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O livro que tenho cá dentro.

por Fernando Lopes, 28 Jun 14

Quando a avó casou, veio de Entre-os-Rios para o Porto. Ao contrário do avô, quase um literato à época (tinha concluído o 9º ano), só tinha a 4ª classe e muita vontade. Ele, com 22 anos, tinha entrado para os STCP como supranumerário, o que significava que só trabalhava nas folgas ou doenças dos efectivos, podendo ser chamado a qualquer momento para suprir ausências não programadas. Conduzia eléctricos, com ambição de entrar para os escritórios como viria a acontecer. Corria o ano de 1934 e a «Primeira Exposição Colonial Portuguesa», pelo que, como rapariga prendada, logo arranjou trabalho numa pensão. Cozinhava, arrumava e todas as tarefas associadas à hotelaria. O trabalho era pago com a estadia grátis do jovem casal no hotelzinho. Penso que viveram assim todo o ano de 1934. Contava fascinada o movimento de pessoas de todo o país e até estrangeiros que animavam a cidade para visitar a exposição, as maravilhas da mesma.

 

Pensei em escreve-lhes a estória, em jeito de homenagem, com particular ênfase neste período, em que também a tragédia lhes bateu à porta com a perda do primeiro filho 24 horas após o nascimento. Precisava de dois bens que escasseiam: tempo e talento. Tempo para investigar a época, o contexto histórico e social que presidiu à Grande Exposição Colonial, talento para descrever e romantizar estes fragmentos de gente que veio da aldeia para a cidade, um com 10 anos para trabalhar na oficina de mestre-carpinteiro do pai e estudar à noite, outra, menina filha de barbeiro, que sabia tudo sobre a vida doméstica, costurar, fazer queijo e manteiga e até «jogar à laranjinha», número de malabarismo feito com bolas, que à escassez das mesmas era feito com laranjas. E a avó mantinha quatro em simultâneo no ar.

 

É esse o livro que tenho cá dentro e é aqui que vai ficar. 

 

(*) - Motivado por um comentário da Ana e baseado no sábio princípio «Todos temos um livro cá dentro. Na maioria dos casos é onde deveria permanecer»

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A velha senhora.

por Fernando Lopes, 28 Jun 14

Imagine um corredor com pouco mais de uma dúzia de metros quadrados. Nesse espaço, longilíneo, arrumam-se um pequeno balcão, encostado à direita, as máquinas, do café, lavar loiça, fazer sumos. Tudo isto encoberto pela montra que exibe doces e salgados. Ao fundo uma torradeira industrial, um fogão e uma banca de cozinha. Local meio amarelecido e sem graça, nem sujo, nem limpo. No espaço sobejante quatro pequenas mesas redondas de pé alto e bancos de como os de balcão de cervejaria para optimizar o espaço. Ali tomam o pequeno-almoço umas dezenas, almoçam uma dúzia ou pouco mais, em turnos de dois à volta de cada mesa. É assim a «galeria» que frequento todas as manhãs. Se me atrasar os odores matinais do pão com manteiga foram já substituídos pelo da sopa precocemente preparada.

 

Adquiri o estranho hábito de observar as pessoas. Todas as manhãs, a um canto, a velha senhora. Parece já ter ultrapassado há muito os sessenta, deduzo que deveria estar reformada. No entanto, qualquer actividade profissional a leva ali todos os dias. Tem um ar simultaneamente nobre e pobre. As poucas vezes que a ouvi falar demonstrou um sotaque do sul, da capital. Não parece encenação dada a modéstia do local. Folheia o jornal desinteressada e despede-se. Toda ela soa a mistério, estória por contar. Imagino-a oriunda de classe alta, caída em desgraça, obrigada a frequentar locais onde não encaixa. Que fará? Será caixeira envelhecida de alguma das lojas de antiguidades da zona? Fará limpezas? Escriturária em fim de carreira? Divirto-me a adivinhar uma velha espia na miséria, uma madame cascalense que o destino conduziu a local improvável. É apenas uma velha senhora, humilde no vestir com pose nobre que faz viajar esta pobre imaginação a uma vida de glória e tragédia.

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