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A D. Guidinha já não vem à rua.

por Fernando Lopes, 9 Nov 14

Lembro-me dela desde sempre. A D. Guidinha, viúva de um militar da G.N.R., pequenina e redondinha, saia-casaco, cabelo de caracóis a apontar para o céu, olhos castanhos-claros, passos curtos e apressados, saco do Pingo Doce com as compras do dia, sorriso sempre disponível para amigos e vizinhos.

 

Trabalhava numa retrosaria de Cedofeita, com não mais de 5 metros quadrados, entre fios, lãs e agulhas, a complementar a pensão de viuvez. Vive num terceiro andar, ali em Cedofeita, e num dos meus passeios encontrei a sobrinha e afilhada.

 

Contou-me que a D. Guidinha já tem enormes dificuldades em subir e descer as escadas e só em ocasiões especiais, acompanhada, desce à rua que já foi sua. Encarrega-se a sobrinha de lhe levar as compras do dia, descer com ela para a acompanhar ao médico ou levar junto da família no Natal.

 

Olhei para cima e ela lá estava, à janela, que agora é a sua vitrina para o mundo. Pareceu reconhecer-me, disse-lhe adeus e soprei um beijinho. Mortificado, porque provavelmente será o último beijo que darei a esta mulher, prisoneira na sua casa.

 

Cedofeita era um lugar mais feliz quando por lá saltaricava e sorria a D. Guidinha.

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