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O Papa Francisco e os pobres.

por Fernando Lopes, 30 Jun 14

O Papa Francisco é uma personagem que me agrada, simples, despretensioso, com capacidade para discutir a homossexualidade, o sacerdócio feminino e tudo que não seja um dogma de fé. Esta urbanidade e modernidade é um dos seus grandes atractivos, mesmo para ateus assumidos como eu. A igreja católica há muito merecia alguém assim, capaz de acompanhar o tempo que corre.

 

No melhor pano cai a nódoa, e a afirmação de Francisco:«Os comunistas roubaram-nos a bandeira. A bandeira dos pobres é cristã [...]. Os comunistas dizem que tudo isto [a pobreza] é algo comunista. Sim, claro, como não? Mas vinte séculos depois [da escritura do Evangelho]. Quando eles falam nós poderíamos dizer-lhes: pois sim, sois cristãos»,parece-me limitativa. Os pobres não são «bandeira» mas dura realidade que todas as pessoas de bem gostariam que não existisse.

 

Limitar a empatia com os pobres aos cristãos e comunistas é uma visão parcelar da realidade. Há pessoas de centro, de direita, com grande capacidade de dar, entrega, lutadores empenhados contra a pobreza. A luta contra esta praga não é limitada por barreiras ideológicas ou religiosas como parece crer Francisco, mas de todo aquele que aspira à dignidade para a humanidade. 

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O livro que tenho cá dentro.

por Fernando Lopes, 28 Jun 14

Quando a avó casou, veio de Entre-os-Rios para o Porto. Ao contrário do avô, quase um literato à época (tinha concluído o 9º ano), só tinha a 4ª classe e muita vontade. Ele, com 22 anos, tinha entrado para os STCP como supranumerário, o que significava que só trabalhava nas folgas ou doenças dos efectivos, podendo ser chamado a qualquer momento para suprir ausências não programadas. Conduzia eléctricos, com ambição de entrar para os escritórios como viria a acontecer. Corria o ano de 1934 e a «Primeira Exposição Colonial Portuguesa», pelo que, como rapariga prendada, logo arranjou trabalho numa pensão. Cozinhava, arrumava e todas as tarefas associadas à hotelaria. O trabalho era pago com a estadia grátis do jovem casal no hotelzinho. Penso que viveram assim todo o ano de 1934. Contava fascinada o movimento de pessoas de todo o país e até estrangeiros que animavam a cidade para visitar a exposição, as maravilhas da mesma.

 

Pensei em escreve-lhes a estória, em jeito de homenagem, com particular ênfase neste período, em que também a tragédia lhes bateu à porta com a perda do primeiro filho 24 horas após o nascimento. Precisava de dois bens que escasseiam: tempo e talento. Tempo para investigar a época, o contexto histórico e social que presidiu à Grande Exposição Colonial, talento para descrever e romantizar estes fragmentos de gente que veio da aldeia para a cidade, um com 10 anos para trabalhar na oficina de mestre-carpinteiro do pai e estudar à noite, outra, menina filha de barbeiro, que sabia tudo sobre a vida doméstica, costurar, fazer queijo e manteiga e até «jogar à laranjinha», número de malabarismo feito com bolas, que à escassez das mesmas era feito com laranjas. E a avó mantinha quatro em simultâneo no ar.

 

É esse o livro que tenho cá dentro e é aqui que vai ficar. 

 

(*) - Motivado por um comentário da Ana e baseado no sábio princípio «Todos temos um livro cá dentro. Na maioria dos casos é onde deveria permanecer»

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A velha senhora.

por Fernando Lopes, 28 Jun 14

Imagine um corredor com pouco mais de uma dúzia de metros quadrados. Nesse espaço, longilíneo, arrumam-se um pequeno balcão, encostado à direita, as máquinas, do café, lavar loiça, fazer sumos. Tudo isto encoberto pela montra que exibe doces e salgados. Ao fundo uma torradeira industrial, um fogão e uma banca de cozinha. Local meio amarelecido e sem graça, nem sujo, nem limpo. No espaço sobejante quatro pequenas mesas redondas de pé alto e bancos de como os de balcão de cervejaria para optimizar o espaço. Ali tomam o pequeno-almoço umas dezenas, almoçam uma dúzia ou pouco mais, em turnos de dois à volta de cada mesa. É assim a «galeria» que frequento todas as manhãs. Se me atrasar os odores matinais do pão com manteiga foram já substituídos pelo da sopa precocemente preparada.

