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A minha rua.

por Fernando Lopes, 29 Abr 14

Por muitas ruas que calcorreie volto sempre «à minha rua», a da infância, onde brinquei, joguei à bola, fui feliz, com aquela satisfação que só faz par com a inocência. Descia lentamente e via gente já morta naquelas casas abandonadas e emparedadas. Vi a D. Palmira, que para mim nunca foi jovem, curvada com o pequeno saco de compras, o velho Ramalhão, à janela a acenar com a boina, a viúva do proprietário dos «Grandes Armazéns do Norte», morena, pequenina e redonda, a entrar para o Rover 3.500 V8 com o auxílio do leal motorista, o velho bar «Bacalhau» com a sua decoração arrojada.

 

A casa do Ramalhão está habitada não sei por quem, a da viúva deu lugar a uma clínica de estética, o bar é um cartório, mas nunca o serão verdadeiramente, por mais pinturas e néons que lhes ponham. Na minha cabeça, ou melhor, no meu coração, tudo permanece imutável. É talvez por essa estranha razão que «a minha rua» se refere sempre à rua da nossa infância.

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25 de Abril, o «gourmet» e o popular.

por Fernando Lopes, 27 Abr 14

Saí de casa na sexta 25, logo pela manhã, e por força das circunstâncias e vontade própria desliguei-me das notícias, não o suficiente para não ter tomado conhecimento que existiram duas celebrações da data em simultâneo: uma institucional, na AR, com a tropa fandanga do costume, reformados precocemente por serviços prestados à nação, os ex-jotas que agora são líderes, advogados que redigem contratos de PPPs e nas horas vagas são deputados da nação, antifascistas que acham que a Coreia do Norte é uma democracia, trotskistas com pedigree familiar e por aí fora. Ao que ouvi no Largo do Carmo a Associação 25 de Abril promoveu assim uma coisa mais popularucha, com capitães, vetustos ex-líderes de partidos e aquela «gentinha» que cheira mal dos sovacos, tem dentes estragados e passa fome, mas que obedientemente de 4 em 4 anos elege o seu alter-ego para tomar decisões. Os legítimos representantes do povo, dizem. Quem nada leu e pouco viu fica com a sensação que houve duas cerimónias; a dos eleitos e a dos eleitores. A coisa é um bocado ridícula, assim como se o 25 de Abril se dividisse nas comemorações de governantes e governados, o que é um bocado estranho quando se assegura que «a legitimidade do poder emana do povo», esse mesmo povo que não pode assistir às cerimónias. Faz-me lembrar a gente bem que dá 5 € para a sopa dos pobres enquanto goza uma refeição requintada no Eleven. Que são 5€ para uma lavagem completa de consciência? Agora podemos eleger os políticos, até a espaços chamar-lhes nomes, mas, bem vistas as coisas, não mudou assim nada de substancial, pois não? 

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Curenta.

por Fernando Lopes, 27 Abr 14

Há muito anos atrás, chorei a rir quando Judite de Sousa, no Telejornal da hora do almoço se referia ao aumento do preço do «laite». A emissão ainda era dos estúdios do Monte da Virgem e pensei com os meus botões: «Esta rapariga vai longe, ainda não saiu da província e já tenta imitar o sotaque da capital». Aqui o vosso escriba tem um sotaque à Porto indisfarçável e assumidíssimo. Este fim-de-semana, sem net e com acesso limitado à televisão, passei o tempo a ouvir a boa da Judite a referir-se aos «curenta» anos do 25 de Abril. De onde raio é que se diz «curenta»? No Porto não é …

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Vou ali e já venho.

por Fernando Lopes, 25 Abr 14

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Pessoas descartáveis.

por Fernando Lopes, 22 Abr 14

«A vida das pessoas não está melhor, a do país está muito melhor» disse o grande filósofo Luís Montenegro. Ao contrário do que alguns bem intencionados argumentaram, não se trata de uma gaffe, mas de uma peculiar mundividência actualmente dominante. As pessoas interessam muito pouco, nada mesmo. A vida resume-me a modelos macroeconómicos, a uma gigantesca folha de Excel onde a variável «ser humano» toma com facilidade o valor zero.

