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Tapear.

por Fernando Lopes, 31 Jul 14

Ontem comemorava anos de casado. 21. Como é tradicional entre os portugueses, não há celebração sem comida, decidimos pois, ir jantar fora. Sabem as almas regulares do purgatório que não sou admirador de inovações gastronómicas; cozinha tradicional portuguesa é mais que suficiente para me manter satisfeito e anafado. Por sugestão da mulher que me roubou o coração fomos a uma espécie de «taperia». Entrei a medo, pouco dado a experimentações, acabei convertido. O local, na Rua do Almada, tem decoração agradável e serviço simpático. Praticamente em frente ao «Cão Que Fuma», um clássico, muito aclamado pela elite intelectual e artística da cidade. Concluo que nem nos manjares tendo ao intelectual, pois ainda estou para descobrir o que é o «Cão» tem de especial ou inovador. No nóvel estabelecimento, experimentámos alheira em cama de grelos com ovo de codorniz, timbale e umas tradicionais moelas. Nada de estrelas Michelin, nem esse é o objectivo do local, apenas um sítio agradável para um copo de fim de tarde enquanto se petisca uma mistura de tradicional e moderno. Não é barato nem caro, a clientela é heterodoxa, um dos encantos do bar-taperia. Até um ser rude e empedernido é passível de aliciado para novas formas de sabores tradicionais, haja o saber para ser bem-sucedido nesta hercúlea tarefa. 

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E o cuzinho lavado com água de malvas, querem?

por Fernando Lopes, 29 Jul 14

 

Antigamente as bicicletas eram coisa de pobre, de operário da construção civil, sobretudo. Os que andavam a pedal ambicionavam conduzir uma V5 ou Zundapp. Depois os ciclistas viraram moda. Passou a ser hype andar por aí a passear com bicicletas de milhares de euros, armado em urbano-chique-ecologista-preocupado-com-a-forma-física.

 

Tenho por princípio respeitar as opções de cada um. Mas os ciclistas que por aí circulam são umas bestas idênticas aos automobilistas. Descem ruas em declive a velocidades alucinantes, não param nos vermelhos, andam pelos passeios a toda a brida. Há-os cumpridores e urbanos, mas são, também eles, uma minoria.

 

Todos os dias me cruzo com alguns espécimenes da moda, que se fazem acompanhar de uma câmara Go-Pro colocada junto ao capacete. Não entendi ainda se é para filmar manobras radicais – que é ao que se destinam as Go-Pro – se para prova de algum acidente ou pela ostentação de trazer mais 300 € presos ao quico. Agora querem que a culpa em caso de acidente seja sempre dos automobilistas. A tentativa de desresponsabilização chega a este ponto patético. E o cuzinho lavado com água de malvas, querem? 

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Beatas.

por Fernando Lopes, 28 Jul 14

Hora de almoço, porta do centro comercial. Fumo um último cigarro antes de subir. Um homem alto, cabelo grisalho desgrenhado, faces encovadas e olhos escuros, mecanicamente apanha as betas da areia e mete-as ao bolso. Não olha para ninguém, cabeça baixa a evitar olhares de censura, nojo ou simples surpresa.

- Deixe isso aí, eu dou-lhe um cigarro.

Agradece-me com um aceno de cabeça e parte, cigarro aceso.

Ninguém deveria estar sujeito a tal humilhação, especialmente por um vício tão «inócuo» como o do tabaco. 

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A buganvília que não gostava de televisão.

por Fernando Lopes, 27 Jul 14

(o estafermo da buganvília)

Podes estranhar o título do post. Hoje em dia todos os escrevinhadores titulam entre o poético e surrealista, está na moda, e eu, velho cínico, sigo a tendência com trejeito hipócrita, um esgar no canto da boca. Ter uma casa no campo é fonte inesgotável de alegria, surpresa e despesa. Nunca sabes o que vai encontrar, há sempre arbustos a cortar, uma lâmpada fundida de que não tens substituto, um problema com algum electrodoméstico. 

 

 

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Pode parecer estranho escrever algo não para quem não nasceu, mas para quem não se sabe se irá nascer. Este vosso avô é um tipo peculiar. Escrevo-vos porque me dei conta que ao ser pai tardio dificilmente vos irei conhecer, brincar convosco, levar-vos ao parque da cidade para ficarmos ali, em silêncio, ao pé do lago, ouvindo o coaxar das rãs. Ocasionalmente o avô é dado a estas epifanias. Só quero dizer-vos que espero que o mundo que vos deixo seja melhor que o que me deixaram. Foi assim com o meu pai e avô. Se a genética for uma ciência confiável, herdareis de mim grandes angústias e momentos sublimes, tereis a noção que nesta bola azul, coexistem o mais nobre dos caracteres e o mais vil dos homens, a beleza e a fealdade, a glória e a tragédia. Não vos sei explicar porquê, mas são assim o mundo, a natureza, os homens. E isso é bom. Este que vos olha do passe-partout existiu em carne e osso, amou e foi amado, viveu com a maior dignidade que lhe foi possível. Não tem lições para dar, conselhos solenes, estórias que mereçam ser contadas. Andou por aqui a fazer o melhor que lhe foi possível, esforçando-se por ser humano, empático, coerente. Se abraçarem estes valores simples que ensinei à minha filha, vossa mãe, o homem da fotografia, vosso avô, ficará feliz porque já fez um bom trabalho. E isso é bom, mesmo muito bom. 

