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E o culpado sou eu?

por Fernando Lopes, 1 Jul 14

Sem querer fazer concorrência ao pai de todos os pais, aquele que tem quatro filhos, que debita prosa de feição liberal no «Público» e no entretanto discorre sobre os benefícios da palmada, eu que não vivi acima das minhas possibilidades e modestamente apenas reproduzi uma vez embora tenha executado inúmeros ensaios, também sou pai, e sei o embarrancados que ficamos quando queremos exercer pedagogia sem para isso termos a preparação científica, ou melhor ainda, saber de experiência feito.

 

Rotunda da Boavista, festividades São Joaninas. Como prometido levo a Matilde à feira. Fazemos aquelas coisas patetas que pais e filhas fazem como jogar matrecos (matraquilhos é lisboetagem), andar nos carrosséis, tentar ganhar peluches com umas gadanhas que nunca agarram a ponta de um corno, enfardar farturas e por aí fora.

 

No regresso a casa um sem-abrigo dormita na soleira de uma porta. Aproveito o momento para exercer pedagogia de esquerda e falar sobre as desigualdades, a sorte que temos em ter uma casa, comida e dinheiro para as nossas brincadeiras. O estafermo da criança, que certamente derivará numa terrível esquerdista, desata a chorar e a gritar que não tem culpa. Tentei explicar-lhe que a culpa é de todos e de ninguém, e a haver um culpado certamente terá um nome que termina em Espírito Santo. Bem feito para não me armar em defensor dos pobres e oprimidos, coisa completamente fora de moda nos dias que correm. Não têm pão, que comam brioches.

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