 

Aponto três casos com que lidei esta semana: pessoas entre os 30 e 48, todos licenciados. Um, ao fim de seis anos de estagnação vai para África, outro, desempregado, tenta a sua sorte na Europa, outra ainda foi despedida após o período puerpério.

 

Três pessoas experientes, demasiado caras para o mercado actual que se alimenta de estagiários low cost. A desvalorização de trabalhadores qualificados e experientes é má para todos; os mais novos entram num mercado guiado pelo mínimo denominador comum, quem está entre os 30 e 45 é demasiado caro e consequentemente desinteressante, quem tem mais de 50 é velho e dispensável. Ao contrário do que querem fazer crer não existe guerra geracional, todos, do mais novo ao mais experiente, estão depreciados.

 

As pessoas, essa abstracção, tornaram-se demasiado incómodas nesta guerra contra o trabalho, em que este é visto não como um direito mas um tesouro a conservar seja por que meio for. Não surpreende pois que o desemprego desça, quem pode foge, quem não pode sujeita-se a trabalhar por pouco mais que uma côdea.

Poder-se-á argumentar que estou a partir da experiência particular para o geral, mas não é o todo a soma destas pequenas partes com que vamos lidando dia-a-dia?  

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Como um Buda.

por Fernando Lopes, 20 Abr 14

Vou muito menos que desejaria ao lugar que adoptei ou que me adoptou, já não sei bem. É o lugar do Casal, freguesia do Vale, Arcos de Valdevez. Fizemos a viagem em pouco menos de uma hora, cem quilómetros, paragem para almoço no snack-bar café Cunha. Duas costeletas de vitela depois, a subida. A casa fica numa encosta, o anterior proprietário criou uma varanda de 20 ou 30 m₂ de onde só se avista monte e uma estrada se exibe e oculta entre curvas, num jogo quase erótico de adivinhação.

 

Sento-me e sinto-me enorme e pequeno, contemplativo, admirando as rolas em voos e arrulhar de sedução. Embora não seja comum, e há muito os cavalos tenham sido substituídos pelas moto 4 e afins, hoje, o barulho dos cascos a bater no asfalto. Quatro homens passeiam-se a cavalo e o som sincopado dos cascos soa melhor que a mais excelente world music.

 

Ali, como em todo o espaço ocupado pelo homem, há traições, conflitos, rivalidade, desprezo, ódio. Não é dia para reflectir sobre a rudeza do campo, as caçadeiras que todos têm em casa, a faísca que pode ser ignição de conflitos. Como um buda, sento-me, observo, inspiro. A visão, o silêncio das montanhas bastam para limpar a alma deste citadino.

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Uma imagem por dia.

por Fernando Lopes, 20 Abr 14

De «mãos atadas», como o resto dos portugueses.

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Por aí.

por Fernando Lopes, 18 Abr 14

Começar a caminhar e deparar com um varredor; para ele não há feriado. É a minha bússola interior que conduz. Numa pequena mercearia também não existe descanso, exibem-se frutas e vegetais, carregam-se caixas. À medida que me vou aproximando do centro da cidade vêem-se cafés, tabacarias e outros pequenos negócios a funcionar normalmente. Cedofeita adentro paro uns minutos num dos mais belos alfarrabistas que conheço, o «Candelabro». Na zona pedonal pode ouvir-se espanhol, inglês, francês, alemão. O meu Porto transformado em atracção turística de massas é algo que ainda me é estranho; não desagradável, não invasivo, apenas estranho. Estacam frente a um cartaz que anuncia «Filetes de pescada com salada russa, 3,90€». Fico parado, a escutar. Provavelmente não entenderam que no centro de uma cidade europeia se pode comer de faca e garfo por menos de 5€. Tanto pior para eles, acabarão esfolados num qualquer restaurante turístico, referido num pocket guide da treta. Nos Leões espanholas apreciam toalhas «preciosas», enquanto os maridos fotografam incessantemente, a armazenar memórias da curta visita em cartão SD. Retorno pelo Rosário, a evitar aquela Babel de línguas. Em Aníbal Cunha vende-se uma pequena casa, quase romântica, certamente resistente, entrincheirada entre dois prédios. É esta a minha cidade, contrastes, cinza, tristonho, ao mesmo tempo exibindo altivez de nobre falido.

