar_1.jpg«Son Tus Labios Mi Frontera»

Acción Poética Tucumán

Deixado no café de fumadores do Centro Comercial Cidade do Porto

Poetizar_2.jpg

«Isto não é um mero cartão, mas sim um apagador de tristezas sem prazo de validade»

bloga-mos

Deixado numa árvore, Rua da Constituição, junto ao Café Poeta
Permanece intocado, preso à árvore.

Poetizar_3.jpg

«Sem um amor não vive ninguém. Pode ser um amor sem razão, sem morada, sem nome sequer. Mas tem de ser um amor. Não tem de ser lindo, impossível, inaugural. Apenas tem de ser verdadeiro»

Miguel Esteves Cardoso

Deixado num banco de jardim da rotunda da Boavista

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Carta à minha filha pelo Natal.

por Fernando Lopes, 23 Dez 14

Amanhã seremos sete à mesa. Cinco adultos, uma adolescente, e tu, minha filha, ainda uma criança. Porque não acredito na filosofia «tudo se cria», não te pude dar o presente que merecias, que merecíamos, uma família alargada. Sempre pensei que os pais deviam proporcionar o melhor aos filhos, superando a geração anterior, senão em talento, pelo menos em condições para que possas crescer preparada para o mundo hostil que te rodeia. O melhor que te posso oferecer é educação, o mais que te posso ensinar é o respeito pelos outros e carácter. Os bens materiais são apenas um meio para um fim, por isso te comprei o MP4 que pediste. Um meio para que aprendas a amar algo quase sagrado, a música. E lembra-te, mais importante que os presentes é o que podemos aprender com eles. Antes de tudo ama. Ama as pessoas, a arte, os livros, o semelhante e o diferente, a alegria e a dor. Tudo isto fará parte da tua vida. Aprende a caminhar com a cerviz direita, a aceitar o que não compreendes, a tentar entender o que te é estranho. O melhor presente te posso dar é o meu amor e esse já o tens de modo incondicional. Feliz Natal, Tilucha.

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O rei Wolof.

por Fernando Lopes, 21 Dez 14

A primeira vez que o vi olhava fixamente para o homem das castanhas. Tem o aspecto de um velho patriarca Wolof, mais de um metro e oitenta, carapinha grande e cinzenta, olhos muito abertos, uma velha gabardina bege, suja e gasta. Uma figura imponente com um ar lunático, não conseguimos perceber se por detrás daqueles olhos imensos e arregalados está o pasmo, a loucura, ou um bocado de ambos.

 

Imaginei-o um rei senegalês, desterrado para uma terra fria e estranha, povoada por gente morena e baixinha onde se sentia alienígena. Como os wolofs antes dele, tinha migrado África abaixo, fugindo à desertificação, ao sirocco que tudo queima. Tinha sido um rei com muitos filhos, lutador incansável como Battling Siki, agricultor e pescador respeitado. A guerra de Casamansa tinha-o trazido para a Europa, um refugiado de guerra sem estatuto, caminhante perdido no velho mundo.

 

No saco plástico que o acompanhava trazia ar quente de África, cheiro a terra húmida, pós e unguentos maravilhosos, como se a essência de um continente estivesse ali miraculosamente armazenada. Neste soba vi a África que me inunda os sentidos e a saudade, porque nascido neste país pequenino, por razões que eu mesmo desconheço, sou na alma um bocado africano.

 

Hoje, os castelos no ar que construi à volta desta personagem sofreram um sério abalo quando o vi caminhar, ébrio e frágil, para o albergue da Rua dos Mártires. Vou esquecer este momento e continuar a sonhar com o rei Wolof.

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Coisas na parede.

por Fernando Lopes, 20 Dez 14

trindade.jpgLateral do parque de estacionamento da Trindade, Porto

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Elas, sempre elas.

por Fernando Lopes, 19 Dez 14

Bukowski.jpgImagem recebida por mão amiga

 

A imagem ancestral de um homem da idade da pedra arrastando a sua amada pelos cabelos não podia ser mais desadaptada dos tempos que correm. Há muito que, nas relações amorosas como em tudo o resto, têm elas a palavra final.

 

Está o meu amigo apaixonado? De nada adianta se ela disser NÃO. Gastou o candidato a sedutor uma fortuna no jantar e flores tentando levá-la para debaixo dos lençóis? Provavelmente vai dizer, NÃO. Tentou descobrir quais os aromas que a seduzem, perfumou-se até nas zonas íntimas, e foi mal-sucedido? Normal. Desfez-se em citações dos seus autores favoritos, procurou descobrir de que pintores ela gosta, decorou poemas de amor? De nada vale.

 

Elas, sempre elas, são detentoras do poder de aceitação ou recusa. Ensinou-me a experiência que poucos amores duradouros vingaram pela insistência masculina. O conquistador – e existem – pode ser senhor de uma noite, de uma semana ou mês, mas nunca conseguirá morada permanente no coração de uma mulher. São as mulheres que nos conquistam, nunca o contrário.

 

Assim, se estás apaixonado, sê cortês mas distante, dá-te ares de gato vadio, insinua-te e depois faz-te de parvo. É muito mais eficaz conquistar o teu amor dando-te ares de «não estou nem aí». Se ela não te convidar, não te tocar de modo ténue, não demonstrar interesse pelas tuas bacoradas, desiste, não é mulher para ti.

 

Podes seguir estes desgraçados conselhos e dar-te mal. Acontece. Ensinaram-te que nem sempre se pode ter tudo o que se deseja quando eras pequeno, não foi? Era verdade então, é verdade agora. E lembra-te, as mulheres são como os autocarros, ficamos furiosos quando perdemos um, esquecendo-nos que logo a seguir vem outro.

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Resumo do dia.

por Fernando Lopes, 18 Dez 14

iwdrm.gif"Woke up, felt like shit. Went to work, felt like shit."

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