 

Adquiri o estranho hábito de observar as pessoas. Todas as manhãs, a um canto, a velha senhora. Parece já ter ultrapassado há muito os sessenta, deduzo que deveria estar reformada. No entanto, qualquer actividade profissional a leva ali todos os dias. Tem um ar simultaneamente nobre e pobre. As poucas vezes que a ouvi falar demonstrou um sotaque do sul, da capital. Não parece encenação dada a modéstia do local. Folheia o jornal desinteressada e despede-se. Toda ela soa a mistério, estória por contar. Imagino-a oriunda de classe alta, caída em desgraça, obrigada a frequentar locais onde não encaixa. Que fará? Será caixeira envelhecida de alguma das lojas de antiguidades da zona? Fará limpezas? Escriturária em fim de carreira? Divirto-me a adivinhar uma velha espia na miséria, uma madame cascalense que o destino conduziu a local improvável. É apenas uma velha senhora, humilde no vestir com pose nobre que faz viajar esta pobre imaginação a uma vida de glória e tragédia.

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PEC (Processo de Estupidificação em Curso).

por Fernando Lopes, 26 Jun 14

Queria ser capaz de escrever qualquer coisa sensível, inteligente, engraçada. Não consigo, encontro-me completamente exaurido. Com as alterações laborais decorrentes da ofensiva generalizada ao trabalhador, essa espécie maldita, passo nove horas por dia, excepção feita a mini pausas tabágicas, a trabalhar como quando tinha vinte. Regresso ao refúgio abatido, prostro-me no sofá e adormeço passados alguns segundos. Para quem não tem trabalho estas queixas são um bocado mariquinhas, só que com 51 é complicado manter permanentemente este «acelerador a fundo». Chego também a conclusões desanimadoras: esforço, empenho, vontade, carácter, são qualidades nitidamente underrated. Vale mais vender uma imagem, como se de produto de marketing se tratasse, ou ser filho dilecto de quem está no poder.

 

Durante uns meses refugiei-me na leitura, e até Abril tinha lido doze livros, o que me permitia algum alheamento deste penoso dia-a-dia. Estou tão estupidificado que já não tenho vontade de ler. Toda a sociedade está contagiada, nunca vi tantos trabalharem tanto por tão pouco. Salva-nos neste PEC (Processo de Estupidificação em Curso), o futebol, o fado e a nossa Senhora de Fátima. É doloroso ver a alienação globalizada que tomou conta deste país. Mais que o retrocesso de direitos, a mentalidade geral é cada vez mais a do sobrevivente e não a do vivente. E, confesso, preferiria viver a sobreviver. 

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A selecção portuguesa ...

por Fernando Lopes, 25 Jun 14

faz-me recordar as moças de má fama do meu tempo. Andavam na galderice, davam baldas a todos e passavam o fim mês aflitinhas a fazer contas. 

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Não são imperfeições mas marcas distintivas.

por Fernando Lopes, 24 Jun 14

Jantar de S. João. À roda da mesa circula livremente o vinho, cerveja, sangria. Um grupo de amigos que se querem bem e respeitam, reúne a mais rara das qualidades; são excelentes seres humanos. Há jornalistas, professores, psicólogos, bancários, farmacêuticos, engenheiros, uma pequena amostra de pluralidade.

 

As raparigas falam de tratamentos dolorosos que fizeram à pele para eliminar acne resistente e outras pequenas marcas. Não sou defensor desses tratamentos, acho-as bonitas de qualquer forma. Gosto dos caninos afilados, das marcas de borbulhas, do cravo com carácter bem acima do nariz, dos óculos de massa, dos olhos constantemente vermelhos.

