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Da indiferença.

por Fernando Lopes, 31 Out 14

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Uma empresa decidiu oferecer uma espécie de «casa de cartão» aos sem-abrigo. A ideia divide-me. Não negligenciando os aspectos práticos da coisa, parece-me uma forma simples de aliviar consciências, como se um cartão alguma vez fosse abrigo digno para um ser humano.

 

Certo é que existem, e ocasionalmente me deparado com um destes resguardos na Rua Júlio Dinis. Cobertores e alguns parcos haveres estão ali armazenados, junto a uma das inúmeras lojas abandonadas, que entretanto iniciou obras para ser reocupada por um negócio que em breve será mais uma falência.

 

Ouviam-se marteladas e a água corria debaixo da porta da loja para a «casa de cartão», molhando o peculiar domicílio. Hesitei entre bater à porta e alertar os trabalhadores ou afastar o abrigo da água. Como estava sozinho, para não correr riscos de ter de me haver com alguns matulões, resolvi deslocar o cartão. Não foi a coisa mais corajosa do mundo, mas a solução possível sem ter de me sujeitar a andar à pancada.

 

Depois, reflecti na minha cobardia, na da sociedade em geral, na dos que tendo emprego ignoram os que têm menos sorte. Enoja-me ser assim, enoja-me esta sociedade que tudo tolera, enoja-me a indiferença dos transeuntes, dos operários. Chegamos a um ponto em que, em modo de sobrevivência, apenas o nosso pequeno mundo parece ser importante. Não sei se há retorno deste estranho local aonde chegamos, onde o outro nos é indiferente. Afastar as coisas e sair dali foi uma das maiores vergonhas que me autoinfligi.

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