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Tipo de família.

por Fernando Lopes, 11 Nov 14

Encontramo-nos no bar do costume, pouca luz, copos vários, conversas livres, onde o fumo sobe azul e livre como num feitiço de xamã. O primeiro que te vi foram os cabelos, longos, loiros, lisos, enquanto cumprimentavas o Manel sentado a meu lado.

 

O acaso colocou-nos frente a frente. Olhos azuis translúcidos como pedras preciosas, sorriso franco, pele clara sem ser branca, dentes pequeninos e certinhos, um batom rosa a dar-te um ar delicado e infantil. E falámos. Falámos dos teus projectos de escultura orgânica, dos lugares que visitamos e gostávamos de conhecer, do Stonehenge, de bares e música, relações falhadas, tudo de forma quase pueril.

 

Estávamos só nós, o resto tinha deixado de existir, sequer de fazer sentido.

 

Colocaste a tua mão, os dedos longos e finos sobre os meus e disseste:

 

- Gosto de ti.

 

Não foi um gosto de ti qualquer, havia nele promessas futuras.

 

Expliquei que o teu interesse, carinho, me deixou, como deixaria qualquer outro homem, nas nuvens. Mais que tudo sentia-me lisonjeado pelo interesse de uma mulher tão jovem, tão bonita, que via o rapaz escondido atrás dos cabelos brancos.

 

- Sabes, podia apaixonar-me por ti com facilidade, pela tua frescura, frontalidade. Talvez o devesse fazer. Mas sou um tipo de família, ladro muito mais que o que mordo e não seria justo para ti, para mim e para os outros.

 

Beijei-a na testa, um beijo longo, que não era paternal, antes ternura em estado puro e saí para a rua.

 

As andorinhas estavam a terminar o seu festim de fim de tarde, sabia que era tempo de voltar a casa.

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