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A menina que ia sozinha para a pré.

por Fernando Lopes, 19 Out 14

Hoje já quase não se vêem crianças, mochila às costas, a ir para a escola. Recordo-me bem do dia em que a avó me levou ao primeiro dia de escola, ensinou o caminho. Fê-lo duas ou três vezes. A partir desse momento estava por minha conta. O percurso, embora longo, só implicava atravessar a Rua dos Bragas com paragem obrigatória na confeitaria do Neves, para abastecimento com uma bola de Berlim.

 

Mas às vezes levamos um soco no estômago da nossa infância protegida, despreocupada. Há tempos, falando de crianças, uma rapariga de trinta e poucos anos, contou-nos que na localidade onde habitava, na zona de Aveiro, ia sozinha para a pré. Com quatro anos. Regressava a casa para o almoço e retornava ao infantário. Sempre só. Assumiu esta bizarria com ar de pretensa normalidade, mas os olhos negavam-no. A mãe era doméstica, mas não possuía o tempo ou empenho para a acompanhar. E isso dói, dói para a eternidade, mesmo que o tentemos negar. Não me atrevo a imaginar a solidão que acompanhava essa menina. Já mulher, enquanto os lábios diziam uma coisa, o rosto mostrava outra. Ia sozinha para a pré.

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