 

Os homens normais não querem amar uma modelo perfeita, respeitam e enternecem-se com estas particularidades do rosto de cada uma. Amar é também amar as imperfeições, traços de vida e personalidade que dão a cada rosto a sua singularidade. A beleza é algo de único, mesmo nessas pequenas marcas. Não seriam tão belas sem elas. 

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O Porto está a mudar.

por Fernando Lopes, 22 Jun 14

Declaração de interesses: não votei em Rui Moreira, aliás o mais à direita que consegui votar foi no PS, mesmo assim com grandes tremores e cólicas associados. Tenho no entanto de lhe fazer justiça: RM tem procurado dar nova vida à cidade, à cultura, a manifestações de cariz popular. Tem procurado trazer a cidade à rua através de exposições, concertos e festividades várias. O Porto parece, lentamente, acordar da mumificação imposta por Rui Rio, de má memória, ele próprio um morto-vivo encafuado no seu apartamento vizinho ao cemitério de Agramonte. Os concertos, as exposições, os arraiais, a revitalização de locais tradicionais do S. João, como a Rotunda da Boavista, não nos livram de sermos pobres (uma das regiões mais deprimidas da país), não minoram o desemprego, os bairros sociais, as ilhas, a pobreza. Mas proporcionam a todos, e aos mais indefesos em particular, um foco de esperança. Vêm-se mais sorrisos, há um maior sentido de pertença, de alegria de viver. Nesse aspecto, e num respeito não caritativo pelos mais pobres que julgávamos esquecido, tem Rui Moreira feito um bom trabalho. Que continue. 

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Um ídolo tem obrigações redobradas.

por Fernando Lopes, 21 Jun 14

Em Manaus, debaixo de uma tempestade, centenas de jovens brasileiros esperaram horas para (ante) ver Cristiano Ronaldo. Todos sabemos da agenda carregada, compromissos publicitários, da exaustão mental que deve acompanhar este assédio constante. São no entanto estes fãs que ajudaram na  fama e fortuna de um rapaz de origem humilde que tem como única qualidade conhecida, a excepcional habilidade para jogar à bola. Contra ordens e tormentas, CR devia ter ido saudar os que o aguardavam, porque um ídolo também é aquele capaz de descer do Olimpo temporário em que o colocaram para mostrar face humana, cumprimentando e agradecendo aos que o admiram incondicionalmente.  

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Da liderança pelo exemplo.

por Fernando Lopes, 19 Jun 14

Chegamos a um ponto na nossa vida colectiva em que os valores profundos, intrínsecos à boa natureza humana, por escassez de capacidade transaccionável, são tão raros quanto pigmeus no Ruanda. A gente sabe que existiram, até se lhes dava bom uso, mas feneceram. É assim nas empresas, nas escolas, na veneranda Assembleia da República. Liderança pelo exemplo é coisa do passado, aliás, dos nossos mais altos representantes, aos quadros superiores da administração pública e outros, o truque, a artimanha, o proveito próprio, são lei. Existe o que defini como «relação adaptativa com a verdade», que trocado em miúdos significa que o que hoje é, amanhã pode ser uma coisa totalmente diferente. A falta de vergonha na cara passou a ser nota curricular de relevo, pois integridade, frontalidade, hombridade, têm os tansos.

 

São estes, zelosos a destruir os direitos dos outros e céleres a defender os seus, que se sentam por aí, no governo, assembleia, ministérios e empresas. Dão-nos lições de ética sem se preocuparem um segundo em «praticar o que pregam».  Nada lhes acontece, porque a imensa mole que trabalha e os sustenta, fornece-lhes os nutrientes que os mantêm viçosos: incapacidade de revolta e indiferença. 

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Escritor fantasma.

por Fernando Lopes, 18 Jun 14

Hoje em dia não há bicho-careta que não dê em escritor. Desde apresentadoras de televisão que criam romances, a doentes terminais a debitar lições de vida, matronas que reproduzem com brio as receitas da avó, até uns jornalistas pândegos que produzem humorados manuais sobre parentalidade. Não sei quantos escritores fantasma existem por aí, a alugar pena e engenho a quem deles necessite. Na livraria folheei páginas de obra de vedeta televisiva e ganhei uma certeza: quem tem verdadeiro talento jamais se confinará à penumbra de ghost-writer.

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