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Fonte: observador.pt

Nunca fui grande leitor de comics. A minha geração lia os sempiternos Tintin, Astérix, Lucky Luke, Spirou, a produção europeia em geral e franco-belga em particular. Comprávamos a revista Tintin que trazia histórias em continuação. Os fascículos eram depois encadernados em volumes de vinte seis e colecionavam-se álbuns, versão mais cara com a aventura completa. Olhando para a estante à minha frente localizo três volumes do Tintin, o Jornal do Cuto, Flecha 2000 e Jacaré, tudo encadernado como mandavam as leis da época. Os comics americanos eram importados do Brasil, numas revistas coloridas, pequeninas. Foram essas edições que, em Portugal, divulgaram heróis como Super-Homem, Hulk, Homem-Aranha, Thor, O Demolidor, Surfista Prateado e muitos outros que se tornaram familiares das massas através de produções cinematográficas nas últimas décadas.

 

A América e a sua obsessão pelo «politicamente correcto», invadem-nos por todo o lado, numa fúria regulatória sem fim à vista. Comer gorduras, fumar, beber bebidas alcoólicas ou dar uma palmada no rabo de uma criança birrenta, transformaram-se em crime de lesa-pátria. Todos formatados, todos iguais, com os mesmos valores e hábitos, numa sociedade cada vez mais orwelliana.

 

Esta paranóia chegou agora do mundo da BD americana. Leio que Thor vai ser mulher e o Capitão América preto, ou melhor, afro-americano. Sempre respeitei as mulheres, nunca fui racista. Aliás, acho mais sexista usar «pessoa do sexo feminino» que mulher ou «negro» em vez de preto. Os eufemismos não passam disso mesmo, formas de suavizar a língua, tornando-a asséptica. Nunca nenhuma mulher ou preto se zangaram comigo por os ter definido assim. Um mundo às avessas em que o pensamento único se insinua até no mundo da banda desenhada. 

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À minha volta.

por Fernando Lopes, 18 Jul 14

Surpreendem-me as famílias felizes, funcionais e organizadas, o carteiro equipado à verão e as suas bermudas cinzentas, a tipa que vocifera para o namorado no meio do café, o idoso de rabo-de-cavalo, a cinquentona de vestido curto e justo a exibir dobras de banha, o artista que pinta no meio do chão, a peixeira, a mulher que vende fruta na saída do metro, a brasileira que distribui o jornal gratuito, os preços da loja de luxo, o tipo no carro ao lado a meter o dedo no nariz, os bêbados à porta da tasca, as putas velhas, as viúvas e o seu lanche na confeitaria.

 

Tudo à minha volta é motivo de admiração, pasmo, encantamento. Imagino-me um peixe num aquário em que os humanos são o único fundamento de observação. Queria ser indiferente, não olhar, não ser tocado por quem nunca mais verei. Calhou-me em sorte esta triste sina de gostar de pessoas.

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