Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Não peço muito.

por Fernando Lopes, 22 Nov 14

Não peço muito. A frase, ouvida entre a morte do Botas e a desbotada Primavera do Marcello. Poderia exprimir uma humildade ou frugalidade sentidas, na verdade é um manifesto à resignação. Aquando dos desejos para 2014, um dos mais recorrentes era «manter o emprego». Três anos de austeridade, desemprego, humilhação, ajudam a quebrar uma já frágil auto-estima colectiva. A gente já não sonha, não se indigna, já só quer trabalhar, ter comida na mesa, ir ao restaurante uma vez por mês ou num aniversário. Quem podia fugiu, restaram os incapazes e os que os exploram, ridicularizam e humilham numa base diária. Mea culpa, mea maxima culpa. Restaram abutres, sobrevoando a carniça em círculos cada vez mais apertados, e nós, os animais assustados que empurramos os despojos para os bicos dos necrófagos. Restou uma imprensa económica que abraçou a austeridade, flagelou um povo simples e humilde endividado maioritariamente pela compra de casa própria, e continuou subserviente a lamber o rabo aos poderosos. Restou a revolta de meia-dúzia de cretinos como eu, que com uma arma na mão hesitariam entre «limpar» a assembleia da república ou acabar com a sua miséria dando um tiro nos cornos. Mea culpa, mea maxima culpa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Feedback

subscrever feeds