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A vida em três mulheres – Cristina.

por Fernando Lopes, 15 Fev 14

O título fará franzir o sobrolho do cínico – lá está ele a abrir a gaveta da intimidade, que é que interessa? Nada, mas não escrevo para ninguém senão para mim; o gostarem ou não, ter dez ou dez mil leitores, é-me rigorosamente indiferente. Dei-me pois, numa tarde de sábado, a reflectir sobre as mulheres que me marcaram, que são e serão, enquanto tiver conhecimento, parte de mim. É uma espécie de homenagem a seres humanos especiais que também transformaram momentos da minha vida em algo especial.

 

Conheci-a no liceu, através de amigos. Com menos três ou quatro anos que eu era demasiado nova para que lhe prestasse atenção, e no entanto, a primeira vez que a olhei a sério o coração parou. Cabelos loiros, olhos castanhos, dentes de coelho, um corpo de deusa preso a uma cabeça adolescente. Foi talvez a rapariga mais descentrada em si que conheci. Tudo o que fazia, pensava, dizia, tinha como objectivo último fazer-me feliz. Talvez um amor assim só possa acontecer na adolescência mas ainda hoje não estou certo disso. Tinha vivido em Luanda durante a guerra civil entre a UNITA e o MPLA e um pânico absoluto a tudo o que fossem ruídos similares a balas. Contou-me depois que tinha ido para a escola debaixo de fogo e que esse terror das metralhadoras, do barulho da guerra, ainda a não tinha abandonado. Os pais eram muito jovens e protegiam a filha de todas as maneiras possíveis. Os encontros eram planeados ao minuto, a pretexto de recados, compras, tudo o que lhe permitisse sair de casa. Numa boleia que a mãe da Cristina me deu fez a pergunta a que um rapaz de dezanove anos é incapaz de responder:

- Quais são as suas intenções em relação à minha filha?

Balbuciei qualquer coisa, porque quem não sabe que um adolescente não pensa em compromissos também não merece resposta melhor.

 

Não me recordo porque nos separamos, apenas o facto de não resistir à constante vigilância; queria sair com a namorada, com os amigos, não ficar sempre à espera de um encontro furtivo de cinco minutos. Guardei no entanto esta imagem doce, da rapariga incondicionalmente apaixonada, tão bonita e novinha. É esta representação que ficou e ficará para sempre, na minha memória.

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