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51 anos, nove meses e 4 dias.

por Fernando Lopes, 17 Abr 14

É o tempo que Florentino Ariza espera por Fermina Daza em «O Amor nos Tempos de Cólera». Se alguma coisa aprendi é que o tempo não é nada para quem o vence pelo amor. E escrever é um acto de amor. Até sempre ou até já, Gabriel Garcia Márquez.

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Rosa Bêbada.

por Fernando Lopes, 16 Abr 14

Em tempos muito remotos, entre meados de 60 e finais de 70, os meus pais tinham uma empregada interna. A coisa era relativamente indolor para ambas as partes e funcionava assim: recrutavam numa família conhecida de Entre-os-Rios que tinha várias irmãs. As raparigas ficavam lá em casa, aprendiam as maravilhas da domesticidade, juntavam o seu salário para o «enxoval», arranjavam namorado, casavam e eram substituídas pela irmã mais nova. Foi assim com a Maria, Fernanda e Rosa, todas filhas do mesmo pai e mãe.

 

As duas primeiras nunca criaram problemas, saíram lá de casa como amigas e visitavam-nos com os maridos com alguma frequência. Sempre foram simpáticas, prestáveis, fizeram seu este Porto de acolhimento.

 

A última era uma moça mais problemática, de cara fechada, carácter irascível, hábitos não muito condizentes com os das irmãs. Apesar de nova, gostava da pinga. Só o descobrimos quando o merceeiro apresentou à mãe uma conta calada de cervejas.

 

- Deve estar enganado Sr. António, o meu marido não bebe – argumentou a mãe.

- Mas a Rosa veio cá buscar cerveja, D. Maria José.

 

Após aturadas investigações que fariam ruborescer de amadorismo Sherlock Holmes, foram descobertas dúzias de garrafas debaixo da cama da rapariga, que ficou proibida de beber, especialmente à conta dos meus pais.

 

Nesse tempo o pai trabalhava na Câmara do Comércio Luso-Britânica, e a sua função era facilitar e promover contactos e trocas comercias entre Portugal e  a Grã-Bretanha. Os associados pagavam um fee e tinham apoio técnico e comercial da Câmara que o pai representava. Obviamente que quando os negócios corriam bem recebia presentes de agradecimento, entre eles uma garrafa de vinho do Porto de 1857, ainda com um rótulo feito manualmente. Ganhou um amor especial àquela garrafa, que exibia com cuidado e orgulho.

 

A Rosa, num dia em que a sede falou mais alto, foi à garrafeira, e escolheu a garrafa com aspecto mais «velho», precisamente a tal.

 

Dando pela falta da sua estimada garrafa, apertou com a rapariga que confessou tê-la bebido. Se queriam ver um homem que não bebia desesperado com álcool, ei-lo. Nunca falava mal, mas nesse dia perdeu a compostura.

 

- Esta puta bebeu mais de 20 contos em vinho do Porto. Estava a guardar aquela garrafa para o casamento dos meus filhos!

 

Andava de um lado para o outro, desesperado.

 

- Fala sua bêbada, fala! A minha garrafa favorita!

 

O episódio passou, a Rosa ganhou a alcunha de «Rosa Bêbada», saiu lá de casa uns anos depois, mas a «estória» ainda hoje provoca o riso entre os sobreviventes, tornando-se numa espécie de lenda familiar.

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