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Pode parecer estranho escrever algo não para quem não nasceu, mas para quem não se sabe se irá nascer. Este vosso avô é um tipo peculiar. Escrevo-vos porque me dei conta que ao ser pai tardio dificilmente vos irei conhecer, brincar convosco, levar-vos ao parque da cidade para ficarmos ali, em silêncio, ao pé do lago, ouvindo o coaxar das rãs. Ocasionalmente o avô é dado a estas epifanias. Só quero dizer-vos que espero que o mundo que vos deixo seja melhor que o que me deixaram. Foi assim com o meu pai e avô. Se a genética for uma ciência confiável, herdareis de mim grandes angústias e momentos sublimes, tereis a noção que nesta bola azul, coexistem o mais nobre dos caracteres e o mais vil dos homens, a beleza e a fealdade, a glória e a tragédia. Não vos sei explicar porquê, mas são assim o mundo, a natureza, os homens. E isso é bom. Este que vos olha do passe-partout existiu em carne e osso, amou e foi amado, viveu com a maior dignidade que lhe foi possível. Não tem lições para dar, conselhos solenes, estórias que mereçam ser contadas. Andou por aqui a fazer o melhor que lhe foi possível, esforçando-se por ser humano, empático, coerente. Se abraçarem estes valores simples que ensinei à minha filha, vossa mãe, o homem da fotografia, vosso avô, ficará feliz porque já fez um bom trabalho. E isso é bom, mesmo muito bom. 

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