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O mimo já não volta.

por Fernando Lopes, 8 Abr 14

Quem passa com frequência pela zona da Boavista, no Porto, poderá recordar-se de um mimo que empoleirado em cima de uma caixa, cara pintada de branco, muito magro, uma espécie de Marcel Marceau deslocado no tempo. Antes da crise, após uns segundos estático, pedia aos carros parados nos semáforos. Uns tempos depois vi-o, já com o cheiro a tragédia a impregnar o ar.

 

Tinha adicionado um adereço trágico, um cartaz que dizia: «Tenho Fome».

 

Falei com ele há meia dúzia de meses, estava com barba, exibindo uns dentes estragados, sonhando com um tratamento dentário, coisa neste país de terceiro mundo, de milionários.

 

Hoje cruzámo-nos de novo, eu no carro, ele a pedir.

 

- Vai desistir de ser mimo?

- Tenho pintado, quero ver se compro umas telas, disse enquanto recebia uma moeda de euro.

 

Sinal verde, apenas consigo emitir um rouco e um pouco emocionado, Boa Sorte!

 

Portugal sempre foi um país de merda, habitado por gente de merda, com sonhos de merda, ambições de merda, inteligência de merda, sensibilidade de merda.

 

Em dois dias tive de explicar à filha porque estava um octogenário a mexer no lixo, porque pede um artista para comprar telas. Estado social, sensibilidade, respeito para com os velhos e pobres, tudo isso é agora ainda mais difuso, e um pai sente nojo por esta realidade, por deixar esta miséria endémica como herança à sua descendente de oito anos.

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