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Ocasionalmente, este coração empedernido, comove-se. Não com histórias de amor grandiosas, daquelas que dão livro e filme, carregadas de erotismo, corpos perfeitos e libidos insaciáveis. Vidas como a do Joaquim e Maria, pacatas, de gente humilde, simples, mas em quem arde inextinguível o fogo da paixão.

 

Foram namorados de infância e juventude em tempos em que o amor, como o conhecemos, era fruto proibido. Joaquim era carpinteiro, exuberante e um bocado boémio. Os pais de Maria não viam nele um futuro para a filha. Quando este foi prestar serviço militar para a Guiné, logo a convenceram de que não retornaria vivo, ou, no caso improvável de tal acontecer, regressaria ainda mais pobre do que tinha abalado.

 

No intervalo da separação forçada, começou a ser visita de casa o Manuel Costa, empregado no Banco Fonsecas & Burnay, moço com alguns estudos, de fino trato e ambições a gerente. A distância corrói a paixão como o metal é consumido pelo ácido. Maria cedeu e acabou casada na Igreja do Bonfim.

 

O ex-militar passou tempos como cão sem dono, gastando aqui, embebedando-se acolá, sendo salvo da sua solidão por Maria da Fé, viúva de peito generoso, pensão certa e tendência para acolher desvalidos. Viveram juntos por décadas, sempre sobre a sua asa prudente e piedosa.

 

Maria enviuvou, Joaquim viu-se também sem a companheira protectora. Encontraram-se por acaso, numa loja modesta da baixa, e logo ali retomaram conversa como se não a intervalasse três décadas de separação. Contra conselhos de filhos e netos, resolveu a mulher do ex-bancário viver com Joaquim. A pensão de viuvez e as modestas poupanças do carpinteiro eram suficientes para uma vida digna.

 

Contam a história como se o seu reencontro fosse uma inevitabilidade, mão na mão, olhos tranquilos, sorriso doce e cúmplice. Há sempre uma segunda vida para o verdadeiro amor.

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