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A «Caxa».

por Fernando Lopes, 24 Jul 14

8:20. Enquanto me desloco de carro, ligo o rádio. Um homem de voz timbrada explica as maravilhas de abrir conta na «Caxa». Cartões de crédito grátis, isenção de comissão de descoberto e outras alegrias do mundo do consumo. Querida «Caxa» como é que podemos iniciar uma relação comercial se ainda estamos nos preliminares e já me roubaste o «i»?

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O menino foi ao cabeleireiro.

por Fernando Lopes, 23 Jul 14

Como sabem os meus queridos leitores, fui criado com os avós. Passava no entanto os fins-de-semana em casa dos pais, que à época moravam na Rua da Constituição. O tempo era gasto a assistir aos treinos das camadas jovens do F.C. do Porto no velho campo, lambuzavando-me com os pastéis da «Primazia», a família jantava ocasionalmente no «Chamiço». Uma vida pequeno-burguesa, sem glória ou sobressalto. Na rua ainda hoje existe um barbeiro que naquele tempo seria o que pode designar de requinte médio-superior. Um local onde se falava única e exclusivamente de bola. Ainda hoje lá está, quase intocado, com uma placa luminosa - «Salão Elfma – Cabeleireiro de Homens». Nesse tempo os pais tinham uma empregada interna. Um amigo de juventude, o Daniel, liga para casa com o intuito de acordar onde seria a farra daquele sábado.

- O menino Zézinho não está, foi ao cabeleireiro, responde a solícita rapariga.

Com 16 ou 17 anos fui gozado durante meses, questionado sobre o que fazia num «cabeleireiro», que outro eu era o menino Zézinho. Numa caminhada, passei por lá recentemente e recordei-me desta velha estória e de como as gaffes e locais nos marcam, muito para lá do tempo.

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Fumar.

por Fernando Lopes, 21 Jul 14

Harry acendeu o cigarro, inalou profundamente o fumo e tentou imaginar os vasos sanguíneos da parede dos pulmões a absorverem ávidos a nicotina. A vida estava a tornar-se mais curta e a ideia de que nunca iria deixar de fumar enchia-o de uma estranha satisfação. Ignorar os avisos dos maços de tabaco podia não ser o acto mais extravagante de rebelião que um homem podia ter, mas pelo menos podia dar-se a esse luxo.

 

Jo Nesbø, «O Pássaro de Peito Vermelho»

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Armadilha do tempo.

por Fernando Lopes, 19 Jul 14

Uma deusa. Tudo o que sonhaste numa mulher está ali, mesmo à tua frente. Tal como as divindades, permanece intocável, num qualquer patamar inacessível. Observas a distância segura e tudo te encanta; elegância, simplicidade, inteligência, o modo doce. Depois realizas que caíste na armadilha do tempo, que aquela mulher é uma miragem, uma sombra no teu deserto, aconchego no frio glacial. Fora do tempo, fora de tudo, seríamos uma dupla perfeita, yin e yang. Encolhes os ombros e caminhas com a dignidade possível. Não há um tempo, só há o tempo e não é o teu. 

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Fonte: observador.pt

Nunca fui grande leitor de comics. A minha geração lia os sempiternos Tintin, Astérix, Lucky Luke, Spirou, a produção europeia em geral e franco-belga em particular. Comprávamos a revista Tintin que trazia histórias em continuação. Os fascículos eram depois encadernados em volumes de vinte seis e colecionavam-se álbuns, versão mais cara com a aventura completa. Olhando para a estante à minha frente localizo três volumes do Tintin, o Jornal do Cuto, Flecha 2000 e Jacaré, tudo encadernado como mandavam as leis da época. Os comics americanos eram importados do Brasil, numas revistas coloridas, pequeninas. Foram essas edições que, em Portugal, divulgaram heróis como Super-Homem, Hulk, Homem-Aranha, Thor, O Demolidor, Surfista Prateado e muitos outros que se tornaram familiares das massas através de produções cinematográficas nas últimas décadas.

 

A América e a sua obsessão pelo «politicamente correcto», invadem-nos por todo o lado, numa fúria regulatória sem fim à vista. Comer gorduras, fumar, beber bebidas alcoólicas ou dar uma palmada no rabo de uma criança birrenta, transformaram-se em crime de lesa-pátria. Todos formatados, todos iguais, com os mesmos valores e hábitos, numa sociedade cada vez mais orwelliana.

 

Esta paranóia chegou agora do mundo da BD americana. Leio que Thor vai ser mulher e o Capitão América preto, ou melhor, afro-americano. Sempre respeitei as mulheres, nunca fui racista. Aliás, acho mais sexista usar «pessoa do sexo feminino» que mulher ou «negro» em vez de preto. Os eufemismos não passam disso mesmo, formas de suavizar a língua, tornando-a asséptica. Nunca nenhuma mulher ou preto se zangaram comigo por os ter definido assim. Um mundo às avessas em que o pensamento único se insinua até no mundo da banda desenhada. 

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